Dom Marcos Teixeira de Mendonça – o “bispo guerreiro” e as Guerras Brasílicas na Bahia.

 Dom Marcos, Nascido em Lamego (Portugal) em 1578, era um clérigo oriundo da nobreza..

Doutorou-se em Teologia pela Universidade de Coimbra. Em 1592, foi Deputado do Santo Ofício. De 1608 a 1611, ensinou na Universidade de Coimbra. Entre 1611 e 1617, foi cônego doutoral da Sé de Évora e depois, tornou-se inquisidor-mor daquela cidade

Em 25 de outubro de 1621, foi nomeado quinto bispo de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, tendo seu nome confirmado pela Santa Sé em 1622. Após emissão de carta régia em 19 de março de 1622, o bispo se dirige a seu bispado, e lá chegando, foi feito também inquisidor.

Será preciso lembrar que, desde 1580, o monarca espanhol acrescentou Portugal às suas possessões, quando o rei português morreu sem deixar herdeiros diretos, dentre os candidatos ao trono, a reivindicação de seu parente mais poderoso – o rei Filipe II de Espanha – prevaleceu. Estava feita a União Ibérica (1580-1640), onde Portugal e Espanha eram reinos governados pelo mesmo monarca (embora sabiamente o rei espanhol, ciente do nacionalismo português, jamais tivesse forçado a diluição do país e da nação portuguesa e suas colônias, nomeando gente da terra para governar o Império Português em seu nome). Desta forma, o território brasileiro e demais colônias lusas ficaram sob domínio da coroa espanhola até 1640, quando Portugal recobrou sua independência.

Mas se os Habsburgos espanhóis ganharam por um lado, no ano seguinte perderam por outro: em 1581, das dezessete províncias dos Países Baixos espanhóis, sete delas, mais setentrionais e protestantizadas, promoveram uma rebelião nacionalista e calvinista contra a autoridade de Filipe II (que era senhor destes e vários outros territórios por herança e determinação de seu pai – Carlos V – falecido imperador do Sacro Império Romano Germânico), formando uma confederação chamada de maneira simplista de “Províncias Unidas dos Países Baixos”, que, conquistando independência política, passou a ser inimiga dos Habsburgos e do catolicismo, acolhendo em seu território huguenotes franceses e judeus luso-espanhóis que deixaram a Península Ibérica. Rapidamente essa nova república se destacou como grande destino comercial, fundando as grandes companhias das Índias Ocidentais e Orientais; criou também uma poderosa frota que passou a dominar os mares, e registrou um grande florescimento na arquitetura, literatura, ciências e artes, no chamado “Século de ouro”.

Na Bahia, a notícia da invasão.

No início de 1624, o Governador-Geral Diogo de Mendonça Furtado foi avisado de Madri que partira dos Países Baixos poderosa esquadra para invadir a Bahia.
Sem enviar recursos e socorros, a Corte recomendava-lhe vigilância e atenção para as obras de fortificação.

Mobilização da Bahia.

O Governador-Geral tratou de mobilizar todo o povo e de melhorar, guarnecer e artilhar os sete fortes da baía de Todos os Santos. Em pouco tempo, Salvador transformou-se em verdadeira praça de guerra, com mais de mil homens em armas.
Na iminência do perigo, o povo atendeu ao chamamento das armas em defesa do ideal luso-espanhol de dilatação do Império e da Fé católica, sob séria ameaça no Brasil.
O povo em armas era constituído de portugueses, espanhóis e brasileiros. Estes, por sua vez, eram formados por brancos, negros e mestiços de todos os matizes, já impregnados daquele ideal político-religioso. O bispo D. Marcos Teixeira abandonou as divergências e colaborou com o Governador-Geral.
Com sacrifício, armou-se o pequeno e improvisado exército, no qual se destacavam arcabuzeiros do povo e índios flecheiros.

Invasão neerlandesa.

Decorridos quase quatro meses da notícia, não começara a invasão e a opinião dominante era a de que os neerlandeses tinham desistido. Muitos homens em armas retornaram aos seus afazeres, em parte encorajados pelo Bispo, e assim Salvador perdeu as defesas tão bem preparadas.
Mas, no dia 8 de maio de 1624, surgiu a poderosa e ameaçadora esquadra da Companhia das Índias. Compunha-se de 13 navios mercantes e 26 naus grandes, armadas com 500 canhões e guarnecidas por 3.300 homens, sendo 1.700 para o combate em terra e ocupação. Era uma fração expressiva de um dos mais célebres exércitos da época.
O Almirante Jacob Willekens comandava esta potente força militar e tinha por auxiliares o famoso corsário Pieter (Piet) Heyn e o Coronel Johan van Dorth, Governador das terras a conquistar.

Surpresa e confusão

O fraco valor defensivo de Salvador, combinado com a surpresa do aparecimento da esquadra, fez com que o moral da população baixasse de repente. Pareceu inútil a muitos o confronto tão desigual em qualidade e quantidade. Alguns começaram a deixar a cidade rumo ao interior, levando o que podiam. Contudo, o governador dispôs-se a reagir.
No dia 9 os invasores atacaram, e as fortificações baianas responderam, especialmente a fortaleza nova. O invasor, com um plano detalhado das fortificações, procurou evitar ser atingido. Usando 16 embarcações, focou especialmente em atingir as defesas da cidade.
Enquanto as fortalezas duelavam com a esquadra inimiga, cinco navios, que os neerlandeses haviam deixado fora da barra, aproximaram-se do Forte de Santo Antônio e desembarcaram na praia, sem encontrar reação, numa força de aproximadamente l.500 homens.

Reação na “Porta de São Bento”.

Diante da esmagadora superioridade, a guarnição do forte abandonou a posição e retardou o avanço inimigo até a Porta de São Bento, onde o invasor sofreu muitas baixas sob a ação decidida de seus bravos defensores (O mosteiro de São Bento foi construido extramuros, ao sul da cidadela, emprestando seu nome a uma de suas entradas mais próximas. As muralhas da cidade foram demolidas no correr dos séculos).
Várias tentativas frustradas foram feitas contra o baluarte. Extenuados, os invasores cessaram fogo e decidiram aguardar o dia seguinte, para dobrarem o ímpeto ofensivo no mesmo local e penetrarem no interior da muralha que protegia Salvador.

Reação das fortificações

Apesar do seu pequeno valor defensivo e de serem detalhadamente conhecidas pelo invasor, as fortificações cumpriram sua missão.
Durante todo o dia 9, duelaram com os 500 canhões dos barcos inimigos, anulando diversas tentativas de assalto.
À noite, Piet Heyn, com algumas barcaças, aproveitando-se da escuridão, escalou as muralhas do isolado Forte de Nossa Senhora del Popolo e de São Marcelo, mais conhecido como Forte do Mar. Saltou para o seu interior e obrigou a guarnição a abandoná-lo.

Queda de Salvador.

Sem deter a avalancha da invasão, tão bem planejada e contra a qual era inútil resistir, abandonaram Salvador, durante a noite, a guarnição e a população, rumo à aldeia do Espírito Santo de Ipitanga, aldeia erigida pelos jesuítas, em 1558 (hoje em dia, Abrantes, fora d cidade, no litoral norte). No dia seguinte, os holandeses, por terra e mar, desfecharam ataque sobre a cidade abandonada.

Os invasores entregaram-se a saques, profanações e sacrílegos. aprisionando o Governador-Geral (que não abandonara o posto), juntamente com seu filho, Antônio de Mendonça, o Ouvidor-geral Pero Casqueiro da Rocha, o Sargento-Mor Francisco de Almeida Brito além de quatro padres beneditinos e 12 jesuítas. A seguir, preparou-se para prosseguir para o interior. O governador-geral Diogo de Mendonça Furtado foi deportado para os Países Baixos.
Assumiu o governo de Salvador o Coronel Van Dorth.
A sede do Governo-Geral do Estado do Brasil caía em mãos estrangeiras, mas não seria por muito tempo: os desterrados, que constituíam a maioria da população, calculando-se dez mil só de portugueses, refugiaram-se pelas cercanias; os fazendeiros e donos de engenhos acolhiam a todos com caridade, não faltando comida e abrigo aos que os procuravam. Dispersos pelos matos, resolveram os luso-brasileiros assentar arraial na aldeia indígena do Espírito Santo.

Surge o líder da reação.

Na aldeia do Espírito Santo os oficiais da Câmara abriram as vias de sucessão. Matias de Albuquerque então governante de Pernambuco, deveria ocupar o cargo. Contudo, devido à grande distância e difícil comunicação, os baianos convencionaram obedecer ao desembargador Antão Mesquita de Oliveira, nas funções de Capitão-Mor. Este, em breve, era substituído pelo bispo D. Marcos Teixeira, eleito pela Câmara de Salvador.

