Primeiro diácono da União Sacerdotal D. Marcel Lefebvre

Aconteceu no dia 26 de outubro a ordenação diaconal do irmão Andrés, OSB. De origem guatemalteca, é monge do Mosteiro de Santa Cruz de Nova Friburgo (estado do Rio de Janeiro/Brasil). Ordenado naturalmente por D. Williamson…

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Como católicos, naturalmente constatamos com pesar que, dada a extrema necessidade de sacerdotes para renovar o Santo Sacrifício da Missa, levar aos fiéis os sacramentos e sobretudo socorrer as pequenas e numerosas comunidades católicas que ultimamente têm se expandido do Sul e sudoeste baiano ao Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás, faz-se necessário que venham mais operários para salvar da indigência as almas dos fiéis.

É triste que não seja através de um seminário, mas que o candidato ao sacerdócio tenha que completar sua inteira formação no mosteiro… Embora os mosteiros beneditinos geralmente sejam marcados pela auto-suficiência, e seus monges que aspirem ao sacerdócio recebam sua formação completa sem a necessidade de sair para o claustro, por hora é o que temos. E agradeçamos a Deus por esta graça imerecida! Tenho certeza que o Mosteiro de Santa Cruz deu ao neo-diácono a formação suficiente para que o mesmo não seja um padre em nada inferior a qualquer outro.

Um bispo sagrado legitimamente, e que ordena ao diaconato segundo a Fé da Igreja de todos os tempos, seguindo a intenção da Igreja, e um monge que vive em um mosteiro que se empenha em seguir os mandamentos da lei de Deus, da Igreja e da regra de São Bento como sempre foram ensinadas… Em tempos onde o atual pontífice despreza frontalmente toda a Fé Cristã e persegue de maneira obstinada e clara até mesmo os restos de catolicismo de seus seguidores… Ora, foi uma pena que o irmão Andrés não tivesse sido ordenado ANTES.

A ordenação se deu no convento das irmãs rosarianas, no instituto Nossa Senhora do Rosário (Anápolis/GO), voltado para a educação de meninas.

As fotos que encontrei, retirei-as dos blogs Capela Nossa Senhora das Alegrias e Non Possumus.

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D. Tomás de Aquino, OSB, prior do mosteiro de Santa Cruz, o diácono D. André, padre Jean Michel Faure e irmãs da Congregação das Escravas de Maria Rainha da Paz (Campo Grande/MS).

D. Tomás de Aquino, OSB, prior do mosteiro de Santa Cruz, o diácono D. André, padre Jean Michel Faure e irmãs da Congregação das Escravas de Maria Rainha da Paz (Campo Grande/MS).

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A decepção de Rui Barbosa

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Idolatria?

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Há algumas semanas li uma matéria sobre mais uma profanação contra uma igreja católica em Minas Gerais. E recordei-me que, ultimamente, episódios de invasão de igrejas e depredações – em particular contra as imagens sagradas – têm sido cada vez mais comuns neste país.

Então li a nota da diocese a respeito do ocorrido. Não vou me adentrar em detalhes, não é o propósito deste artigo, mas posso resumir em quatro pontos o que dizia ali:

1 – solidariedade aos católicos ofendidos;

2 – Indignação contra os autores do crime;

3 – Apelos aos órgãos competentes que investiguem os infratores pelo vandalismo causado;

4 – Reiterar que a política de boa vizinhança com o “politicamente correto” e com o reconhecimento  das falsas religiões não foi abalado.

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Quando li a nota, que certamente foi considerada satisfatória para quase todos os que a ela tiveram acesso (visto que hoje em dia o afã em mostrar uma igreja jovial e não-ranzinza faz com que episódios lamentáveis como esse geralmente sejam minimizados pelo próprio clero, ou ignorados), num momento inicial pensei ter sentido um certo alívio. Mas durante a leitura da nota, me escandalizei com a indigência de atitude dos ditos católicos de nossos tempos, simbolizada no que ali estava escrito.

De maneira que o escândalo maior não foi a profanação ocorrida.

O verdadeiro escândalo foi contra o conteúdo  da nota emitida.

Parece exagero. Sei que aparentemente uma nota de protesto não deveria causar escândalo a mim, que apoia exatamente uma postura forte do clero e dos fiéis contra este tipo de ocorrência.

Pois então, permitam-me explicar o raciocínio. Mas antes, deixem-me divagar um pouco, visto que ser prolixo é meu defeito incorrigível:

Há anos atrás, em um sebo, terminei adquirindo um livro chamado “Conversões ao Catolicismo”. Livro antigo, com vários testemunhos escritos a próprio punho por convertidos de diversas partes do mundo, de várias origens, etnias e profissões. Dentre todos os maravilhosos e racionais relatos que li, estava entre eles o relato do célebre convertido inglês Chesterton.  Recomendo a todos, inclusive já o publiquei neste blog, já tratei do tema em vários lugares, e algumas coisas de seu raciocínio ainda hoje me acompanham. Não sou um devorador dos livros de Chesterton – mea culpa – mas o seu relato de conversão é causa para refletir longamente sobre o que é enxergar o mundo aos olhos da fé.

Em um dos trechos de seu testemunho, Chesterton sabiamente diz que o homem que se torna católico simultaneamente passa a ter uma idade “de três milênios” (os três milênios são uma adaptação minha!), e passa a considerar as coisas através do significado profundo das mesmas, e não segundo “as últimas notícias dos jornais”, ou seja: um católico enxerga o processo, o contexto, a conjuntura e o histórico das coisas, e não se limita ao superficialmente recente.

Em outra parte de seu relato, ele exemplifica, citando por exemplo uma catedral. Diz algo neste sentido: para um historiador de arte desprovido de Fé Católica (ou com uma fé rotineira, meramente cumpridora de formalidades), diante desta catedral,  se preocuparia em pormenorizar o valor artístico do ambiente: o que contêm e o que falta, o que é original e o que veio depois. Enxergaria pelo olhar da técnica, da arte, da arquitetura. Quiçá arriscaria explicar os sentimentos e as idéias que povoaram a mente dos artistas que ali trabalharam… Já um homem, que antes de historiador fosse católico, examinaria a mesma coisa, só que antes disso, procuraria na catedral tudo o que nela se encontrasse disposta de maneira que o local reunisse tudo o que é necessário para servir verdadeiramente como uma catedral CATÓLICA! Ele enxergaria com ainda maior abrangência, pois conseguiria enxergar tudo ao seu redor como se fosse um grande livro.

