Etiópia: bastião de cristandade.

Aviso a todos que o artigo a seguir não é sobre a Igreja Católica, mas sobre uma forma curiosa de cristianismo que se desenvolveu há quase um milênio e meio, com particularidades muito estranhas para nós, produzidas pelo isolamento geográfico, pelo contexto multicultural e por crenças particulares. É uma igreja propriamente dita, se o critério de igreja for o de Sucessão Apostólica, o que a diferencia da maioria das confissões protestantes, mas com costumes realmente estranhos, especialmente para nós, católicos do ocidente.

Etiópia, bastião de cristandade

etíopes ortodoxos

De todas as variegadas comunidades cristãs dispersas pelo mundo, a Igreja da Etiópia é uma das menos conhecidas. Da sua história, que é admirável ; da sua fé, que continua viva através de tantas provações; dos méritos da sua fidelidade – que sabem os outros batizados? Talvez por ter vivido num mundo fechado, isolada quer pela natureza quer por um cerco de vizinhos hostis, esta igreja só é geralmente apresentada sob os seus aspectos mais exteriores, como se os costumes estranhos e pitorescos bastassem para explicar o heroísmo de que deu mostras no decurso dos séculos. Porque a verdade é que a sua história se resume numa resistência constante e pertinaz a todos os conquistadores que tentaram submetê-la. Aconteceu que o seu território foi submergido por invasores, mas no final sempre acabou por reconquistar a liberdade, uma liberdade que teve por fundamento a fé. Não é apenas um mito a célebre lenda do “Reino do Preste João” que, na Idade Média, via a Etiópia como um bastião da fé, firme no meio dos poderes pagãos. Semelhante a essas camadas vulcânicas que dominam, vermelhas e negras, abruptas, os seus planaltos verdejantes a dois mil metros de altitude, a Etiópia cristã representou na História e ainda hoje conserva o significado de um batel batido pelas vagas, mas que resiste.

A antiguidade desta Igreja é indiscutível, mesmo sem considerar as tradições que remontam a sua evangelização aos Apóstolos, São Bartolomeu e São Mateus, ou a esse eunuco da rainha Candace de que se fala nos Atos dos Apóstolos (At, VIII, 27). Sabe-se pelo historiador Rufino que o cristianismo penetrou na Etiópia por volta do ano 340, graças à aventura dos jovens Frumêncio e Edésio, que, criados por piratas, fizeram carreira junto do rei etíope que os comprara, e se portaram como apóstolos zelosos. Foi Frumêncio quem se dirigiu a Alexandria para pedir ao patriarca Atanásio que enviasse um bispo para a Etiópia e ele mesmo foi escolhido para este posto. A segunda fase da evangelização teve lugar no final do século V, com a chegada de nove monges sírios, “os nove santos”, que concluíram o trabalho de atrair para a fé o rei e a corte.

Quer fosse por influência do Egito, quer pela desses monges – que se supôs, aliás sem precisão, terem sido uns exilados, expulsos da pátria por hereges -, o certo é que a Etiópia foi conquistada para a causa monofisista (os monofisistas eram partidários da natureza única de Cristo, derrotados nos Concílio de Calcedônia), na qual se manteve até hoje. Que significava, que significa esse monofisismo? Também neste caso, é difícil dizê-lo. Parece que a Igreja etíope não esteve muito a par dos debates que se deram à volta da questão cristológica, e que terá sobretudo seguido, nos começos do século VII, um bispo egípcio chamado Kerillos (Cirilo). Era partidária da “natureza única”, mas daquele modo especial que vimos nos coptas, ou seja, hostil ao mesmo tempo a Eutiques, o heresiarca; e ao Concílio de Calcedônia que o condenou, porém admiradora de Dióscoro e mais ainda de São Cirilo. A Etiópia passou, pois, da fé tradicional para o monofisismo sem dar por isso; foi só no século XV que tomou clara consciência de estar separada.

É por isso que os juízos acerca da teologia etíope são muito díspares. Os jesuítas dos séculos XVI e XVII não viam nela grande coisa a corrigir. O capuchinho Massaia (1809-1889), que passou na Etiópia trinta e cinco anos e acabou a vida como Cardeal da Igreja romana, pensava que só havia um erro de vocabulário, porque os conceitos de natureza e de pessoa eram pouco claros para os etíopes. O que parece é que atualmente o monofisismo consciente e deliberado só se encontra em certas comunidades monásticas. Na prática, a fé popular admite a natureza humana de Cristo mais ou menos como os católicos e os ortodoxos. Assim se explica que a Igreja católica da Etiópia tenha adotado a maior parte das preces litúrgicas da Igreja nacional, sem alterar nada de importante.