Dotado de qualidades invulgares, o “bispo guerreiro” procurou levantar o moral da massa confusa que deixara a cidade. Imediatamente transformou a aldeia em acampamento de retirantes e Quartel General da resistência anticalvinista. Não obstante ser o local muito acanhado, ergueram-se uma capela e algumas frutificações. Esta aldeia se tornou a sede do governo-geral do Brasil e obstáculo para a expansão neerlandesa em direção ao oeste.

Fez dali um marco de contenção do avanço inimigo. O bispo mobilizou os homens válidos, proibiu relações com o intruso, incutiu confiança e entusiasmo em todos, enfim, organizou a reação e decidiu cobrar caro a invasão.

Guerra brasílica.

Sem ajuda militar e desamparados da Metrópole, os luso-brasileiros improvisaram meios para enfrentar a potente e bem treinada fração de um grande exército.
Através de judicioso aproveitamento do terreno e do emprego de táticas de combate nativas brasileiras, organizaram as companhias de emboscadas ou “assaltos”, compostas de 25 a 40 homens. Surgiu, assim, no Brasil, novo tipo de guerra, a “guerra brasílica”, que tanta surpresa e admiração iria causar entre os europeus. Caracterizava-se por ações de surpresa, rápida dispersão, rápida mobilidade e iniciativas individuais.

Essas táticas serviram de modelo para a formação do que mais tarde se denominou companhias de emboscadas (guerrilhas, em termos atuais), por ocasião da expulsão definitiva dos holandeses de Pernambuco, em 1654, cognominada Insurreição Pemambucana.

Entendendo que a tomada da cidade fora castigo do Céu, devido aos vícios e pecados de seus habitantes, Dom Marcos passou a fazer rigorosas penitências, com vigílias e jejuns, de modo a se tomar exemplo para todas as classes sociais de seu bispado.

O milagre da cruz

Certa ocasião, os hereges atacaram a Ilha de Itaparica em busca de mantimentos, desembarcando num engenho em cuja entrada havia um cruzeiro de madeira. Vendo a cruz, odiada por todo herege, os invasores nela aplicaram algumas cutiladas. A cruz milagrosamente se torceu, virando-se para um lado, parecendo indicar o caminho a seguir pelos invasores. Estes depararam-se então com um dos nossos comandantes, chamado Afonso Rodrigues da Cachoeira, o qual, com a ajuda de alguns índios, matou oito dos hereges. O fato milagroso ocasionou tanta veneração votada àquela cruz, que dela fizeram-se relíquias responsáveis por muitas curas.

A brava resistência aos invasores criou condições propícias para o enfraquecimento do inimigo e a grandiosa vitória da armada espanhola-lusitana, que veio libertar a Bahia no ano seguinte.

Emboscadas matam Van Dorth e Schouten.

Em pouco tempo, as “milícias dos descalços” cercaram, por completo, Salvador, levando a morte e a destruição a todo inimigo que deixasse as muralhas em busca de suprimentos para a manutenção da conquista. Tombaram mortos sob a ação das emboscadas, sucessivamente, o Governador neerlandês Van Dorth quando foi inspecionar a fortaleza de São Filipe, e seu sucessor, o Coronel Alberto Schouten, comandante da força terrestre, este sendo substituído por seu irmão Willem Schouten.

O cerco.

Ao se convencerem da impossibilidade de expansão para o oeste, onde pereceriam, os neerlandeses buscaram proteção no interior das muralhas, agora já cercados por terra. Para manter a conquista de Salvador, cavaram o extenso fosso de Tororó, junto às muralhas, entre as portas do Carmo e de São Bento. O êxito das emboscadas e o pavor de que foi tomado o invasor fizeram aumentar a confiança, a audácia e a determinação dos defensores. Todos os chefes se uniram e passaram a acreditar que era chegado o momento de expulsar o intruso.

Solidariedade de Pernambuco.

Em setembro, mandado por Matias de Albuquerque, chegou de Pernambuco, com reforços em provisões e pessoal, Francisco Nunes Marinho, na qualidade de Governador-Geral. Recebeu o governo do bispo-soldado, e adotou medidas para tornar o cerco mais rigoroso e agressivo. Em 8 de outubro de 1624 morreu D. Marcos Teixeira, a alma da reação e catalisador de vontades e esforços.

Segundo Jonathas Serrano surgiram boatos que o bispo Marcos Teixeira de Mendonça foi morto por envenenamento em 1624 porque descobrira as ligações de membros da elite baiana em especial judeus portugueses, com os invasores holandeses sendo o cristão novo Diogo Abrantes o principal espião a serviço da Frota da Companhia das Ìndias Ocidentais.

“Jaz sepultado na Capella de N. Senhora da Conceiçaõ de Tapagipe lugar distante da Cidade da Bahia meya legoa. Delle fazem honorifica memoria Manoel de Faria e Sousa Europ. Portug. Tom. 3. Part. 2. cap. 3. §. 6. Fr. Gio Giusep. de S. Teres. Histor. del Brasile. Part. 1. liv. 2. Rocha Americ. Portug. liv. 4. §. 36. Brito Freire Nov. Lusit. liv. 2. n. 120. 159. 165. e 167. Sousa Cathal. dos Bisp. da Bahia. §. 5. Sylva Cathal. dos Colleg. de S. Pedro . §. 41. Monteiro Cathal. dos Inquis. de Evor. §. 27. Dictou no tempo, que foy Mestre na Universidade de Coimbra”.

Ronda da morte.

Inspirado pelo exemplo do heróico eclesiástico, Nunes Marinho liderou a reação com agressividade, sem dar descanso ao invasor, levando a morte para dentro da área do cerco. O testemunho do padre Antônio Vieira, que então vivia na Bahia, dá conta do heroísmo e dos sacrifícios da gente baiana para libertar a terra: “Passaram noites e dias sem dormir e descansar, viviam e dormiam sem um teto, alimentavam-se precariamente de farinha, padeceram por vezes seguidas, frios, fomes e sedes, além de estarem faltos de munição que foi conseguida com o próprio inimigo, através das emboscadas”. As únicas coisas abundantes entre os luso-brasileiros eram o ânimo para a luta e o desejo de libertar a Bahia.

Nuvens de setas mortíferas.

Destacaram-se na reação os índios flecheiros das aldeias baianas, valiosos instrumentos ofensivos, principalmente nos períodos agudos em que faltava munição. Com freqüência, formações compactas neerlandesas viam cair, de surpresa, nuvens de setas que lhes causaram ferimentos e muitas baixas. Os inimigos mais ousados, ao prepararem o arcabuz para revidarem o ataque, caíam ao solo, com o peito varado por flechas.

Situação insustentável.

Rareavam-lhes as provisões. Nada ou quase nada obtiveram da terra invadida ou da Holanda. Os baianos tornaram-se cada vez mais audazes e agressivos. Começou a lavrar entre os invasores o desânimo. Por fim, verificaram que a Companhia das Índias Ocidentais errara em sua apreciação estratégica, não avaliara as possibilidades dos habitantes nem se preocupara que empreendimento tão vasto deveria ser acompanhado de um apoio condizente. A lição custara imenso dispêndio de dinheiro e de vidas. Em dezembro de 1624, enviado pelo Rei, assumiu o governo da Bahia o Capitão-Mor D. Francisco de Moura. Veio com a missão de dirigir a reação até o envio de uma expedição de socorro, em aprestamento acelerado na Espanha.

A resposta da nobreza

Ao chegar a Portugal e Espanha, a notícia da invasão holandesa causou profunda comoção. Parecendo sair de um letargo, portugueses e espanhóis aprestaram-se logo a organizar uma expedição para libertar a Bahia. Determinou o rei de Espanha a todos os sacerdotes que celebrassem missas, rezassem uma novena e ladainhas nessa intenção. Em Lisboa, o Santíssimo Sacramento ficou exposto à adoração pública, em súplica pela concretização da expedição.

Dirigiu o rei da Espanha, com data de 7 de agosto de 1624, carta a seus governadores espalhados pelo vasto império, convocando todas as naus disponíveis para dirigir-se ao Brasil, já a 20 do mesmo mês, para expulsar os invasores.

A campanha pela libertação da Bahia empolgou nobres e plebeus, lusos e espanhóis.

Dom Afonso de Noronha, do Conselho do Estado e antigo Vice-Rei da Índia, foi o primeiro a se alistar. Em seguida, inscreveram-se mais de 100 fidalgos.

Plano ousado e inteligente.

Era preciso completar o cerco de Salvador com o bloqueio marítimo. A isto entregou-se de maneira ousada e inteligente o Capitão-Mor. Em pouco tempo, esquadrilhas improvisadas, de canoas e lanchas armadas, singravam a baía e isolavam o invasor. Dificultaram-lhe desembarcar em outros pontos do Recôncavo para buscar recursos de sobrevivência. O sítio de Salvador tornou-se cada vez mais rigoroso. No interior da muralha foram encurralados, por mais de 1.400 luso-brasileiros, 2.800 inimigos, dos quais 1.600 soldados, 700 mercenários de diversas nacionalidades e 500 escravos armados.

A esquadra de socorro e a reconquista da cidade do Salvador.