Eu refleti sobre a questão, e realmente tentei enxergar pelos olhos da religião. Uma catedral é construída de maneira a receber a luz do sol que nasce no oriente, símbolo da Salvação que para nós é Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio do Leste. Seu altar-mor e os demais altares, ao mesmo tempo em que são preciosidades, são o mesmo Monte Calvário que está na Palestina, só que num sentido místico. Ali as missas não são meras cerimônias, mas vemos a mesma imolação de Cristo no Calvário; o que acontece ali não é uma encenação ou um outro sacrifício: é o mesmo e único Sacrifício de Cristo naquela cruz sob o Gólgota acontecendo diante de nossos olhos, um acontecimento atemporal que está fora dos conceitos de presente, passado e futuro, e que está sendo atualizado diante de nós. Só há um Sacrifício que se renova naquele lugar, não importa em quantos altares! Nestes altares estariam as relíquias obrigatórias? – perguntar-se-ia o católico que examinasse a catedral – Sim, porque o altar é o Calvário, mas também é um túmulo! O Santo Sacrifício sempre foi renovado sobre os jazigos dos mártires das catacumbas. A Igreja, para honrar os que morreram por amor e fidelidade a Cristo, sempre exigiu que se colocassem relíquias de mártires nos altares, para cumprir o que dizem os salmos: “preciosa na presença do Senhor é a morte de seus santos”. Na catedral, os vitrais filtram a luz do Sol, de forma que tudo se encha de luz e o homem possa ver o Astro-Rei sem ficar cego. E a mesma luz do sol que chega até nós através dos vitrais é decomposta nas cores mais diversas, a unidade da luz solar na diversidade das cores da mesma luz! O católico enxerga no vitral os santos que nos permitem ter uma noção prática da infinita bondade de Deus, pois se O olhássemos diretamente, morreríamos. Moisés cobriu a face diante da manifestação de Deus, pela sarça ardente. Olhando para Cristo, vemos Deus! Olhando para as virtudes dos santos, temos uma parca noção das Virtudes (com V maiúsculo) reunidas em Cristo. Cada santo reflete de maneira relativa uma qualidade que Deus reune de maneira absoluta. Pela maneira heróica com que cada santo consegue refletir alguma determinada qualidade, podemos enxergar claramente que o Autor por trás do santo reflete de maneira absoluta aquela qualidade que para nós é tão sensacional, mas que é ao mesmo tempo relativa! Assim como Cristo amou a todos, mas chamou uns a segui-los como discípulos, e dentre eles, doze apóstolos em particular, para que aprendessem mais profundamente a Sua Doutrina, afim de transmitirem Sua Tradição e conduzirem os demais, na Catedral há a divisória física entre o presbitério, onde ficam os que governam, ensinam, transmitem, confirmam, e a nave, onde ficam os discípulos, as ovelhas, os que recebem o que sempre foi transmitido desde o tempo em que Nosso Senhor esteve aqui e pregou a Verdade… Para enumerar cada espaço de uma catedral, haveria muito mais coisas, muitos outros detalhes e muitas lições a se tratar. Paro aqui.

Em suma: existe uma forma católica de se enxergar as coisas. Uma forma que vai muito além do que uma catedral materialmente contêm. Existe esta forma, e existe a visão mundana de enxergar as coisas. Visão que na verdade é cegueira. E cegueira que hoje ataca a maioria dos cristãos, culpados ou não.

Cegueira que não poupou nem o bispo da diocese onde a profanação ocorreu. E se atinge o clero, ainda pior se encontra o povo.

Infelizmente, esta violação de igrejas tem sido uma constante, e a reação dos católicos tem sido geralmente pífia.

Mas quando escrevo estas linhas, não julguem que me sejam motivo de vanglória, como se fosse alguma prerrogativa que eu supostamente tenha e que falte nos outros. Enxergar as coisas não é qualidade, é apenas o exercício de abrir os olhos. Logo, não há mérito nenhum no que digo. Mérito só se conquista com esforço, com trabalho e com a ajuda de Deus. Mas falar, como estou fazendo aqui, qualquer um poderia. Falar é sempre fácil. Voltemos ao tema.

Como infelizmente nestas últimas décadas, passou a ser de praxe no clero e na Hierarquia do Brasil o falar muito e não dizer nada, o que me deixou estarrecido com a nota foi, antes de qualquer coisa:

NENHUMA LETRA acerca da realidade sobrenatural!!!! Perceberam? Em todo o texto, não se falou em um momento a palavra DEUS. Não se falou a palavra PECADO, não se falou em desagravo, não se falou em expiação! Nenhuma palavra sobre o VERDADEIRO OFENDIDO: DEUS. Nenhuma palavra sobre o que ocorreu verdadeiramente: ódio à Fé, desprezo às coisas de Deus, profanação de lugar consagrado ao culto a Deus, ultraje aos santos…

Onde Deus entrou nesta nota? Foi uma declaração naturalista, como se tudo não passasse de uma depredação de um lugar qualquer.

Como se Ele não contasse, ou como se não existisse…

A primeira linha foi reservada aos “sentimentos” dos católicos.

Ooh, coitadinhos…

Querem saber? Aos esgotos o mi-mi-mi dos católicos! Eu ou você que lê estas linhas, ou quem quer que seja: o que são nossas indignações diante da monstruosidade ali ocorrida?

Não se trata de levarmos para o lado sentimental: foi um ataque contra Deus e contra a Sua Igreja, o que sentimos é irrelevante: a reparação contra o pecado, o restabelecimento da Justiça para desagravar a Deus, isso sim deve ser buscado com presteza!

Qualquer um sabe que Deus não precisa de templos materiais para “se sentir em casa”. Deus não está “preso” entre as paredes das igrejas. Só que a finalidade da construção de um templo religioso católico é a de separar um local PÚBLICO onde os homens possam se dirigir à vista de todos para dar a Deus os louvores e graças que são direito dEle. Onde o povo reunido possa implorar Sua Misericórdia, aprender Sua Doutrina, confessar seus pecados, unir-se de coração ao Sacrifício do Calvário, amá-Lo, e devolver-Lhe da forma mais sincera possível todo o Bem que Ele tão dedicadamente e com  tanta ternura nos dirige… As igrejas são edifícios reservados para o culto PÚBLICO. Pois então: o recinto é SEPARADO de construções comuns, é eivado de significado, deve ser adornado com o que há de melhor, visto que não é para nós, mas é para o Culto a Deus, é benzido, é consagrado inteiramente, é exorcizado e tudo em seu interior deve falar de Deus, e deve ser centralizado em torno dEle.

Por ser nos altares das Igrejas o lugar onde se renova o Santo Sacrifício, é o que difere nossos templos de meras sinagogas.

Portanto, profanar uma igreja por própria culpa é atentar diretamente contra Deus. É humilhá-Lo publicamente diante dos homens. As coisas devem ser chamadas por seu nome: não é vandalismo, é profanação movida por fanatismo, que por sua vez é derivado da rebelião das consciências contra a Doutrina Cristã, visto não admitirem que a única verdade é que só há um Deus e uma Igreja, a Católica Apostólica Romana, transmissora da Verdade, ainda que assolada o tempo inteiro contra inimigos internos e externos que não cessam de feri-la.

De forma que, até mesmo os que alegam ter ódio ao catolicismo e não a Deus, terminam, exatamente por desprezar a Verdade e cometer tais atrocidades atiçados pelo fanatismo, demonstrando que odeiam a Ele em virtude disso, visto que se O amassem, não fariam ouvidos moucos acerca de sua Doutrina.