Não quer isto dizer que a Igreja etíope se incline a fundir-se com uma ou outra das duas maiores Igrejas da cristandade. Houve um tempo em que esteve quase a efetuar-se a fusão com os católicos. Foi no século XVII, quando o extraordinário padre Paez, jesuíta espanhol, conseguiu “ganhar” o imperador Susênio Seltan Sadag, que por sua vez pretendeu converter o seu povo à força, o que provocou autênticas guerras de religião. O sucessor de Paez, o padre mendes, pela sua falta de habilidade e brutalidades, apressou a catástrofe e enterrou definitivamente essas esperanças. Dessa aventura restaram somente as ruínas da catedral erguida por Paez em Gorgora, nas margens do lago Tana, e uma extrema desconfiança para com o catolicismo, que só há pouco começou a desfazer-se.

Quanto à Igreja ortodoxa, que fez sérios esforços durante todo o último quartel do século XIX para pôr monges gregos e russos a trabalhar a Etiópia, não alcançou melhores resultados. Houve vários momentos em que se acreditou que a união estava prestes a concluir-se. Mas o Imperador Menelik, considerado como a própria encarnação da pátria etíope depois da sua brilhante vitória de Aduá sobre os italianos, compreendeu que, se a sua Igreja se vinculasse a Constantinopla ou a Moscou, perderia a independência e as suas características originais – e recusou-se a assinar qualquer compromisso formal.

Não foi menos rigorosa a resistência etíope à pressão islâmica. O incremento do poder do Egito contribuiu para reagrupar à volta do trono as forças vivas da nação. Os imperadores portaram-se como defensores da fé, não menos do que como soberanos políticos. Aos ataques dos vizinhos do Norte – um deles semeou o pânico até Gondar -, Teodoro II ripostou, não apenas pelas armas, mas por medidas de natureza religiosa, obrigando os muçulmanos a converter-se ao cristianismo (a liberdade de culto só lhes seria restituída em 1899). Em 1916, a situação esteve a ponto de reverter-se: o negus Lidi Yassu abraçou o islamismo, declarou-se descendente do Profeta, repudiou a sua mulher – cristã -, formou um harém, ordenou a construção de mesquitas e pôs o seu império na dependência religiosa da Turquia. Mas os cristãos salvaram a sua fé. Enquanto a igreja excomungava o soberano apóstata, as tribos do Choa marchavam sobre Adis-Abeba. A filha de Menelik foi proclamada imperatriz, com o Ras (príncipe) Tafari Makonnen (ou Ras Tafari), junto dela como regente e herdeiro. Foi este que, subindo ao trono em 1930, veio a tomar o nome da Santíssima Trindade: Hailê Selassiê. A Etiópia cristã tinha triunfado mais uma vez.

Igreja de pedra em Lalibela, Etiópia.

Igreja de pedra em Lalibela, Etiópia.

Também ganhou a partida num outro plano. Desde tempos imemoriais, talvez desde Frumêncio, designado por Santo Atanásio como chefe da igreja etíope, o Abuná (arcebispo-maior) era escolhido pelo patriarca copta de Alexandria entre os monges egípcios dos conventos do Mar Vermelho. A Etiópia estava, portanto, na situação bizarra de ter por bispo um estrangeiro que, muitas vezes, não conhecia nem o ge’ez, língua litúrgica, nem o amárico, língua popular. A seguir à Primeira Guerra Mundial, em que a Etiópia entrou mais em contato com o mundo exterior – teve um representante na Sociedade das Nações -, desenvolveu-se uma forte tendência para pôr termo a essa situação. Em 1929, o patriarca viu-se compelido a sagrar quatro bispos autóctones, e em seguida a designar entre os monges etíopes o seu chefe, o Echeghiê, superior do grande convento de Debra-Libanos (uma espécie de abade-geral). A invasão italiana acelerou a evolução. Depois de terem tentado em vão trazer para a sua causa o Abuná, que se refugiou no Cairo, os ocupantes suscitaram um movimento separatista, com a ajuda do Echeghiê, que conseguiu ser proclamado Abuná e sagrou bispos “colaboradores”. Um sínodo reunido no Cairo excomungou-os. Mas depois da derrota dos italianos, em 1941, nunca mais se pensou em voltar a colocar a Igreja nacional sob tutela egípcia. O próprio negus (Imperador) Hailê Salessiê dirigiu as negociações, que duraram dez anos. Firmou-se um primeiro acordo em 1948, e nele se previa que, pela morte do Abuná, o seu sucessor seria etíope, enquanto não chegasse esse momento, teria um coadjutor também etíope. Em 1951, foi proclamada a completa independência religiosa, ficando para o patriarca copta do Cairo apenas uma primazia moral e espiritual.