As notícias sobre a vinda da armada para libertar a Bahia já tinham chegado aos ouvidos dos neerlandeses, que com muito afã se prepararam para o confronto. Também eles aguardavam a chegada de uma armada de socorro mandada por Amsterdã.

Ao contrário da invasão de 1624, a reconquista da Bahia, um ano depois, deparou com uma praça bem fortificada pelos invasores e disposta a tudo para não se entregar. Foi construído um forte novo com uma fornalha de três bocas, onde se esquentavam pelouros e se faziam outros fogos para o combate; foram assestadas 92 peças de artilharia, e ainda diversas trincheiras disseminadas pela cidade, algumas das quais muito bem fortificadas. Na praia firam erguidos sete baluartes, alguns capazes de conter 100 mosqueteiros. Além do mais, possuíam os batavos 22 navios de guerra bem equipados.

Anteriormente à chegada da armada, os católicos mantinham os neerlandeses sob intenso cerco, não os deixando sair da cidade “nem para pegar um limão”

No dia 29 de março de 1625, dia da fundação da cidade, véspera do Domingo da Ressurreição, fundeou, próximo à Ponta do Padrão, poderosa esquadra luso-espanhola, sob o comando de D. Fadrique de Toledo Osório, composta de 38 navios espanhóis, 20 portugueses e quatro napolitanos com 1.185 canhões e 12.563 homens, entre soldados e marinheiros, dos quais aproximadamente 4 mil eram portugueses. Tantos eram os nobres presentes na expedição, que se dizia não haver exemplo, desde muito, de tão brilhante e poderosa armada ibérica. Por isso, ficou conhecida como Jornada dos Vassalos. Em Portugal, os apelos do governo para a constituição dessa força tinham encontrado decidido apoio. Parecia mesmo que o país inteiro tomava a invasão da Bahia como se fora a do próprio Reino. Segundo D. Manuel de Menezes, testemunha importante desses acontecimentos, numerosos foram os exemplos de dedicação e espírito de sacrifício dos portugueses para restaurar a Bahia. Estava em causa a honra lusitana. A nação inteira contribuiu para a expedição com dinheiro, munições, navios e seus mais destacados filhos. A Espanha empenhou- e em equipar a armada.

Já em terra, os combatentes distribuíram-se com suas companhias pelos montes principais que circundavam a cidade, recolhendo-se em casas ou barracos de palha. Nobres e soldados, todos trabalhavam na preparação do assédio à cidade.

Os capitães das mais nobres estirpes luso-espanholas estavam ali presentes, porque o ideal da nobreza exige uma vida inteiramente dedicada ao sacrifício pela Fé católica e pelo Rei.

Reforços brasileiros

Mais significativo ainda foi o reforço da resistência baiana por um contingente de brancos e índios, trazidos do Rio de Janeiro, via marítima, por Salvador Correia de Sá e Benevides e de Pernambuco, por Jerônimo de Albuquerque Maranhão. Continuava a tradição de solidariedade e apoio mútuo das diferentes partes do Brasil nascente, em prol da integridade territorial e cultural do país.

A Libertação.

Em águas baianas, D. Fadrique recebeu a bordo o Governador D. Francisco de Moura, com quem concertou planos para o desembarque e ataque dos navios e fortificações. No dia 30, a frota de socorro realizou o bloqueio, impedindo a fuga de qualquer barco inimigo. No dia 31, desembarcaram as tropas. Salvador foi submetida a rigoroso cerco, que se foi apertando aos poucos até que o invasor, cedendo terreno, abandonou os fortes e buscou proteção nas muralhas da cidade. A partir de 6 de abril de 1625, a luta tornou-se cada vez mais intensa e, segundo frei Vicente do Salvador, testemunha ocular, “durante 23 dias não se passou um quarto de hora, de dia e de noite, sem que se ouvisse o estrondo de bombardas, esmerilhões e mosquetes de parte a parte” W. Schouten foi ferido, tendo sido escolhido para ocupar o seu lugar o Capitão J. Ernest Kijf. Diante da evidência da inutilidade de reação o invasor capitulou no dia 30. Entregou a cidade com todos os seus valores, além de armamento e munições, navios, escravos, e libertou os prisioneiros. Em contrapartida, permitiram-lhe retornar os Países Baixos com roupa, suprimentos para três meses, armas e munições para a defesa na viagem. Os oficiais conservaram suas espadas.

Entrada triunfal em Salvador.

A 10 de maio de 1625, D. Fadrique, Marquês de Villanueva de Caldueza, à frente de bravos luso-brasileiros da Bahia, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de São Paulo e das poderosas tropas trazidas da Espanha, entrou triunfalmente em Salvador, antes que a dominação neerlandesa completasse um ano.

A rendição dos neerlandeses ficou para sempre marcada na memória de nosso povo. Até hoje se conserva a mesa onde foi assinada a rendição, no mesmo lugar, que é a magnífica sacristia do Convento do Carmo, em Salvador.

Haviam sido profanados vários lugares dedicados à prática da Religião: o Colégio dos jesuítas transformado em mercado, a igreja contígua, em adega, e outras igrejas utilizadas como armazéns de pólvora etc. Haviam também sido enterrados nas igrejas, principalmente na Catedral, os corpos dos comandantes holandeses mortos em combate. Após o desfile de vitória, esses restos mortais foram dali removidos, sendo as igrejas re-consagradas ao culto divino.

Com a recuperação da Bahia, encerrou-se um dos mais belos capítulos da história militar brasileira, marcado por sacrifícios de toda a ordem, heroísmos e provas inexcedíveis de amor à terra por parte dos baianos, sobre os quais recaiu o peso da luta durante 10 longos e sofridos meses, até a chegada dos reforços da Metrópole. Destes, permaneceu em Salvador um terço português, 10 companhias de 100 homens cada. No ano seguinte veio governar o Estado do Brasil D. Diogo Luís de Oliveira, mestre-de-campo que atuara durante seis anos em Flandres. O novo Governador tratou de melhorar as fortificações da cidade.

Espírito Santo mais uma vez derrota corsários.

O invasor expulso passou a agredir outros pontos do litoral, sem conseguir êxito. Com cinco navios, Piet Heyn incursionou no Espírito Santo em 1625. Repetindo os feitos do século XVI, os espírito-santenses derrotaram o famoso Almirante batavo. A força de Salvador de Sá, então em Vitória, transitando para reforçar a defesa baiana, cooperou com eles no sentido de fazer fracassar as tentativas de desembarque dos corsários e barrar-lhes o passo do rio Santa Maria. Poucos dias depois, os holandeses abandonaram a região.

Socorro holandês frustrado.

Uma das duas frotas neerlandesas de socorro, sob o comando de Boudewijn Hendrickszoon, chegou às costas da Bahia nos últimos dias de maio de 1625. Depois de haver navegado nas águas próximas, tomou o rumo do Nordeste, em busca de abrigo, pois havia muitos doentes a bordo. Conseguiu desembarcá-los na baía da Traição. Pressionado pelos defensores da terra, Hendrickszoon velejou para o Caribe, deixando sepultados no Brasil perto de 700 homens.

Não foi a última tentativa de invsão dos neerlandeses, que tentaram invadir a Bahia até 1638.

Foram definitivamente expulsos do Brasil em 1654.

E assim, mais uma vez, o território brasileiro foi salvo da dominação dos hereges. Primeiramente devido à proteção especial da Divina Providência. Depois, em virtude da atuação de homens que manifestaram possuir um espírito característico da mais alta nobreza: nobres pelo sangue e nobres por sua bravura!

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Deus não morre.

Não temos um, mas dois bispos.

Promessa de futuro. A Tradição será transmitida. Que Deus seja para ambos o Único amor, o Único bem, a Única razão para todas as suas empreitadas.

Viva Cristo Rei! Que Deus abençoe Monsenhor Williamson e seja para Monsenhor Faure Seu verdadeiro consolo!

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É uma reação espiritual. Quem diria que hoje os papas se empenham em destruir a Igreja, enquanto clérigos obscuros e desconhecidos se empenham em edificá-la

Monsenhor Williamson realmente fez o que estava em seu alcance. Agora está visível. A obra de Deus é de DEUS, não é de ninguém.

Como dizia D. Tomás de Aquino: um pai de família deve agir como um pai de família. Um padre deve agir como um padre, e um bispo como um bispo. Se D. Williamson não transmitisse a Sucessão Apostólica por política, por escrúpulos mundanos, para evitar a fúria da FSSPX – a primeira a excomungar seu gesto, antecipando-se a própria Roma, a primeira a renegá-lo com tal veemência que arrancou elogios das próprias autoridades modernistas, mas também de tantos e tantos leigos com conhecimento…

D. Rifan somou-se agora ao bispo de Nova Friburgo e aos modernistas de Roma. Tristemente constatamos que D. Lourenço Fleichman e a FSSPX estão juntos com os modernistas de todos os naipes no mesmo propósito: o de se colocarem como inimigos da Resistência.