A razão destas impiedades é atiçada em grande parte por desprezo ao que chamam de “idolatria aos santos”, o que só depõe contra os próprios hereges. Não são apenas fanáticos, mas agem como boas cavalgaduras.

Antes de tudo porque, quando nenhuma seita suburbana sequer sonhava em nascer, as Sagradas Escrituras já haviam sido reunidas pela própria Igreja, cuja existência ANTECEDE a maioria dos textos, pois quando os mesmos passaram a contar a vida de Nosso Senhor nos Evangelhos, isso se deu depois de sua Morte e Ressurreição, e não DURANTE seu Ministério. Nosso Senhor não andava com secretários, com notários que passassem o dia a persegui-Lo com um bloco na mão, anotando seus diálogos e seus feitos. Isso foi feito DEPOIS, a Igreja passou ao governo dos Apóstolos depois da Ascensão, e uma vez constituída, vieram as Cartas ou Epístolas, os atos dos Apóstolos, o Apocalipse de São João etc. Então a Igreja reuniu os textos sagrados e separou-os dos demais escritos não inspirados, tanto os do Antigo quanto os do Novo Testamento, mas isso se deu no ambiente eclesial, mesmo porque todo o Novo Testamento foi escrito depois da fundação da Igreja…

Só que os hereges, ignorantes que são, perversos que são, não consideram estas coisas: utilizam a Bíblia de maneira mágica, pregando que é FUNDAMENTAL que todos a leiam, (como se o fenômeno de alfabetização das massas fosse algo sempre existente… Se a salvação depende tanto da leitura individual, o que foi feito das almas da quase totalidade dos homens em dois milênios de analfabetismo generalizado?) quando na mesma Bíblia, vemos que a ênfase de Nosso Senhor foi ordenar de modo particular aos seus Apóstolos e de modo geral aos demais discípulos que fossem por todo mundo pregar o Evangelho “a toda criatura”. Mandou pregar, e não copiar ou imprimir. Transmitir por palavra ou como fizeram posteriormente os apóstolos, por epístolas ou cartas dirigidas às comunidades cristãs ou igrejas particulares com “i” minúsculo (visto que eram partes, e não o todo), e não que se distribuíssem Bíblias para que cada um se julgasse pretensamente iluminado, interpretasse individualmente, de maneira egoísta e isolada, sem precisar de ninguém, bastando-se a si e ao Espírito Santo. Criaram a doutrina da Sola Scriptura, mas se inquiridos onde está escrito na própria Bíblia a passagem onde a mesma se auto-define como a depositária única de toda a Verdade Cristã, não poderão responder, pois é uma doutrina falsa inventada por eles. A Bíblia é toda verdadeira, mas a Tradição oral da Doutrina Cristã passada por pregação desde Cristo aos Apóstolos e por conseguinte aos seus sucessores, assim como o Magistério da Igreja são igualmente fontes da Verdade revelada, coisa que eles desprezam em detrimento da anti-bíblica doutrina da Sola Scriptura luterana. Usam pretensamente os “serviços” do Espírito Santo, como se o mesmo fosse um lacaio a serviço da sentença de cada desmiolado que abre a Bíblia, lê e julga correta a interpretação que acabou de formular. Se existem trinta mil seitas protestantes, existem trinta mil fundadores que pretensamente se serviram do Espírito Santo através da leitura bíblica para descobrir a vontade divina. E cada um ensina coisa diferente do outro… E cada um se julga correto, graças à certeza baseada na Sola Scriptura… E é exatamente por cometerem, do alto de seus orgulhos, a petulância de se arvorarem em juízes dos outros (ao invés de aproveitarem a Bíblia para examinarem seus interiores e emendarem-se), que em meio de suas interpretações piratas, feitas totalmente de maneira alheia ao que sempre foi acreditado, e por julgarem seus pareceres pessoais superiores ao que a Igreja sempre ensinou, desprezando o fato de que, por dois mil anos a mesma Igreja tenha fielmente compilado a Sagrada Escritura – o que a própria arqueologia confirmou através dos manuscritos do Mar Morto (para decepção de tantos hereges e ímpios que apostavam nas “falsificações” católicas) – a mesma Igreja que conhecia e transmitia as Escrituras mil e quinhentos anos antes que o primeiro protestante surgisse e decretasse que a verdade era a da interpretação pessoal entendida por ele – ou seja: por essa lógica de que a Sola Scriptura é o meio de entender a vontade divina, consequentemente obriga-nos a concluir que a assistência do Espírito Santo dada à Igreja que Cristo nos garantiu, teria sido interrompida por dezesseis séculos (visto que até Lutero, a Igreja jamais ensinou tal coisa). Logo, visto que só depois de Lutero a verdade de Deus passou a ser acessível  baseada na Escritura E NADA MAIS QUE ISSO (Sola Scriptura), então, Cristo mentiu ou se esqueceu de sua promessa até o advento do luternaismo!

***

E é neste modismo de abrir as Escrituras e pregar que a interpretação pessoal do leitor é a correta, que algum néscio, num dado momento, baseado do alto de sua fanfarronice, ao ler os episódios de idolatria mencionados no Antigo Testamento, “descobre a roda”, ou seja: descobre que as imagens das igrejas são equivalentes às idolatrias dos pagãos mencionadas no Antigo Testamento!

A estupidez de quem concluiu tal raciocínio  só se compara à sua pretensão intelectual: Pois então seria ele a primeira pessoa em mil e quinhentos anos a ler na Bíblia que Deus proíbe a idolatria? Francamente…

Mas, oras! Não é o que a maioria dos protestantes e protestantizantes dizem? É o que repetem à exaustão: que cometemos o erro grosseiro de adorar ídolos, por sermos cegos ou ignorantes demais para entender o que está na Bíblia. Ou seja: subestimam a nossa inteligência ou nos julgam perversos.