Assim, a Igreja etíope faz rigorosamente um só corpo com a nação, o que lembra, de certa maneira, a situação que existia na antiga Bizâncio. Se o Negus, tal como o Basileu, é uma personagem sagrada, o chefe da Igreja, com direito a honras de caráter religioso, e tem de se comportar em todas as circunstâncias como protetor da Igreja, o Abuná é um senhor dotado de poder incontestável, ao qual os poderes leigos não tentam opor-se. É ele quem sagra o imperador, designa os bispos e goza do direito de absolver e excomungar. Por longos tempos, nenhum Conselho lhe limitava o poder; desde 1948, é assistido por um Sínodo, mas este está bem longe de desempenhar o papel dos Conselhos na Igreja copta do Egito. O único rival sério que o Abuná pode ter – pois não tem o direito de ensinar a religião – é o Echeghiê, que encarna a tradição espiritual e cujo prestígio é grande. Mas, embora por vezes haja tensões internas, o conjunto do clero exerce em uníssono sobre o povo uma tutela facilmente qualificável de medieval.

etíopes ortodoxos 3

Isto porque o povo etíope conserva, na sua maioria, uma inabalável fidelidade à fé. Se, na ausência de recenseamentos confiáveis, é difícil avaliar com precisão o rebanho cristão – os números variam entre 4 e 7 milhões -, a verdade é que todos os viajantes que falam da Etiópia são unânimes em referir inúmeras provas de que a fé não parece ter sido atingida pela moderna laicização. Nossa Senhora é venerada como no mais fervoroso dos países católicos. É frequente ver na testa de um crente a tatuagem em forma de cruz outrora imposta por Zara Yacob e que serve para proclamar a fidelidade. As festas religiosas são tão numerosas – mais uma característica medieval – que é impossível passar oito dias na Etiópia sem assistir a uma ou a outra. Aos sábados e domingos, vêem-se afluir às igrejas coortes imensas de fiéis, quase todos vestidos de uma espécie de alba, o shemma. Nenhum etíope passa em frente de uma igreja ou oratório sem fazer uma reverência. Este povo, que praticamente não recebeu nenhuma instrução durante muito tempo, nem por isso deixa de conservar a memória do seu passado cristão. E rodeia de veneração os grandes centros sagrados: Axum, um antigo reino de Tigre, aonde o imperador continua a ir para a sagração; Lalibela, que conserva o nome de um santo rei e é um prodigioso conjunto de capelas escavadas na rocha, esconderijo sagrado cheio de corredores labirínticos, que milhares de peregrinos continuam a visitar; e ainda os conventos veneráveis, uns empoleirados no cume de alguma montanha quase inacessível, outros ciosamente isolados do mundo pelas águas do lago Tana.

Este cristianismo etíope apresenta muitos traços capazes de desconcertar um observador apressado. É extremamente austero, formalista em extremo, rigoroso em impor a mais longa Quaresma que se conhece – cinquenta e cinco dias – e o jejum das terças e sextas-feiras, pelo menos até ao meio-dia, quando não até às três da tarde. Exige também orações, prosternações, cujo número e profunda inclinação recordam as da Igreja grega. Ao mesmo tempo, contudo, não parece grandemente severo quanto à vida moral, em especial quanto à sensualidade. Aliás, abandonou-se a prática da confissão, exceto em artigo de morte, caso em que se sobrepõe a uma extrema-unção que é também uma confirmação.