D. Rifan e a FSSPX unidos num mesmo propósito… Somente isso é suficiente para se refletir…

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Charlie Hebdo?

Jamais.

O mal pelo visto se entredevorou por estes dias. Menos de uma dúzia de radicais ateus foram exterminados por radicais muçulmanos que geralmente dizimam muitíssimo mais do que isso…

E o mundo hipócrita rasga suas vestes pela morte dos terroristas de caneta e pincel!

Mas quando os outros terroristas – os de fuzis e bombas – exterminam populações inteiras de cristãos ou outros não-muçulmanos, como têm feito praticamente TODO DIA na Nigéria, com o Boko Haram, responsável por dez mil mortos só no ano passado, com o Isis que expulsou pessoas de suas casas com a roupa do corpo, fuzilou, separou famílias, coagiu pessoas à conversão, tirou mulheres de suas casas para a prostituição, crucificou cristãos, (e esses dois grupos são apenas dois dos muitos grupos radicais que maltratam os cristãos e não-conformistas), fora a retaliação contra os cristãos vinda diretamente da parte de governos como entre os saudistas e o governo paquistanês, onde o drama de Ásia Bibi inunda por tanto tempo nossas caixas de mensagens… Tudo isso não causa um décimo destes protestos.

O que aqueles cartunistas maçons e antirreligiosos faziam no entanto, era ABOMINÁVEL, era detestável, era torpe. De forma que ver a destruição de qualquer um dos lados – o Islâmico ou o ateísta – chega a dar uma tentação de júbilo, tal é a sede de justiça que temos, tamanhas são as vexações que os cristãos hodiernos sofrem, não tendo vez nem voz sequer nos próprios tribunais franceses (e com isso recordo da profanação das bruxas do femen em plena catedral de Notre Dame, onde o judiciário francês deu ganho de causa a elas, e ainda condenou os seguranças do local pelo crime de tê-las impedido de permanecer profanando a catedral!).

Bem,  não é para aplaudir o derramamento de sangue que desperdiço meu tempo. A morte para o ímpio é o começo do desespero. Todos os homens depois da morte cairão na eternidade. Uma vez mortos, todos seremos imediatamente julgados no juízo particular, em que o Justo Juiz confirma a alma na trajetória que em vida a mesma se obstinou a seguir. Quem neste mundo abusa da liberdade e se afasta por própria culpa de Deus, terá sua vontade respeitada no outro lado, sem possibilidade de mudança de percurso. É como se diz: “a árvore cai pro lado que pende”. E estando a alma apodrecendo no Inferno, resta o dia do Juízo Universal, onde a ressurreição dos corpos unirá à alma danada um corpo grotesco, distorcido pelo pecado, e os homens pérfidos desta forma serão sepultados vivos nos eternos abismos… É algo tão horrível, que nenhum cristão pode desejar o inferno nem mesmo ao pior dos homens, porque é pena tão brutal que ultrapassa o raciocínio humano. É algo indizivelmente pior do que as piores previsões jamais imaginadas.

Mas quem julga é Deus. Não sabemos com certeza o destino das almas, exceto em casos raríssimos permitidos por Ele, com o intuito de converter as almas, glorificá-Lo ou fazer frutificar atos de Caridade Sobrenatural ou outras Graças igualmente importantes… Há quem se salve no último segundo, o que é uma exceção, e JAMAIS uma regra. Mas em muitos casos das almas que se lançam no caminho do pecado em vida, Deus, diante disso, respeita-lhes o livre-arbítrio, porém abrevia-lhes a vida física como o único gesto possível de exercer Sua Misericórdia sem negar ao pecador a sua liberdade, fazendo-lhe um bem, pois não estende mais o tempo a esta alma maligna, que se condena e vai pro inferno, mas sofre penas menos abomináveis do que mereceria, caso permanecesse mais tempo na terra. Assim como no Céu existem graus de Bem-Aventurança, onde quem mais se uniu a Deus em vida maior Glória possui na Eternidade, também no Inferno há graus de desgraça, onde todos sofrem horrivelmente, mas uns são punidos com mais rigor que outros por terem sido os primeiros mais torpes em vida que os últimos. Mas a respeito dos que morreram neste episódio, onde estão agora não é para nós uma certeza, portanto é especulação.

Não compartilho em absoluto o escândalo farisaico desta mídia nojenta. Não foi a revolucionária liberdade de expressão a real atacada. O jornaleco era habituado a ofender as religiões escudado na liberdade de expressão – que mais parece um direito a crimes de ódio antirreligioso sem represálias – e foram aventurar-se com o Islã, foram tratar os islamitas como se a trajetória, a origem desta falsa religião, assim como as vicissitudes e dificuldades pelas quais os cristãos passaram por todos esses séculos fossem compartilhadas pelos maometanos.

O Islã é um mundo paralelo, onde os conceitos cristãos de amor ao Próximo, Caridade e Misericórdia NÃO EXISTEM.

A sociedade contemporânea apostatou, separou totalmente a vida espiritual do dia-a-dia, mas a sociedade islâmica concebe a religião e o dia-a-dia como uma coisa só. Ou seja: o Islã praticamente vive como nos tempos de sua fundação, com poucas variações. Estão alheios aos “valores” pagãos ocidentais. Aliás, detestam estes valores… Os muçulmanos geralmente são avessos a misturar-se com os ocidentais, vistos como ímpios e depravados (no que em muitos casos estão certos) que só servem para viver caso se convertam ou se tornem cidadãos de segunda classe. Eles detestam o mundo ocidental, exceto pelas suas vantagens materiais ou sua relativa liberdade, mas geralmente a maioria dos que para cá se dirigem tenta reproduzir aqui seus modelos de família e sociedade dos seus lugares de origem. Não aceitam de bom grado ser assimilados, e fora uns gatos-pingados que lhes servem de diplomatas (geralmente algum imã que vive no ocidente e que participa de encontros ecumênicos ou aproveita as mídias para vender um islã de paz e amor, contrário ao que chamam de “distorção” do verdadeiro Islã), com o intuito de atrair seguidores ou manter a lua-de-mel com a opinião pública (sempre muito simpática em propagandear o Islã ou dissociá-lo do fanatismo e da violência que são da natureza do próprio Alcorão), a maioria dos muçulmanos concebe este mundo como palco de guerras entre o islamismo e os heterodoxos = nós!

Acontece que o mundo islâmico conserva os mesmos valores desde o tempo de seu fundador. O Islã não sofreu com as revoluções, o islã não sofreu com nenhum modernismo, o Islã não teve um concílio “Meca II” para substituir suas bases tradicionais por doutrinas liberais. Resultado: foi contra gente deste tipo que os ateus franceses se meteram a achincalhar. Os obtusos jogaram pedras, quiçá acostumados com a falta de verve dos que se dizem cristãos, acovardados com o “politicamente correto”, ignorantes da própria história, sempre prontos a ter como verdade as mentiras que atribuem à Igreja, e amolecidos pela vida mundana que levam. Só que séculos de revoluções e propaganda mudaram a cosmovisão européia de cristã para neopagã. Mas isso não se aplica ao Islã: ao levarem uma pedrada, ripostaram com um meteoro, brutais como sempre… E além disso, os cristãos sabem que a Vingança pertence ao Senhor. Mas isso não é preceito islâmico. Eles mal se suportam, quanto mais a uma dezena de ímpios que lhes provoca a fúria.

É o que dá mexer em onça com vara curta. Não aplaudo nenhum dos envolvidos, antes deploro a todos. Os cristãos deveriam se manifestar com muito barulho, mas contra o ódio islâmico que os extermina, seja no Egito, no Paquistão, no Irã, no Sudão ou na Nigéria (e quem dera fossem apenas nestes lugares!). Deveriam manifestar-se ruidosamente contra o ódio antirreligioso e blasfemo movido pelos governos e pela sociedade, que reserva a Cristo e seus seguidores o único grupo em todo planeta pelo qual é legítimo maltratar, perseguir e cobrir de injúrias sem ferir o “politicamente correto”. Deveriam desnudar as contradições da chamada liberdade de expressão, que é usada contra nós como um ariete, e ao mesmo tempo servindo como escudo para nossos inimigos, que praticam seus crimes de ódio anticristão à vontade, dizem ou caricaturam o que bem entendem da maneira mais ofensiva e irresponsável possível, sem um mínimo de empatia, sem jamais colocar-se no lugar das suas vítimas e perguntar-se se desejaria o mesmo tratamento, caso estivesse no lado oposto. Tudo isso acobertado pela opinião pública e pelas leis. Ou seja: a liberdade de expressão pode ser traduzida para nós como direito dado aos nossos inimigos para nos discriminar, difamar, incitar o ódio da opinião pública contra nós, tudo isso debaixo dos aplausos do mundo e da proteção da justiça. E aí de quem levanta um tímido protesto que seja! Eles têm o direito de bater, nós temos o direito de apanhar em silêncio.