Mas esse parecer é antes um movimento da vontade protestante de que as coisas sejam desta maneira: na maioria dos casos, não adiantará fornecer todas as provas, todos os argumentos que demonstrem a nossa fé. O protestante típico parte do pressuposto de que se está lidando com idólatras, portanto nada do que os católicos disserem irá quebrar-lhes a disposição, porque já decidiram que conhecem nossa fé melhor do que nós mesmos, portanto julgaram nossos gestos antes de desejar entender o que queremos dizer, de forma que,  tudo o que dissermos será em vão antes mesmo que comecemos a argumentar…

Portanto, não é para esses hereges, mas para os que querem continuar católicos, e mesmo para os que têm intenção reta e são sinceros que dedico esta crônica:

Antes de tudo, não preciso me submeter à moda protestante de sair espalhando passagens bíblicas aos quatro cantos: primeiramente porque eu sou católico, e não usarei o mesmo método de tesoura que condeno. Não interpreto a Bíblia, isso cabe à Igreja, e não estou falando sequer em nome da mesma (não recebi ordem de ninguém, faço isso por dever de cristão, visto que é obrigação minha contribuir dentro de minhas possibilidades para combater a ignorância que abunda em toda parte!). Também não sairei lançando passagens bíblicas ao léu, exatamente porque esse assunto tem relação com os protestantes, e como eles têm o vício de se ater estritamente às palavras, pois então não hei de alimentá-los nisso. Não ficam nada a dever aos da imagem abaixo:

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Caem nos mesmos enganos. Aliás atualmente há uma simpatia mal-disfarçada de muitas seitas pelo judaísmo, talvez porque desejem inconscientemente refazer a sucessão das gerações de homens que se baseiam nas Escrituras e no Deus de Israel. Como se separaram da videira, não têm mais a sucessão apostólica. Então procuram se ligar ao judaísmo. São inúmeras as seitas com nomes em hebraico, ou que apoiam suas práticas em preceitos do Antigo Testamento, ou mesmo que constroem templos à maneira do Templo de Israel, etc etc. Só que, para estes que dizem servir a Jesus Cristo, buscar nos judeus alguma legitimidade é um paradoxo, visto que os judeus objetivamente falando rejeitam a Divindade de Cristo, rejeitam a Santíssima Trindade, e crêem quase sempre que o Messias ainda não veio.

Mas assim como nos tempos em que Nosso Senhor veio ao mundo para nos trazer a Boa Nova, os judeus que O rejeitaram eram no entanto doutores da Lei e grandes conhecedores materiais das Escrituras, no final das contas, de nada adiantou frisar letra por letra, visto que não foram capazes de aceitar o Messias, amiúde todas as evidências e profecias que eles conheciam se realizassem em Cristo. Aliás, negar o Messias apesar de ler a Bíblia com tanta minúcia não poupou algumas vertentes do protestantismo radical, que dizem por aí que Cristo não é Deus, que o Espírito Santo não é uma das Pessoas da Santíssima Trindade, etc etc etc. A questão não é ler a Bíblia inteira, letra por letra, pois está escrito que a letra mata. A questão é aproveitar os ensinamentos bíblicos para aprender tudo o que é necessário para se salvar, dentro de um contexto familiar que é o da Igreja e seus legítimos pastores!

***

Falar em idolatria, na mente de um católico, deve reportar ao problema central; antes de tudo, a palavra latria têm o sentido de adoração. Para nós, adoração é o culto supremo reservado a Deus, o Criador, o Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis, Deus Infinito, eterno, Princípio e Fim, Alfa e Ômega, a quem todo joelho se dobra no Céu, na Terra e nos infernos.

Nada nem ninguém pode sequer ser comparado a Deus, tudo o que existe só têm o bem da existência por conta de Deus, jamais existiria sem que Deus tivesse feito, e em nada por ser comparado a Deus.

Portanto, a idolatria têm um sentido mais amplo para nós, católicos. Idolatrar é colocar qualquer criatura como a medida de todas as coisas, como a fonte de todo bem, como o objeto de dedicação exclusivo e entronizado na vida, de forma a ignorar, desprezar ou negar a Deus o lugar devido.

Nesse sentido, o mundo atualmente é idólatra. Não pelo culto ao boi Ápis, ou à vaca Hátor, ou a Baal, ou a Ganesha. O mundo é idólatra, por exemplo, quando os homens cultuam o próprio corpo de forma hedonista, com a vaidade excessiva que promove sacrifícios em nome da perfeição nas medidas e nas formas. O mundo é idólatra quando os homens vivem para o dinheiro, é idólatra quando o ídolo é o prazer a todo custo, etc.

Fiel alimentando com leite um ídolo hindu

Fiel alimentando com leite um ídolo hindu

Toda idolatria consiste em colocar alguma criatura no lugar de Deus, e só viver para satisfazer ou sacrificar o que se tem diante deste ídolo, desprezando ou ignorando que é a Deus que se deve dar a suprema honra e glória.

Existe a idolatria dos povos atrasados que alimentam estátuas com leite, como na Índia, ou se valem de amuletos e deuses falsos. Mas para além dessa idolatria grotesca e absurda, existe uma idolatria refinada chamada antropoteísmo, que consiste na entronização do homem no lugar de Deus. É o culto à personalidade, é o culto ao bel-prazer humano, é o que faz a sociedade atual, que prega a auto-suficiência do homem em viver para si mesmo e usufruir o máximo de prazeres e deleites nesta vida material, pois no entender da sociedade hodierna, não existem realidades sobrenaturais, nem Vida Eterna. E em nome de tudo o que possa ser empecilho para que se obtenha o prazer total, aprovam vários sacrifícios diabólicos como o aborto (para que os bebês não sejam empecilhos na vida dos pais), o divórcio (para que os cônjuges se desobriguem de si e de suas famílias), encorajam a eutanásia por horror ao sofrimento físico, e para que os doentes e velhos não atrapalhem os demais, etc etc etc.

E os santos da Igreja? As estátuas e demais imagens dos santos?

Os santos da Igreja, a começar pela maior criatura feita por Deus, que é Nossa Senhora, Virgem e Mãe, toda Pura, Imaculada e Medianeira de todas as Graças, mesmo Nossa Senhora e todos os santos juntos são menos que pó diante de Deus. Abandonem a competição entre os santos e Deus, tal competição NÃO EXISTE. Exceto na vontade dos protestantes e na ignorância dos católicos protestantizados, que por não procurarem com dedicação as razões da Fé em que foram batizados, persuadem-se de que as injúrias dos hereges são verdadeiras, e acabam tornando-se  na prática como eles.

Não há do que se envergonhar, não há do que se indignar, porque não existe competição entre Deus e os santos. Não existe empecilho entre Deus e os santos. O que existe são mentes humanas que não alcançam a realidade, e se equivocam por conta disso.

Antes de tudo, os santos foram seres humanos como nós, de carne e osso, e continuam sendo seres humanos como nós. Essencialmente, eles e nós somos a mesma coisa. Os santos não mudaram de essência. Depois que morreram, não passaram a ser outra categoria de seres, continuam tão humanos como foram em vida. Logo, não faz sentido que adoremos ou desprezemos a Deus de alguma maneira para colocarmos a nossa razão de ser em criaturas que não passam de homens e mulheres.

Só que há uma diferença entre eles e nós: enquanto nós sabemos a categoria de indivíduos relapsos e infiéis que somos, os santos não foram nada menos do que pessoas que, em vida, despojando-se completamente de tudo, rebaixaram-se na humildade de tal maneira que passaram esta sofrida existência superando a si próprios a cada dia, e empenhando-se cada vez mais em amar a Deus e em seguir seus Mandamentos. Ou seja: passaram a vida correspondendo às Graças de Deus, e como resultado, cresceram espiritualmente, e quanto mais se abandonavam diante de Deus, mais preciosos se tornavam diante dEle. Por amarem mais do que a maioria dos homens que por culpa própria nem sempre corresponderam à altura das Graças que Deus lhes enviou, após morrerem do mesmo jeito em que viveram, foram declarados bem-aventurados e modelos para os cristãos, para servirem de exemplo de que é possível ser humano e vitorioso na luta contra o pecado. Cristo foi o primeiro e o exemplo PERFEITO, mas sua ordem é que todos O imitassem na santidade. Se homens imperfeitos se  tornaram santos, então nós também podemos, desde que peçamos perdão a Deus e imploremos que nos mude o coração e nos torne obedientes e fiéis. As Graças jamais faltam, cabe a nós correspondermos a elas. Os santos pediram socorro a Deus e conseguiram, façamos como eles.