Um dos traços mais surpreendentes deste cristianismo é que está impregnado de espírito bíblico, de uma extraordinária adesão ao Antigo Testamento, sobretudo aos salmos. Não é em vão que a dinastia real etíope reivindica entre os seus antepassados Salomão e a rainha de Sabá: o primeiro rei da Etiópia teria sido filho de ambos, concebido na célebre visita; como não é em vão que o Negus tem nas suas armas o leão de Judá. Os usos mosaicos que vimos terem sido conservados entre os coptas do Egito são ainda mais bem observados na Etiópia, designadamente a circuncisão, que é praticada antes do Batismo. Mantém-se o costume de oferecer ao “Senhor do Universo” as primícias de todos os produtos da terra. Durante muito tempo celebrou-se o sábado tanto como o domingo. Não se come carne de animais sem primeiro os sangrar. Os casamentos desenrolam-se de acordo com o cerimonial bíblico: os “amigos do esposo” escoltam o novo casal e o banquete copia as Bodas de Caná. O irmão continua a dever casar-se com a viúva do primogênito falecido, se ela o pedir, a fim de lhe dar posteridade, segundo o famoso preceito do Levirato. Acrescente-se ainda que, dos preceitos bíblicos sobre a hospitalidade devida aos estrangeiros, sobre a generosidade para com os pobres, os etíopes extraem uma bondade e uma caridade bem reais *.

 etíopes ortodoxos 2

A arquitetura, a arte e a liturgia contribuem também para dar ao cristianismo etíope características sem par e um tanto insólitas. Também aqui, numerosos usos herdados de práticas pagãs de há vários milênios, vindas do Egito dos Faraós, ou mesmo do velho fundo autóctone. O costume de celebrar São Miguel, São Jorge, a Natividade e a Assunção uma vez por mês é um resultado evidente de um velho calendário lunar em que cada fase era celebrada religiosamente. O gaês (ge’ez), língua litúrgica, é a do Tigre, e a sua origem é pré-histórica. Quanto ao manuseio do sistro na dança sagrada, é exatamente igual ao que se vê nos afrescos de Tebas ou do Vale dos Reis.

As danças sagradas, a estridência dos sistros, o tilintar das campainhas presas aos incensórios, o lento rolar dos tambores enormes, ou o kabeno – canto alternado, em três modos -, as prosternações de toda a assistência, os convites feitos por diáconos e sub-diáconos… A liturgia eucarística desenrola-se no meio de um aparato de brocados roçagantes, à luz de círios inumeráveis, entre fumaças de incenso, sob o olhar das figuras de santos pintadas nas paredes, de grandes dimensões e cores vivas, e cujos olhos imensos nos rostos estilizados parecem contemplar o Invisível.

Geralmente rodeadas de belas árvores, as igrejas são de forma redonda ou octogonal; as retangulares, mais frequentes no Norte, denotam influência estrangeira. Algumas são rupestres, como a de Dongollo (no Tigre). E todas se dividem em três partes, uma delas reservada ao imperador e ao clero, a segunda aos cantores-bailadores, a terceira aos fiéis que comungam (os outros ficam do lado de fora). O santuário propriamente dito, de forma antiga, diz-se que recorda a Arca da Aliança (aliás, o abuna Paulos, em 2009, garantiu em entrevista ter visto a arca da Aliança, que estaria na Etiópia, mas o mesmo não revelou onde…).

São muitas as cerimônias que se efetuam ao ar livre, segundo usos próprios da Igreja etíope: por exemplo, no dia da Epifania, toda a assistência mergulha na água, com o clero à frente, em memória do batismo de Cristo. A festa da Exaltação da Santa Cruz é mais importante do que a do Natal e a da Páscoa. Dá ocasião a uma explosão de alegria popular: é o Masqal, a velha festa da vegetação renascente, convertida em festa de devoção à Santa Cruz, à qual o imperador não pode deixar de presidir em pessoa, rodeado de todo o clero sem exceção, coberto de capas rutilantes ou de longas vestes brancas com largas faixas de cor à altura dos joelhos. A multidão é encimada por um incrível eriçar de umbrelas (guarda-sóis) de cores berrantes e de cruzes processionais de ouro ou de prata, cujos largos braços têm artísticos ornamentos entrelaçados. Por um bom tempo ouvem-se ressoar cânticos quase dolorosos, cadenciados por “Ale-ale-ale-luia!” E tudo se conclui com um gigantesco desfile atrás dos tabots, as placas de madeira dura ungidas para servir de altares, que só os padres têm o direito de tocar; devem ser revestidas de pesadas sedas cor-de-rosa, verdes ou violetas. Depois, quando cai a noite, acendem-se fogueiras de alegria, em torno das quais a mocidade dançará até a madrugada. E no cimo de todos os montes que rodeiam a capital brilham também milhares de fogueiras…