Portanto, se eles agora se estranham, que sejam seus próprios carrascos.

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Ratzinger e Bergoglio. O Vaticano e o mundo em 2015

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Neste ano que finda amanhã várias coisas me deixaram desconcertado. Uma delas foi a ausência quase completa de uma celebração condigna de importante efeméride: o sesquicentenário do Syllabus de Pio IX. Este  documento do magistério da Igreja, tão realista na análise e condenação dos principais erros do mundo moderno, é profético na previsão das consequências nefastas que adviriam para a  toda a cristandade caso houvesse uma capitulação da Igreja ante os ídolos do homem moderno, como de fato ocorreu.

A Igreja aceita hoje, como algo normal, legítimo, bom, seu estatuto de  confissão religiosa em pé de igualdade com os outros credos perante a Nova Ordem Mundial que organiza a vida das nações à luz da ideologia democrática revolucionária, a qual afirma que não há outro poder soberano senão aquele que emana da vontade do povo. Bem sabemos quanta mentira se diz, quanta manipulação se faz em nome do povo. Mas este não é o problema mais grave. O problema capital é que a Igreja reconhece como legítima uma ordem política na qual o povo, seja ele enganado ou manipulado ou não, é a única fonte do direito, um sistema político em que o povo é livre para fazer e determinar o que quer sem submissão a nenhuma lei moral objetiva.

Contra esse erro monstruoso, contra esse delírio da enferma mentalidade revolucionária moderna, nos advertiu Pio IX na festa da Imaculada Conceição no ano de 1864, publicando o Syllabus que condena a seguinte proposição: “A razão humana, sem ter absolutamente em conta a Deus, é o único árbitro do verdadeiro e do falso, do bem e do mal; é lei de si mesma e por suas forças naturais basta para promover o bem dos homens e dos povos.”

O pior é que, desde o Vaticano II, a Igreja vem alimentando e animando esse sistema político, colaborando com suas instituições, favorecendo a implantação em escala mundial de regimes baseados no sufrágio universal e na soberania popular, revogando as concordatas com estados que tinham a Igreja Católica como sua guia espiritual.

O papa Bergoglio declarou há alguns meses que desejava estudar as razões que levaram diversos estados a introduzir em sua legislação o casamento igualitário, a tutela da união “homoafetiva”, enfim, os novos “modelos” de família. Se ele reler o Syllabus de Pio IX, encontrará ali a explicação de tudo que ocorre hoje no mundo para nossa desgraça.

A outra coisa que me deixou desconcertado estes últimos dias foi ver estabelecida por alguns tradicionalistas uma falsa antinomia entre Ratzinger e Bergoglio. Ledo engano. O próprio cardeal Ratzinger declarou que considera sua abdicação um gesto iluminado pelo Espírito Santo e o pontificado de seu sucessor uma bênção para a Igreja. Concedo que possa haver diferenças acidentais ou de estilo entre eles, resultantes dos ambientes distintos em que se formaram. Mas não tenhamos ilusões. O cardeal ratzingeriano Raimundo Burke disse que um cardeal não pode ter divergências doutrinárias com o papa mas apenas fazer-lhe ponderações de ordem pastoral.

Bem ao contrário agiram os cardeais Otaviani e Bacci diante de Paulo VI quando lhe remeteram o Breve Exame Crítico da missa nova dizendo que o novus ordo representava um impressionante afastamento do doutrina de Trento sobre o Sacrifício da Missa e pedindo-lhe que o ab-rogasse. Se amanhã os tradicionalistas chegarem a representar uma força que ameace a estrutura da Igreja pós-conciliar, os ratzingerianos se unirão aos bergoglianos contra os tradicionalistas, como ocorreu por ocasião do Vaticano II quando os progressistas mais comedidos se uniram aos mais radicais contra a “teologia tomista da cúria romana”. Nos últimos anos os ratizingerianos concederam aos bergoglianos tudo sem lhes exigir nada: foram nomeados bispos, foram feitos cardeais, foram festejados e celebrados até que chegaram a eleger o seu papa. Ao contrário, quando entabularam um diálogo com os “lefebvristas”, logo lhes exigiram  que aceitassem o Vaticano II e a missa nova. Mas nunca impuseram aos bergoglianos a hermenêutica da continuidade. Nunca os censuraram, mas antes os cobriram de exaltados elogios.

Declaro que, sob certo aspecto, admiro o papa Francisco. Considero-o o melhor intérprete dos documentos do Vaticano II. E nessa perspectiva creio que pode prestar-nos um grande serviço. Ele veio desmascarar a “manobra contábil” que até então tinha sido feita em torno do tesouro do Vaticano II. Veio lancetar um tumor. Bergoglio disse que tem a “humildade e pretensão” de levar o Vaticano II a produzir todos seus frutos. Se João Paulo II é santo, Francisco I é um arcanjo.

Com efeito, o Vaticano II disse na Dignitatis Humanae que os ateus têm o direito de não ser impedidos de professar publicamente seu ateísmo assim como os adeptos de qualquer confissão religiosa. Portanto, proclamou a soberania da consciência humana. Não importa que tenha dito que subsiste o dever de procurar a verdade. O que importa é que ninguém pode ser impedido de professar publicamente seus erros, resguardada a ordem do estado democrático laico. A última palavra pertence ao homem; à Igreja compete-lhe tão-somente aconselhar o homem a investigar a verdade. Ao Estado compete garantir a liberdade de cultos. O que prevalece é a vontade do homem e não a lei divina. Esta é a doutrina liberal do Vaticano II em contradição com todo o magistério precedente. Na mesma perspectiva antropológica de garantir sempre ao homem o primeiro lugar em tudo, o  Vaticano II disse na Gaudium et Spes que não há hierarquia de fins do matrimônio. O homem tem de realizar-se, satisfazer-se em todas suas inclinações; não tem de em primeiro lugar cumprir uma ordem do Criador na transmissão da vida. Ora,  quando Bergoglio diz que cada um tem sua própria concepção de bem e deve segui-la, quando diz que a Igreja se torna estéril querendo dirigir as consciências, quando diz que se deve ter compreensão com os recasados e misericórdia com outros comportamentos um tanto estranhos, Bergoglio aplica fielmente o Vaticano II que, efetivamente, refundou a Igreja.

Logo após o Vaticano II, quando os progressistas começaram a aplicá-lo em todos os campos, houve uma publicação muito infeliz O que o Concílio não disse tentando pôr panos quentes nas horas mais convulsionadas, tentando deitar água fria na fervura dos tradicionalistas que reagiam com indignação aos piores desmandos que vinham de Roma, mas sempre com a preocupação de levá-los a aceitar o Vaticano II e suas reformas. Hoje, infelizmente, parece que alguns tradicionalistas repetem o mesmo erro primário do autor do referido livro.

Em conclusão destas mal traçadas linhas e mantendo longe de mim qualquer espírito profético, desejaria dizer o que espero para 2015 na Igreja e no mundo.

Creio que o papa Francisco (se não for ele, será seu sucessor) levará  a cabo as reformas anunciadas no Sínodo Extraordinário sobre a Família, bem como outras reformas já programadas, em torno das quais já há muito rumor. Creio que os inimigos de Bergoglio serão esmagados ou silenciados. Não haverá nenhum novo monsenhor Lefebvre ou dom Mayer, como já se pôde ver em Ciudad del Leste.

No mundo, espero que a Rússia, apesar da enorme dificuldade econômica que enfrenta em razão do embargo imposto pelos EUA e a União Europeia, continuará sendo um grande obstáculo para a Nova Ordem Mundial. Felizmente. E poderá causar problemas ainda mais sérios para as democracias liberais. Deo gratias.

Cuba, com bastante mão de obra barata e mais qualificada, será um paraíso para o capitalismo internacional. Como a China. Certamente, vão instalar-se ali, junto do porto construído pelo Brasil e próximo dos EUA, muitas empresas que vão faturar grosso sem grande benefício para a população. Capitalismo sem ética e socialismo arcaico de mãos dadas, sob as bênçãos do papa Francisco e os aplausos de Washington.

E o Irã e Israel? E o Estado Islâmico e o talebam? O Irã, juntamente com a Rússia e a Venezuela, os maiores prejudicados da grande manipulação do mercado do petróleo, poderão reagir a sua maneira e dar uma lição aos EUA. E Israel poderá ter dolorosas consequências. E finalmente, por culpa da apostasia do Ocidente, os cristãos do Oriente vão continuar sendo degolados, trucidados por aquelas bestas-feras do Estado Islâmico. E o talebam certamente vai valer-se da negligência dos EUA para continuar seu trabalho de proselitismo.

Os anos vão se passando. A antiga cristandade continua dormindo nas trevas e na sombra da morte, renegando com obstinação suas tradições e valores. Entrementes, o castigo de Deus se vai preparando. O Islão, dentro de poucos anos, ocupará literalmente, com consequências incalculáveis, vastas regiões da Europa. Mas o homem que apostatou não se importa, só quer saber se hoje tem dinheiro e sexo.