No final das contas, vai pro Inferno quem quer, porque Deus dá graças abundantes a todos, e ninguém no mundo pode protestar ter sido injustiçado por Deus. Só que Deus respeita nosso livre arbítrio. Somos livres para fazermos o que aquelas pessoas bem-aventuradas fizeram. Não fazemos porque não queremos.

Os santos, por serem amigos de Deus em vida, gozam do próprio Deus na Eternidade, no Céu. E como Nosso Deus é Deus de vivos, e não de mortos, é óbvio que eles estão no céu apenas em espírito, portanto de maneira incompleta (visto que a morte física é quando o corpo material se separa da alma, que é espiritual), pois aguardarão a Ressurreição da Carne, junto com os que já morreram. Mas se em vida podiam rogar por nós a Deus, na Vida Eterna fazem isso unidas a Ele! E ao pedirmos a intercessão dos santos, não estamos invocando a presença física deles entre nós, não somos espíritas, ninguém “baixa” em parte alguma! Pedimos a Eles que estão lá no Céu por nós que estamos aqui na Terra! Ninguém tem dificuldade em se recomendar a um irmão para que o mesmo implore a Deus em seu favor. E é bom que seja assim… Mas onde há injustiça em pedir aos que triunfaram e estão diante de Deus no Céu? A maioria dos que estão na terra não é tão virtuosa, mas pedimos que se lembrem de nós em suas orações… É um contracenso declinar de quem têm muito mais méritos diante de Deus, pelo fato de estar morto para o mundo. A parábola do Pobre Lázaro deixou bem claro que depois da morte as almas vão para o destino que traçaram em vida. Se estão no Paraíso, como Deus não permitirá que as mesmas interrompam a caridade para com os homens que ainda não venceram? Deus têm interesse em nossa salvação, ele não negligenciaria nenhum meio que dificultasse nossa conversão a Ele…

A intercessão é algo natural para os homens. É natural que seja assim: se muitas vezes nós precisamos de pessoas próximas para tratar com homens, se precisamos de advogados que nos representem junto a juizes humanos, porque deveríamos de maneira soberba julgar que Deus, que é o Criador e absolutamente perfeito, desaprovaria que nos reportássemos a Ele através da intercessão dos que em vida O agradaram com toda a alegria de seus corações? Passamos o tempo a só desgostar a Deus… Seremos tão orgulhosos a nos dirigirmos diretamente a Ele que é tão Bom, quando podemos humildemente admitir que alguém em melhor situação poderia conseguir junto a Deus favores para nossa causa, que sabemos não merecer?

Deus nos dá tudo o que temos porque Ele é Bom. Porque Ele têm mais interesse em nossa salvação do que nós mesmos! Mas coloquemo-nos em nossos lugares, só estamos aqui por Mercê de Deus, não estamos em posição de negar o auxílio de ninguém, quanto mais a quem foi vitorioso em Cristo!

Há outra coisa além disso: admitamos que estamos numa galeria, e encontramos uma obra de arte fantástica. Diante de tão sublime obra, não deixamos de nos entusiasmar com tamanha beleza, até que um guia nos apresenta ao artista criador da obra. Diante da admiração causada pela obra de arte, o criador ficaria lisonjeado ou enciumado? Pois os santos são santos com “s” minúsculo. Todo o bem que eles conseguiram fazer não nasceu dos esforços deles. Tudo o que eles têm de bom veio de Deus, que é o SANTO, o BEM. É como o Sol e a Lua. A Lua só tem luz porque é um reflexo do Sol, que é a Fonte.

Deus e seus santos.

Deus e seus santos.

Ah, mas as imagens, as relíquias, as velas, as flores!!!

E o que tem? São apenas sinais materiais! Não está demonstrado nas próprias Escrituras que Deus deixou milagres acontecerem através de coisas materiais? Quando a pessoa doente tocou nas vestes de Nosso Senhor, não ficou curada instantaneamente? Isso não quer dizer que as roupas de Nosso Senhor são DEUS, mas a Graça dEle pode ser comunicada da forma como ELE quer, e não exclui nenhum canal, até mesmo material. A própria sombra de São Pedro não era um meio que Deus dispôs para curar enfermos? Está lá nas Escrituras. E Deus permite que seja assim, Deus quer que seja assim, porque somos egoístas e desejamos nos salvar individualmente. Mas Deus quer que os homens se AJUDEM na salvação. Por isso nossa fé não pode admitir que basta ler a Bíblia e o Espírito Santo iluminará, sem nada mais. Por isso nossa fé não admite que a Hierarquia seja abolida e que o contato do cristão seja cara-a-cara com Deus, sem precisar de nada nem ninguém. Cristo tinha muitos discípulos, mas somente doze apóstolos. Ele criou uma hierarquia entre os discípulos e os apóstolos que os governavam. Disse aos Apóstolos que quem os ouvisse, a Ele estaria ouvindo… Se fosse só a Bíblia, para que Apóstolos? Para que Hierarquia? Mas foi exatamente isso o que Lutero e seus descendentes protestantes fizeram: só Deus, sem precisar da Igreja…

Enfim, voltando ao tema!

A injúria ocorrida dentro da igreja não foi um simples gesto de vandalismo. Vandalismo se pode fazer depredando uma praça, um automóvel, um prédio da prefeitura. Antes do crime contra os homens, houve um pecado contra Deus. Ao depredar as imagens dos santos, houve uma intenção de se atingir a pessoa dos mesmos santos, atingir pessoas que em vida cumpriram da melhor forma que puderam os preceitos do Evangelho. Ao fazer isso desejou-se arrancar de nós, católicos, os laços de amizade que temos ou gostaríamos de ter com os que já estão no Céu, gozando de Deus eternamente. O que sucede é que, infelizmente vivemos na crise mais aguda de nossa história, uma crise que não tem nada a ver com o crescimento numérico dos hereges, ou do fanatismo produzido pelo furor dos sectários… É uma crise interior, uma crise de Fé. Estamos naquele momento em que o Apóstolo diz: “não conheço este Homem”. A maioria dos católicos está num estado deplorável, e a perda da Fé fez com que muitos se tornassem cegos.

O bispo não enxergou o estrago sobrenatural. Ele teve olhos para o estrago material, viu ofensa aos homens, quando o grande ofendido foi Deus. Viu vandalismo onde estava a profanação.