Para conduzir tão vasta comunidade de fiéis, há um clero abundante. Para falar a verdade, vários milhares de padres só o são de nome, ou não participam senão de algumas festas solenes. Durante muito tempo, não foi necessário qualquer título, ou mesmo qualquer instrução, para ser padre. Bastava ir ter em grupo desordenado com o Abuná, pagar as taxas previstas – outrora em barras de sal -, receber as ordens, também coletivamente, e depois descobrir uma aldeia que aceitasse os serviços do novo padre… Mas, além desses “clérigos eclesiásticos”, houve também desde muito cedo “clérigos leigos”, os dobteras, muito mais bem formados e até, com frequência, estudantes universitários e alunos mais adiantados das escolas secundárias, se não mesmo professores. E são esses que, na qualidade de diáconos, instruem o povo durante as cerimônias, e que constituem a corporação dos chantres bailadores e poetas, indispensáveis em qualquer ofício litúrgico de alguma importância. E têm um desprezo proverbial pelos clérigos eclesiásticos.

De qualquer modo, o elemento mais vivo e igualmente mais sólido é formado pelos monges, tal como entre os ortodoxos. O monaquismo parece ser aqui tão antigo como o próprio cristianismo. Foi o Egito, terra clássica dos santos eremitas, que o implantou no país. Os grandes conventos tiveram um papel importante na história nacional: foram verdadeiros bastiões da fé, e ainda hoje continuam a ser centros de vida intelectual e espiritual. O mais célebre, que é o de Debré Libanos, no Choa, fundado no século XIII pelo reformador Tekle Haymanot, preside à Ordem fundada pelo santo, e é o seu abade quem exerce as funções de Echeghiê, chefe reconhecido do monaquismo etíope. Outros conventos seguem a tradição dita de Eustácio e não têm hierarquia.

Monge etíope

Monge etíope

Existem hoje uns doze conventos de homens e seis de mulheres, com uma população monástica abundante. E a vida neles é de renúncia. Apesar das invasões muçulmanas que devastaram o país, todos eles conservam tesouros tidos por fabulosos, antigos manuscritos que mal se começa a catalogar, ornados de miniaturas de estilo ao mesmo tempo hierático e bárbaro. Foi nos conventos que se deu, de há alguns anos para cá, uma renovação dos estudos teológicos e bíblicos, em ligação com os coptas do Egito e, mais recentemente, com os patriarcados ortodoxos de Constantinopla e de Alexandria, e até com certas confissões protestantes.

O envio de jovens para as universidades e seminários do Egito, da Grécia, de Istambul, representa para a Igreja etíope uma hipótese de futuro. O desenvolvimento de uma comunidade católica etíope, ajudado pela federação da Eritréia com a Etiópia após a Segunda Guerra Mundial, e que se traduz pela abertura de um seminário, de um mosteiro cisterciense, de escolas religiosas mantidas sobretudo por ursulinas, e, pela criação na própria Roma, em 1919, do Colégio Pontifício Etíope, não deixa de provocar alguma emulação.

(…)

Bibliografia: ROPS, Daniel. A Igreja das Revoluções (III) – Esses nossos irmãos, os cristãos. Décimo Tomo da História da Igreja de Cristo.

Nota pessoal: no que diz respeito a um possível relacionamento entre o rei Salomão e a rainha de Sabá, não há nenhum tipo de referência bíblica ou documental, mas é antes uma tradição etíope. Outra curiosidade: existe uma etnia etíope chamada falasha que declara-se judaica desde os tempos de Salomão, e que teria se mantido judaica quando o resto do país, por volta do século IV, teria aderido ao cristianismo. Não há como saber ao certo, nem com certeza. Mas não deixa de ser muito curiosa a acentuada nota judaizante no cristianismo copta, e ainda mais do que nele, no cristianismo etíope “tewahedo”. Quanto a esses auto-intitulados judeus, foram reconhecidos como tais por rabinos antes da criação do novo estado de Israel, que os reconhece, e em várias ocasiões criou “operações de resgate”, levando para Tel Aviv milhares de falashas, judeus negros que por muito tempo ficavam espantados ao ver judeus brancos.

Atualmente essa igreja é chamada oficialmente de Igreja ortodoxa etíope “tewahedo” (que significa “unificado”, baseado na crença iniciada no monofisismo de que Cristo teria só uma natureza, ao contrário da União Hipostática da Igreja Católica e das igrejas ortodoxas, que admite que em Cristo há duas naturezas – a humana e a divina – que não estão separadas, mas não estão misturadas). Eles se consideram miafisitas, ou seja, crêem que em Cristo uma “natureza unida”.

Abaixo, um vídeo que pode se regulado para legendas em português

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
Esse post foi publicado em você sabia? e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s