Vinde, Nossa Senhora de Fátima, não tardeis! Vinde também, rei Dom Sebastião!

Anápolis, 30 de dezembro de 2014.

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Soneto a Nossa Senhora feito pelo demônio

Em 1823, dois sacerdotes dominicanos, Padres Bassiti e Pignataro, estavam exorcizando um menino possesso de 12 anos de idade, analfabeto. Para humilhar o demônio, obrigaram-no, em nome de Deus, a demonstrar a veracidade da Imaculada Conceição de Maria. Para surpresa dos sacerdotes, pela boca do menino possesso, o demônio compôs o seguinte soneto:

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“Sou verdadeira mãe de um Deus que é filho,

E sou sua filha, ainda ao ser-lhe mãe;

Ele de eterno existe e é meu filho,

E eu nasci no tempo e sou sua mãe.

Ele é meu Criador e é meu filho,

E eu sou sua criatura e sua mãe;

Foi divinal prodígio ser meu filho

Um Deus eterno e ter a mim por mãe.

O ser da mãe é quase o ser do filho,

Visto que o filho deu o ser à mãe

E foi a mãe que deu o ser ao filho;

Se, pois, do filho teve o ser a mãe,

Ou há de se dizer manchado o filho

Ou se dirá Imaculada a mãe.

Conta-se que o Papa Pio IX chorou, ao ler esse soneto que contém um profundíssimo argumento de razão em favor da Imaculada.

O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado em 8 de dezembro de 1854.

Fonte: Aqui.

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Etiópia: bastião de cristandade.

Aviso a todos que o artigo a seguir não é sobre a Igreja Católica, mas sobre uma forma curiosa de cristianismo que se desenvolveu há quase um milênio e meio, com particularidades muito estranhas para nós, produzidas pelo isolamento geográfico, pelo contexto multicultural e por crenças particulares. É uma igreja propriamente dita, se o critério de igreja for o de Sucessão Apostólica, o que a diferencia da maioria das confissões protestantes, mas com costumes realmente estranhos, especialmente para nós, católicos do ocidente.

Etiópia, bastião de cristandade

etíopes ortodoxos

De todas as variegadas comunidades cristãs dispersas pelo mundo, a Igreja da Etiópia é uma das menos conhecidas. Da sua história, que é admirável ; da sua fé, que continua viva através de tantas provações; dos méritos da sua fidelidade – que sabem os outros batizados? Talvez por ter vivido num mundo fechado, isolada quer pela natureza quer por um cerco de vizinhos hostis, esta igreja só é geralmente apresentada sob os seus aspectos mais exteriores, como se os costumes estranhos e pitorescos bastassem para explicar o heroísmo de que deu mostras no decurso dos séculos. Porque a verdade é que a sua história se resume numa resistência constante e pertinaz a todos os conquistadores que tentaram submetê-la. Aconteceu que o seu território foi submergido por invasores, mas no final sempre acabou por reconquistar a liberdade, uma liberdade que teve por fundamento a fé. Não é apenas um mito a célebre lenda do “Reino do Preste João” que, na Idade Média, via a Etiópia como um bastião da fé, firme no meio dos poderes pagãos. Semelhante a essas camadas vulcânicas que dominam, vermelhas e negras, abruptas, os seus planaltos verdejantes a dois mil metros de altitude, a Etiópia cristã representou na História e ainda hoje conserva o significado de um batel batido pelas vagas, mas que resiste.

A antiguidade desta Igreja é indiscutível, mesmo sem considerar as tradições que remontam a sua evangelização aos Apóstolos, São Bartolomeu e São Mateus, ou a esse eunuco da rainha Candace de que se fala nos Atos dos Apóstolos (At, VIII, 27). Sabe-se pelo historiador Rufino que o cristianismo penetrou na Etiópia por volta do ano 340, graças à aventura dos jovens Frumêncio e Edésio, que, criados por piratas, fizeram carreira junto do rei etíope que os comprara, e se portaram como apóstolos zelosos. Foi Frumêncio quem se dirigiu a Alexandria para pedir ao patriarca Atanásio que enviasse um bispo para a Etiópia e ele mesmo foi escolhido para este posto. A segunda fase da evangelização teve lugar no final do século V, com a chegada de nove monges sírios, “os nove santos”, que concluíram o trabalho de atrair para a fé o rei e a corte.

Quer fosse por influência do Egito, quer pela desses monges – que se supôs, aliás sem precisão, terem sido uns exilados, expulsos da pátria por hereges -, o certo é que a Etiópia foi conquistada para a causa monofisista (os monofisistas eram partidários da natureza única de Cristo, derrotados nos Concílio de Calcedônia), na qual se manteve até hoje. Que significava, que significa esse monofisismo? Também neste caso, é difícil dizê-lo. Parece que a Igreja etíope não esteve muito a par dos debates que se deram à volta da questão cristológica, e que terá sobretudo seguido, nos começos do século VII, um bispo egípcio chamado Kerillos (Cirilo). Era partidária da “natureza única”, mas daquele modo especial que vimos nos coptas, ou seja, hostil ao mesmo tempo a Eutiques, o heresiarca; e ao Concílio de Calcedônia que o condenou, porém admiradora de Dióscoro e mais ainda de São Cirilo. A Etiópia passou, pois, da fé tradicional para o monofisismo sem dar por isso; foi só no século XV que tomou clara consciência de estar separada.

É por isso que os juízos acerca da teologia etíope são muito díspares. Os jesuítas dos séculos XVI e XVII não viam nela grande coisa a corrigir. O capuchinho Massaia (1809-1889), que passou na Etiópia trinta e cinco anos e acabou a vida como Cardeal da Igreja romana, pensava que só havia um erro de vocabulário, porque os conceitos de natureza e de pessoa eram pouco claros para os etíopes. O que parece é que atualmente o monofisismo consciente e deliberado só se encontra em certas comunidades monásticas. Na prática, a fé popular admite a natureza humana de Cristo mais ou menos como os católicos e os ortodoxos. Assim se explica que a Igreja católica da Etiópia tenha adotado a maior parte das preces litúrgicas da Igreja nacional, sem alterar nada de importante.

Não quer isto dizer que a Igreja etíope se incline a fundir-se com uma ou outra das duas maiores Igrejas da cristandade. Houve um tempo em que esteve quase a efetuar-se a fusão com os católicos. Foi no século XVII, quando o extraordinário padre Paez, jesuíta espanhol, conseguiu “ganhar” o imperador Susênio Seltan Sadag, que por sua vez pretendeu converter o seu povo à força, o que provocou autênticas guerras de religião. O sucessor de Paez, o padre mendes, pela sua falta de habilidade e brutalidades, apressou a catástrofe e enterrou definitivamente essas esperanças. Dessa aventura restaram somente as ruínas da catedral erguida por Paez em Gorgora, nas margens do lago Tana, e uma extrema desconfiança para com o catolicismo, que só há pouco começou a desfazer-se.

Quanto à Igreja ortodoxa, que fez sérios esforços durante todo o último quartel do século XIX para pôr monges gregos e russos a trabalhar a Etiópia, não alcançou melhores resultados. Houve vários momentos em que se acreditou que a união estava prestes a concluir-se. Mas o Imperador Menelik, considerado como a própria encarnação da pátria etíope depois da sua brilhante vitória de Aduá sobre os italianos, compreendeu que, se a sua Igreja se vinculasse a Constantinopla ou a Moscou, perderia a independência e as suas características originais – e recusou-se a assinar qualquer compromisso formal.

Não foi menos rigorosa a resistência etíope à pressão islâmica. O incremento do poder do Egito contribuiu para reagrupar à volta do trono as forças vivas da nação. Os imperadores portaram-se como defensores da fé, não menos do que como soberanos políticos. Aos ataques dos vizinhos do Norte – um deles semeou o pânico até Gondar -, Teodoro II ripostou, não apenas pelas armas, mas por medidas de natureza religiosa, obrigando os muçulmanos a converter-se ao cristianismo (a liberdade de culto só lhes seria restituída em 1899). Em 1916, a situação esteve a ponto de reverter-se: o negus Lidi Yassu abraçou o islamismo, declarou-se descendente do Profeta, repudiou a sua mulher – cristã -, formou um harém, ordenou a construção de mesquitas e pôs o seu império na dependência religiosa da Turquia. Mas os cristãos salvaram a sua fé. Enquanto a igreja excomungava o soberano apóstata, as tribos do Choa marchavam sobre Adis-Abeba. A filha de Menelik foi proclamada imperatriz, com o Ras (príncipe) Tafari Makonnen (ou Ras Tafari), junto dela como regente e herdeiro. Foi este que, subindo ao trono em 1930, veio a tomar o nome da Santíssima Trindade: Hailê Selassiê. A Etiópia cristã tinha triunfado mais uma vez.

Igreja de pedra em Lalibela, Etiópia.

Igreja de pedra em Lalibela, Etiópia.