O que poderíamos fazer diante de tal atrocidade? Antes de tudo, cairmos de joelhos no chão, e repetirmos a oração que Nosso Senhor ensinou no alto da Cruz: “Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem”… Em seguida, com todo cuidado, que o pároco e o bispo acionassem não somente a polícia, mas todo o clero, todos os religiosos e todo o povo, afim de convocá-los até ali, e diante de todos, confessar a Deus a culpa pela negligência com a segurança devida a um lugar reservado para o Seu Culto. Convidar aos presentes para que fizessem um profundo exame de consciência e vissem o estado de pecado em que se encontram, para somente depois disso fustigarem os culpados, se conseguissem, depois de confrontados com suas próprias almas escurecidas pelo pecado. Vestir o negro, que é a cor do luto, e promover Horas Santas, atos de expiação, penitências, atos de desagravo e outras austeridades, e finalmente exortar todo o povo escandalizado a mudar de vida, e aproveitar aquela cena lamentável como ocasião para voltarem aos Sacramentos e à prática das boas obras.

Porque o maior escândalo não são as atrocidades dos maus, mas o silêncio de quem deve se manifestar. Se ofendem a Deus, deveremos lutar para que os Direitos de Deus sejam respeitados… Ou nos calaremos, cães mudos, e esperaremos as pedras falarem?

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Outra catástrofe se anuncia: o sínodo!

O Sínodo sobre a família, espécie de novo cavalo de Tróia, ou uma espécie de precursor de um futuro Vaticano III, cujo objetivo seria levar o Vaticano II às suas últimas consequências, faz neste momento um grande ensaio, uma tentativa de suprimir mais alguns dos alicerces católicos que ainda estão de pé, originando uma nova problemática no seio da igreja conciliar e da opinião pública, com seus efeitos repercutindo através das mídias, causando diferentes percepções, desde as de viés progressista aos de movimentos conservadores ou mesmo da Tradição católica.

 sinodo

Assim, o novo campo de batalha dos já conhecidos embates entre “conservadores” vs. “ultra-progressistas”, ou “direita” vs. “esquerda” protagoniza mais uma guerra, neste caso tendo como símbolos dois “campeões”: de um lado o Cardeal Kasper (que faz questão de se proteger atrás do apoio recebido do próprio papa  Francisco) e de outro, estranhamente, o altamente suspeito e dificilmente confiável: o Cardeal  Müller (integrante da ala mais “ortodoxa” ou “conservadora”).

Mas considerando a hipótese real de que o Cardeal Müller seja parte de uma farsa bem orquestrada, ou supondo que seu progressismo não vá até as últimas consequências, como pretende Francisco (o que, diga-se de passagem, é muito mais improvável de ser acreditar, especialmente porque é de conhecimento público a notória simpatia de Müller pela Teologia da Libertação, sem contar que Müller foi feito Cardeal pelo próprio Francisco, que dentre suas características, bloqueia ao máximo qualquer ascensão de conservadores), o certo é que tudo parece mesmo tratar-se de uma manobra para contentar a ala liberal-conservadora da cúria que se vê escandalizada diante do bombástico pontificado de Francisco. Desta maneira uma rixa interna entre liberais-progressistas e liberais-conservadores, ou liberais “ultras” e liberais-moderados se verifica atualmente no seio da igreja surgida a partir do Vaticano II. Mas não cabe senão dizer que o que estes bispos agora questionam por parte do Sínodo de Kasper e Francisco, não é outra coisa que as consequências do Concilio Vaticano II que os mesmos tanto defendem, de maneira que Francisco está sendo coerente com o que postularam e realizaram seus antecessores (afinal de contas, foi o “canonizado” João Paulo II, neste momento venerado por todos os que agora se enfrentam, o mesmo quem tornou Kasper, cujas heresias eram notórias desde aqueles tempos, um cardeal da Igreja Romana), só que com Francisco, a diferença reside em seu estilo não ser dissimulado, mas ao contrário: ser explicitamente heretizante e de viés apóstata,  além de ridículo e vulgar. De maneira que aqueles que erigiram altares aos princípios liberais, agora se aterrorizam e pretendem condenar suas consequências, porque os bárbaros invadiram a cidade. É como se uma bailarina de ballet clássico que aceitasse ir a um programa televisivo que promovesse danças imorais e chulas, uma vez ali chegada se negasse a  fazer alguma performance de apelo pornográfico. Mas então porque foi até lá? Uma vez dentro do chiqueiro, se emporcalhar é inevitável. Os bispos que abandonaram Mons. Lefebvre e o deixaram sozinho, acaso queriam “aggiornar” a Igreja ao mundo? Bem, se sim, então deveriam felicitar Francisco, pois o mesmo está fazendo isso maravilhosamente. Este mundo sodomizado não lhes apetece? Pois façam suas mea culpa, porque a podridão começou a acelerar-se quando a Igreja foi ocupada por seus inimigos no Vaticano II. Sua venerada liberdade religiosa, sua dessacralização, seu rechaço do Reinado Social de Nosso Senhor pelas nações, todos estes princípios falsos agora estão frutificando mais uma vez.

Além disso, como castigo por suas infidelidades e tibiezas na ordem dos princípios, Deus está castigando a todos, enviando-nos um flagelo chamado Francisco, que não terá misericórdia (em que pese seu constante falatório que prega o contrario) para “depurar” o terreno com vistas ao estabelecimento da Nova Igreja desejada pela Nova ordem Mundial.

Não adianta meramente se opor às consequências dos ultra-liberais sem atacar seus fundamentos. Se não forem à raiz do problema, se renunciarem a condenar absolutamente os princípios que lhes norteiam, princípios estes consagrados a partir da revolução do Vaticano II, em vão trabalharão os liberais moderados. Em vão trabalhará a Ecclesia Dei. Em vão trabalhará a FSSPX que permite multiplicar contatos com os liberais, acostumando-se a estar em seus ambientes, e esgotar sua tolerância para os antiliberais mais duros  “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalharão os que edificam” (Ps. CXXVII, 1). Em vão trabalharão todos estes que se opõem ao Leviatã ultra-liberal, estejam juntos ou separados. Para que a luta seja em pé de igualdade, deve-se atacar os fundamentos, ao invés das consequências. E o primeiro fundamento está entre os que se dizem conservadores de todos os matizes, desde o liberal-moderado e do neo-conservador, ao semi-tradicionalista, que enxerguem e se retratem de seus liberalismos, para que sejam todos simplesmente católicos. E diante disso testemunhem a Fé Católica no mundo fazendo o que todos os verdadeiros e bons cristãos de todos os tempos sempre fizeram: viver, falar, andar, conversar, vestir-se, agir e pensar como cristãos. Estudar a Doutrina, praticá-la e guardar a Fé; Rezar pelo papa e pela Igreja, e afastar-se terminantemente da igreja conciliar, sem importar quem nela esteja. Criar um cordão de isolamento, porque a Prudência pede que seja assim. Está claríssimo, está CRISTALINO que os liberais, sejam eles os moderados ou os radicais, não demonstram o mínimo desejo de retornar à Fé Apostólica. Portanto, para nós a advertência procede com toda força: “O coração empedernido acabará por ser infeliz. Quem ama o perigo, nele perecerá” (Eclo III, 27), e mais adiante: “(…). Também está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus” (S. Mateus, IV, 7). Que Deus opere nos homens um Milagre, para torna-los autênticos antiliberais e contrarrevolucionários, e não permitindo que esta investida monstruosa do Sínodo não termine em uma explosão de seitas ou grupos que simplesmente abandonem a luta, ou saia dali mais uma reserva no melhor estilo Ecclesia Dei para recolher grupos neo-conservadores desejosos de viver à margem da Igreja, buscando apenas reconhecimento e “garantia” de sobrevivência, como se fossem fósseis interativos, bons para distrair crianças em excursão escolar. Talvez a astúcia dos modernistas neste momento seja lançar estas propostas claramente indecorosas apenas para melhor discernir em que terreno pisam, quem são seus oponentes, e as medidas para neutralizar a todos, ou simplesmente repetir a mesma tática do Vaticano II, a de inserir diplomaticamente a doutrina herética misturada entre a doutrina ortodoxa, para assim anestesiar a maioria. O que sabemos é que os tempos se aceleram e o diabo sabe que lhe resta pouco, por isso a velocidade com que suas hostes procuram terminar de falsificar a Religião católica afim de fazê-la servir aos seus interesses.