Também ganhou a partida num outro plano. Desde tempos imemoriais, talvez desde Frumêncio, designado por Santo Atanásio como chefe da igreja etíope, o Abuná (arcebispo-maior) era escolhido pelo patriarca copta de Alexandria entre os monges egípcios dos conventos do Mar Vermelho. A Etiópia estava, portanto, na situação bizarra de ter por bispo um estrangeiro que, muitas vezes, não conhecia nem o ge’ez, língua litúrgica, nem o amárico, língua popular. A seguir à Primeira Guerra Mundial, em que a Etiópia entrou mais em contato com o mundo exterior – teve um representante na Sociedade das Nações -, desenvolveu-se uma forte tendência para pôr termo a essa situação. Em 1929, o patriarca viu-se compelido a sagrar quatro bispos autóctones, e em seguida a designar entre os monges etíopes o seu chefe, o Echeghiê, superior do grande convento de Debra-Libanos (uma espécie de abade-geral). A invasão italiana acelerou a evolução. Depois de terem tentado em vão trazer para a sua causa o Abuná, que se refugiou no Cairo, os ocupantes suscitaram um movimento separatista, com a ajuda do Echeghiê, que conseguiu ser proclamado Abuná e sagrou bispos “colaboradores”. Um sínodo reunido no Cairo excomungou-os. Mas depois da derrota dos italianos, em 1941, nunca mais se pensou em voltar a colocar a Igreja nacional sob tutela egípcia. O próprio negus (Imperador) Hailê Salessiê dirigiu as negociações, que duraram dez anos. Firmou-se um primeiro acordo em 1948, e nele se previa que, pela morte do Abuná, o seu sucessor seria etíope, enquanto não chegasse esse momento, teria um coadjutor também etíope. Em 1951, foi proclamada a completa independência religiosa, ficando para o patriarca copta do Cairo apenas uma primazia moral e espiritual.

Assim, a Igreja etíope faz rigorosamente um só corpo com a nação, o que lembra, de certa maneira, a situação que existia na antiga Bizâncio. Se o Negus, tal como o Basileu, é uma personagem sagrada, o chefe da Igreja, com direito a honras de caráter religioso, e tem de se comportar em todas as circunstâncias como protetor da Igreja, o Abuná é um senhor dotado de poder incontestável, ao qual os poderes leigos não tentam opor-se. É ele quem sagra o imperador, designa os bispos e goza do direito de absolver e excomungar. Por longos tempos, nenhum Conselho lhe limitava o poder; desde 1948, é assistido por um Sínodo, mas este está bem longe de desempenhar o papel dos Conselhos na Igreja copta do Egito. O único rival sério que o Abuná pode ter – pois não tem o direito de ensinar a religião – é o Echeghiê, que encarna a tradição espiritual e cujo prestígio é grande. Mas, embora por vezes haja tensões internas, o conjunto do clero exerce em uníssono sobre o povo uma tutela facilmente qualificável de medieval.

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Isto porque o povo etíope conserva, na sua maioria, uma inabalável fidelidade à fé. Se, na ausência de recenseamentos confiáveis, é difícil avaliar com precisão o rebanho cristão – os números variam entre 4 e 7 milhões -, a verdade é que todos os viajantes que falam da Etiópia são unânimes em referir inúmeras provas de que a fé não parece ter sido atingida pela moderna laicização. Nossa Senhora é venerada como no mais fervoroso dos países católicos. É frequente ver na testa de um crente a tatuagem em forma de cruz outrora imposta por Zara Yacob e que serve para proclamar a fidelidade. As festas religiosas são tão numerosas – mais uma característica medieval – que é impossível passar oito dias na Etiópia sem assistir a uma ou a outra. Aos sábados e domingos, vêem-se afluir às igrejas coortes imensas de fiéis, quase todos vestidos de uma espécie de alba, o shemma. Nenhum etíope passa em frente de uma igreja ou oratório sem fazer uma reverência. Este povo, que praticamente não recebeu nenhuma instrução durante muito tempo, nem por isso deixa de conservar a memória do seu passado cristão. E rodeia de veneração os grandes centros sagrados: Axum, um antigo reino de Tigre, aonde o imperador continua a ir para a sagração; Lalibela, que conserva o nome de um santo rei e é um prodigioso conjunto de capelas escavadas na rocha, esconderijo sagrado cheio de corredores labirínticos, que milhares de peregrinos continuam a visitar; e ainda os conventos veneráveis, uns empoleirados no cume de alguma montanha quase inacessível, outros ciosamente isolados do mundo pelas águas do lago Tana.

Este cristianismo etíope apresenta muitos traços capazes de desconcertar um observador apressado. É extremamente austero, formalista em extremo, rigoroso em impor a mais longa Quaresma que se conhece – cinquenta e cinco dias – e o jejum das terças e sextas-feiras, pelo menos até ao meio-dia, quando não até às três da tarde. Exige também orações, prosternações, cujo número e profunda inclinação recordam as da Igreja grega. Ao mesmo tempo, contudo, não parece grandemente severo quanto à vida moral, em especial quanto à sensualidade. Aliás, abandonou-se a prática da confissão, exceto em artigo de morte, caso em que se sobrepõe a uma extrema-unção que é também uma confirmação.

Um dos traços mais surpreendentes deste cristianismo é que está impregnado de espírito bíblico, de uma extraordinária adesão ao Antigo Testamento, sobretudo aos salmos. Não é em vão que a dinastia real etíope reivindica entre os seus antepassados Salomão e a rainha de Sabá: o primeiro rei da Etiópia teria sido filho de ambos, concebido na célebre visita; como não é em vão que o Negus tem nas suas armas o leão de Judá. Os usos mosaicos que vimos terem sido conservados entre os coptas do Egito são ainda mais bem observados na Etiópia, designadamente a circuncisão, que é praticada antes do Batismo. Mantém-se o costume de oferecer ao “Senhor do Universo” as primícias de todos os produtos da terra. Durante muito tempo celebrou-se o sábado tanto como o domingo. Não se come carne de animais sem primeiro os sangrar. Os casamentos desenrolam-se de acordo com o cerimonial bíblico: os “amigos do esposo” escoltam o novo casal e o banquete copia as Bodas de Caná. O irmão continua a dever casar-se com a viúva do primogênito falecido, se ela o pedir, a fim de lhe dar posteridade, segundo o famoso preceito do Levirato. Acrescente-se ainda que, dos preceitos bíblicos sobre a hospitalidade devida aos estrangeiros, sobre a generosidade para com os pobres, os etíopes extraem uma bondade e uma caridade bem reais *.

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A arquitetura, a arte e a liturgia contribuem também para dar ao cristianismo etíope características sem par e um tanto insólitas. Também aqui, numerosos usos herdados de práticas pagãs de há vários milênios, vindas do Egito dos Faraós, ou mesmo do velho fundo autóctone. O costume de celebrar São Miguel, São Jorge, a Natividade e a Assunção uma vez por mês é um resultado evidente de um velho calendário lunar em que cada fase era celebrada religiosamente. O gaês (ge’ez), língua litúrgica, é a do Tigre, e a sua origem é pré-histórica. Quanto ao manuseio do sistro na dança sagrada, é exatamente igual ao que se vê nos afrescos de Tebas ou do Vale dos Reis.

As danças sagradas, a estridência dos sistros, o tilintar das campainhas presas aos incensórios, o lento rolar dos tambores enormes, ou o kabeno – canto alternado, em três modos -, as prosternações de toda a assistência, os convites feitos por diáconos e sub-diáconos… A liturgia eucarística desenrola-se no meio de um aparato de brocados roçagantes, à luz de círios inumeráveis, entre fumaças de incenso, sob o olhar das figuras de santos pintadas nas paredes, de grandes dimensões e cores vivas, e cujos olhos imensos nos rostos estilizados parecem contemplar o Invisível.

Geralmente rodeadas de belas árvores, as igrejas são de forma redonda ou octogonal; as retangulares, mais frequentes no Norte, denotam influência estrangeira. Algumas são rupestres, como a de Dongollo (no Tigre). E todas se dividem em três partes, uma delas reservada ao imperador e ao clero, a segunda aos cantores-bailadores, a terceira aos fiéis que comungam (os outros ficam do lado de fora). O santuário propriamente dito, de forma antiga, diz-se que recorda a Arca da Aliança (aliás, o abuna Paulos, em 2009, garantiu em entrevista ter visto a arca da Aliança, que estaria na Etiópia, mas o mesmo não revelou onde…).