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O milagre do homem da perna cortada

miguel-pillecer

Nossa Senhora do Pilar e o homem da perna cortada.

Pouca gente fora da Espanha sabe que a tradição reconhece que Saragoça tem o privilégio de ser o lugar de culto mariano mais antigo da Europa. Numerosos são os santuários marianos surgidos depois de uma aparição da Mãe de Deus. Mas nenhum é tão antigo, nem tem as particularidades do santuário de Saragoça.

A tradição nos informa que no dia 2 de janeiro do ano 40, a Virgem teria, não aparecido, mas vindo à Saragoça “em carne mortal”, para reconfortar o apóstolo São Tiago e os primeiros cristãos ibéricos. Nesta data ela não tinha ainda subido ao Céu, mas permanecia em Jerusalém, ao lado do apóstolo São João. Já se tinham passado 10 anos desde a Ascensão de Jesus Cristo, e parece que o apóstolo São Tiago tinha muita dificuldade em implantar a nova fé nas terras ibéricas. Nesta data de 2 de janeiro do ano 40, o apóstolo reuniu os poucos batizados – oito, diz a tradição – às margens do rio Ebro. Desencorajado pelo insucesso de sua pregação, ele estava para lhes anunciar o seu próximo retorno à Palestina. Mas eis que, de repente, a noite se iluminou e uma multidão de anjos lhes apareceu. Eles cantavam e transportavam a Virgem Maria sobre uma coluna. Chegados perto de São Tiago e de seus oito companheiros, os anjos fixaram a coluna no solo. A Virgem Maria então se dirigiu ao apóstolo nestes termos, que a tradição transmitiu:

É aqui, meu filho, o lugar marcado com um sinal, e destinado a me honrar. Aqui, graças a ti e em memória de mim, minha igreja deve ser construída. Tome conta desta coluna sobre a qual me encontro, pois, esteja certo, foi o meu Filho, teu Mestre, que a enviou do Céu pelo ministério dos anjos… Neste lugar, pelas minhas orações e pela minha intercessão, a força do Altíssimo realizará prodígios e maravilhas admiráveis para os que me invocarem em qualquer necessidade…

Esta coluna, símbolo da força e da tenacidade da fé e sinal de um lugar de graça é uma simples coluna cilíndrica de jaspe, de 1,77 cm de altura e 24 cm de diâmetro, preciosamente revestida de prata e bronze. Sobre a coluna está uma imagem da Virgem com o Menino Jesus em madeira negra, que data provavelmente do século XIV ou XV, já que a original desapareceu. É interessante notar que essa coluna jamais foi deslocada, apesar das vicissitudes da história e das sucessivas reconstruções do santuário; ela continua no lugar onde os anjos a colocaram. Esta tradição da Virgem do Pilar foi objeto de numerosas controvérsias entre defensores e adversários da sua autenticidade, o que não diminuiu em nada o fervor popular a seu respeito. Daí esta observação de um especialista: “na história cristã, poucas tradições suscitaram tanta polêmica entre eruditos e tanta convicção e fervor na crença dos fiéis”.

Cidade de Zaragoza (Saragoça), Espanha.

Cidade de Zaragoza (Saragoça), Espanha.

Miguel Juan Pellicer

Miguel foi batizado no dia 25 de março de 1617, na festa da Anunciação. Sem dúvida ele nasceu no mesmo dia. A criança foi confirmada no dia 2 de junho do ano seguinte pelo arcebispo de Saragoça. Era o segundo filho de uma família de oito irmãos e irmãs, filhos e filhas de Miguel Pellicer Maya e de Maria Blasco. Eram modestos agricultores, definidos pelos seus concidadãos como “bons cristãos, tementes a Deus, devotos à sua santa Mãe, levando uma vida virtuosa e digna de elogios como trabalhadores pobres, simples e bons”.

A instrução do jovem Miguel se reduziu ao catecismo que Juan Julis, o padre da paróquia, lhe ensinou – sob a forma exclusivamente oral, pois, que se saiba, ele passou toda sua vida analfabeto. Esta formação religiosa arraigou nele uma fé católica simples e elementar, mas sólida como o granito, que se fundava sobre os sacramentos da confissão e da comunhão, e sobre uma ardente e filial devoção à Virgem Maria. Esta, sob o título de Nossa Senhora do Pilar, era venerada numa capela do seu vilarejo.

Os vizinhos do jovem Miguel Pellicer falam dele como de um “bom cristão, filho obediente, amando o trabalho nos campos, simples, sem malícia e devoto fervoroso da Virgem de Saragoça”

Partida da casa paterna

Quando tinha 19 ou 20 anos – ou seja, nos fins de 1636 ou começos de 1637 – Miguel deixou por iniciativa própria a casa de seus pais, que eram pobres e com muitos filhos. Não queria mais ser um peso para eles. Instalou-se nos arredores de Castellón de la Plana, nas férteis terras às margens do Mediterrâneo, que outrora pertenciam ao reino de Valência. Havia uma falta terrível de mão-de-obra naquela região. Assim, Miguel encontrou facilmente trabalho, sendo empregado como trabalhador agrícola pelo seu tio materno, Jaime Blasco.

Nos fins do mês de julho de 1637, quando ele conduzia para a fazenda duas mulas que arrastavam uma espécie de charrete agrícola de duas rodas carregada de trigo, caiu de uma das mulas, vítima de um brusco acesso de sonolência. Não é raro, entre os camponeses dessas regiões quentes da Espanha que, no momento dos trabalhos do verão, noites de sono muito breve aliadas à fadiga e ao calor, provoquem tais acessos. Quando caiu em terra, uma das rodas da pesada charrete passou sobre a sua perna direita, abaixo do joelho, fraturando a tíbia na parte central.