São muitas as cerimônias que se efetuam ao ar livre, segundo usos próprios da Igreja etíope: por exemplo, no dia da Epifania, toda a assistência mergulha na água, com o clero à frente, em memória do batismo de Cristo. A festa da Exaltação da Santa Cruz é mais importante do que a do Natal e a da Páscoa. Dá ocasião a uma explosão de alegria popular: é o Masqal, a velha festa da vegetação renascente, convertida em festa de devoção à Santa Cruz, à qual o imperador não pode deixar de presidir em pessoa, rodeado de todo o clero sem exceção, coberto de capas rutilantes ou de longas vestes brancas com largas faixas de cor à altura dos joelhos. A multidão é encimada por um incrível eriçar de umbrelas (guarda-sóis) de cores berrantes e de cruzes processionais de ouro ou de prata, cujos largos braços têm artísticos ornamentos entrelaçados. Por um bom tempo ouvem-se ressoar cânticos quase dolorosos, cadenciados por “Ale-ale-ale-luia!” E tudo se conclui com um gigantesco desfile atrás dos tabots, as placas de madeira dura ungidas para servir de altares, que só os padres têm o direito de tocar; devem ser revestidas de pesadas sedas cor-de-rosa, verdes ou violetas. Depois, quando cai a noite, acendem-se fogueiras de alegria, em torno das quais a mocidade dançará até a madrugada. E no cimo de todos os montes que rodeiam a capital brilham também milhares de fogueiras…

Para conduzir tão vasta comunidade de fiéis, há um clero abundante. Para falar a verdade, vários milhares de padres só o são de nome, ou não participam senão de algumas festas solenes. Durante muito tempo, não foi necessário qualquer título, ou mesmo qualquer instrução, para ser padre. Bastava ir ter em grupo desordenado com o Abuná, pagar as taxas previstas – outrora em barras de sal -, receber as ordens, também coletivamente, e depois descobrir uma aldeia que aceitasse os serviços do novo padre… Mas, além desses “clérigos eclesiásticos”, houve também desde muito cedo “clérigos leigos”, os dobteras, muito mais bem formados e até, com frequência, estudantes universitários e alunos mais adiantados das escolas secundárias, se não mesmo professores. E são esses que, na qualidade de diáconos, instruem o povo durante as cerimônias, e que constituem a corporação dos chantres bailadores e poetas, indispensáveis em qualquer ofício litúrgico de alguma importância. E têm um desprezo proverbial pelos clérigos eclesiásticos.

De qualquer modo, o elemento mais vivo e igualmente mais sólido é formado pelos monges, tal como entre os ortodoxos. O monaquismo parece ser aqui tão antigo como o próprio cristianismo. Foi o Egito, terra clássica dos santos eremitas, que o implantou no país. Os grandes conventos tiveram um papel importante na história nacional: foram verdadeiros bastiões da fé, e ainda hoje continuam a ser centros de vida intelectual e espiritual. O mais célebre, que é o de Debré Libanos, no Choa, fundado no século XIII pelo reformador Tekle Haymanot, preside à Ordem fundada pelo santo, e é o seu abade quem exerce as funções de Echeghiê, chefe reconhecido do monaquismo etíope. Outros conventos seguem a tradição dita de Eustácio e não têm hierarquia.

Monge etíope

Monge etíope

Existem hoje uns doze conventos de homens e seis de mulheres, com uma população monástica abundante. E a vida neles é de renúncia. Apesar das invasões muçulmanas que devastaram o país, todos eles conservam tesouros tidos por fabulosos, antigos manuscritos que mal se começa a catalogar, ornados de miniaturas de estilo ao mesmo tempo hierático e bárbaro. Foi nos conventos que se deu, de há alguns anos para cá, uma renovação dos estudos teológicos e bíblicos, em ligação com os coptas do Egito e, mais recentemente, com os patriarcados ortodoxos de Constantinopla e de Alexandria, e até com certas confissões protestantes.

O envio de jovens para as universidades e seminários do Egito, da Grécia, de Istambul, representa para a Igreja etíope uma hipótese de futuro. O desenvolvimento de uma comunidade católica etíope, ajudado pela federação da Eritréia com a Etiópia após a Segunda Guerra Mundial, e que se traduz pela abertura de um seminário, de um mosteiro cisterciense, de escolas religiosas mantidas sobretudo por ursulinas, e, pela criação na própria Roma, em 1919, do Colégio Pontifício Etíope, não deixa de provocar alguma emulação.

(…)

Bibliografia: ROPS, Daniel. A Igreja das Revoluções (III) – Esses nossos irmãos, os cristãos. Décimo Tomo da História da Igreja de Cristo.

Nota pessoal: no que diz respeito a um possível relacionamento entre o rei Salomão e a rainha de Sabá, não há nenhum tipo de referência bíblica ou documental, mas é antes uma tradição etíope. Outra curiosidade: existe uma etnia etíope chamada falasha que declara-se judaica desde os tempos de Salomão, e que teria se mantido judaica quando o resto do país, por volta do século IV, teria aderido ao cristianismo. Não há como saber ao certo, nem com certeza. Mas não deixa de ser muito curiosa a acentuada nota judaizante no cristianismo copta, e ainda mais do que nele, no cristianismo etíope “tewahedo”. Quanto a esses auto-intitulados judeus, foram reconhecidos como tais por rabinos antes da criação do novo estado de Israel, que os reconhece, e em várias ocasiões criou “operações de resgate”, levando para Tel Aviv milhares de falashas, judeus negros que por muito tempo ficavam espantados ao ver judeus brancos.

Atualmente essa igreja é chamada oficialmente de Igreja ortodoxa etíope “tewahedo” (que significa “unificado”, baseado na crença iniciada no monofisismo de que Cristo teria só uma natureza, ao contrário da União Hipostática da Igreja Católica e das igrejas ortodoxas, que admite que em Cristo há duas naturezas – a humana e a divina – que não estão separadas, mas não estão misturadas). Eles se consideram miafisitas, ou seja, crêem que em Cristo uma “natureza unida”.

Abaixo, um vídeo que pode se regulado para legendas em português

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Os pássaros, pelo menos, são irracionais

Abram os olhos! Não sejam idiotas-uteis!

Pacientes na tribulação

No vídeo abaixo, vemos um pássaro pequeno alimentando outro grande, muito maior do que ele. Fato bastante estranho, pois era de se esperar que os adultos alimentassem os filhotes de sua espécie.

Qual a explicação para este fato?

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Não esqueçamos dos fiéis que padecem no Purgatório!

Pope Pius XII (39)

Para recordar:

O que é o Purgatório.

O que são os Sufrágios, e em que consiste o Ato Heróico pelas almas do Purgatório.

Caso alguém queira assistir uma Missa Solene de Requiem pelas almas do Purgatório, em que o Requiem de Mozart é interpretado, veja o link aqui.

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Primeiro diácono da União Sacerdotal D. Marcel Lefebvre

Aconteceu no dia 26 de outubro a ordenação diaconal do irmão Andrés, OSB. De origem guatemalteca, é monge do Mosteiro de Santa Cruz de Nova Friburgo (estado do Rio de Janeiro/Brasil). Ordenado naturalmente por D. Williamson…

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Como católicos, naturalmente constatamos com pesar que, dada a extrema necessidade de sacerdotes para renovar o Santo Sacrifício da Missa, levar aos fiéis os sacramentos e sobretudo socorrer as pequenas e numerosas comunidades católicas que ultimamente têm se expandido do Sul e sudoeste baiano ao Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás, faz-se necessário que venham mais operários para salvar da indigência as almas dos fiéis.

É triste que não seja através de um seminário, mas que o candidato ao sacerdócio tenha que completar sua inteira formação no mosteiro… Embora os mosteiros beneditinos geralmente sejam marcados pela auto-suficiência, e seus monges que aspirem ao sacerdócio recebam sua formação completa sem a necessidade de sair para o claustro, por hora é o que temos. E agradeçamos a Deus por esta graça imerecida! Tenho certeza que o Mosteiro de Santa Cruz deu ao neo-diácono a formação suficiente para que o mesmo não seja um padre em nada inferior a qualquer outro.

Um bispo sagrado legitimamente, e que ordena ao diaconato segundo a Fé da Igreja de todos os tempos, seguindo a intenção da Igreja, e um monge que vive em um mosteiro que se empenha em seguir os mandamentos da lei de Deus, da Igreja e da regra de São Bento como sempre foram ensinadas… Em tempos onde o atual pontífice despreza frontalmente toda a Fé Cristã e persegue de maneira obstinada e clara até mesmo os restos de catolicismo de seus seguidores… Ora, foi uma pena que o irmão Andrés não tivesse sido ordenado ANTES.

A ordenação se deu no convento das irmãs rosarianas, no instituto Nossa Senhora do Rosário (Anápolis/GO), voltado para a educação de meninas.

As fotos que encontrei, retirei-as dos blogs Capela Nossa Senhora das Alegrias e Non Possumus.

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D. Tomás de Aquino, OSB, prior do mosteiro de Santa Cruz, o diácono D. André, padre Jean Michel Faure e irmãs da Congregação das Escravas de Maria Rainha da Paz (Campo Grande/MS).

D. Tomás de Aquino, OSB, prior do mosteiro de Santa Cruz, o diácono D. André, padre Jean Michel Faure e irmãs da Congregação das Escravas de Maria Rainha da Paz (Campo Grande/MS).

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A decepção de Rui Barbosa

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