A fim de que pudesse ser cuidado, o tio Jaime o transportou primeiro a Castellón, e logo depois a Valência, a 60 km dali. Miguel foi acolhido no hospital real, onde só ficou cinco dias, durante os quais “foram-lhe aplicados diversos remédios que não fizeram efeito”.

No seu sofrimento, sua terra natal lhe fazia falta, e ele desejava pôr-se sob a proteção daquela que é, para ele, a Mãe celeste em que ele confiava sem reservas: a Virgem do Pilar.

Assim, conseguiu um salvo-conduto para viajar a Saragoça, cujo hospital real e geral de Nossa Senhora da Graça era bem reputado.

A viagem, extremamente penosa para um doente, durou mais de cinquenta dias! Foi necessário percorrer mais de 300 km em plena estação de calor, passando com muito esforço pela cadeia dos montes ibéricos. Apesar das dificuldades e do sofrimento extremos, foi possível cumprir a tarefa quase sobre-humana, devido à constituição robusta do jovem, e à sua proverbial obstinação aragonesa, mas também graças à caridade cristã que se realizava, entre outras coisas, por uma rede de asilos e de hospitais destinados aos peregrinos e enfermos, que se estendia por toda a Espanha. Além disso, o “passaporte do doente”, emitido pelo Hospital Real de Valência, impunha aos carreteiros e condutores de mula encontrados no caminho, como um dever religioso importante a ajuda ao pobre inválido no seu transporte, e todo o batizado deve prestar assistência em caso de pedido.

Amputação

Miguel chegou enfim a Saragoça nos primeiros dias de outubro desse ano de 1637. Para se locomover, ele se apoiava sobre muletas. Seguiu a Rota Real que passa por Teruel, evitando cuidadosamente Calanda e seus arredores, pois ele tinha vergonha de se mostrar nesse estado a seus parentes, já que ele tinha partido fazia poucos meses, cheio de esperança e com a cabeça dura característica da juventude.

Apesar de seu esgotamento e de uma forte febre, logo depois de ter chegado à capital de Aragão, arrastou-se ao santuário de Nossa Senhora do Pilar, onde se confessou e comungou.

Admitido ao hospital da Graça, foi instalado primeiro numa sala reservada aos doentes com febre elevada, antes de ser transferido para o serviço de cirurgia. Os médicos que o examinam estabelecem que, por causa do estado avançado da gangrena – a tal ponto que a perna parecia “negra” – o único meio de salvar a vida do doente era a amputação.

Em meados do mês de outubro, o professor Juan de Estanga e o mestre cirurgião Millaruelo se encarregaram da amputação, cortando a perna direita “4 dedos abaixo do joelho”, e procedendo em seguida à cauterização. Para atenuar o quanto possível os sofrimentos atrozes desta operação praticada com a serra e o escalpelo, e depois com ferro incandescente, só se podia administrar ao doente uma bebida alcoólica e narcótica usada na época: seria necessário esperar mais dois séculos para se ver a aparição dos primeiros anestésicos eficazes (éter e clorofórmio). Antes e durante a operação, “no seu tormento, o jovem invocava sem cessar e com fervor a Virgem do Pilar”.

Os dois cirurgiões eram assistidos por um estudante em cirurgia, Juan Lorenzo Garcia, que se ocupou de recolher a perna cortada e colocá-la na capela onde são reunidos os corpos dos pacientes mortos. Mais tarde, ajudado por um colega, enterrará a perna numa parte do cemitério do hospital reservada para isto, “num buraco de mais ou menos vinte e um centímetros”. O respeito cristão para com o corpo destinado à ressurreição, eis o que impunha, nesses tempos de fé, que mesmo os restos de partes do corpo fossem tratados com piedade, de modo que era considerado vergonhoso jogá-los fora como lixo…

Depois de alguns meses no hospital, e antes mesmo que sua chaga se cicatrizasse inteiramente e que ele pudesse utilizar uma prótese de madeira, Miguel, arrastando-se nos seus cotovelos – “arrastando-se como podia” – dirige-se ao santuário do Pilar, distante mais ou menos um quilômetro. Deseja agradecer à Virgem Maria “de lhe ter salvado a vida, afim de que ele pudesse continuar a lhe servir e lhe manifestar sua devoção”. Depois ele rezou intensamente para “poder viver de seu trabalho”, apesar da sua terrível mutilação.

A Virgem do Pilar

A Virgem do Pilar

Mendigo

Depois de ter passado o outono e o inverno no hospital, foi enfim autorizado a deixá-lo na primavera de 1638. Quando estava para partir, a administração lhe forneceu uma perna de madeira e uma muleta. Para sobreviver, Miguel não teve outra escolha senão a de se tornar mendigo. Uma permissão legal lhe foi dada que lhe conferia oficialmente o estatuto e o autorizava a pedir esmola na capela de Nossa Senhora da Esperança aos numerosos fiéis que tinha então o hábito de ir para “saudar a Virgem” pelo menos uma vez por dia. A mutilação do jovem era ainda mais evidenciada pelo fato que, segundo o costume da época, Miguel deixava a sua chaga visível. A cada manhã, antes de tomar seu lugar de mendigo, ele assistia devotamente à missa na “santa capela” onde a pequena imagem da Virgem com o Menino permanece em cima da coluna de pedra, “El Pilar”. Também diariamente, quando os acólitos da missa apagavam, com o fim de limpar, as vinte e quatro lamparinas da capela, pedia-lhes um pouco de óleo para ungir o coto da perna amputada – o que o levou a ser advertido pelo professor Juan de Estanga, cirurgião que a amputou e que o recebia periodicamente e gratuitamente para o examinar e controlar seu estado de saúde. A assistência recebida por Miguel durante a sua longa hospitalização (e muito tempo ainda depois), era aquilo que um paciente podia esperar de melhor naquela época, tanto do ponto vista científico quanto humano. Não somente foi uma assistência absolutamente gratuita, mas foi também atenta, afetuosa, ilustrando a mais autêntica caridade cristã. O sistema de saúde (financiado generosamente não pelos impostos extorquidos à população, mas pelos dons livremente consentidos) não poderia ser melhor para os mais ricos… O professor Estanga advertiu o jovem, ao qual ele mesmo tinha operado, que a umidade provocada pela unção quotidiana com o óleo das lamparinas poderia ser um obstáculo para a cicatrização completa. “Ao menos segundo os conhecimentos humanos, acrescentou o médico, e sem levar em consideração a fé no poder de intercessão da Mãe de Deus”. De fato, o jovem mutilado, para quem a confiança na “sua” Virgem do Pilar supria o seu cuidado com regras sanitárias, continuou a utilizar regularmente o óleo das lamparinas da imagem venerada.

A mendicidade lhe permitiu reunir alguns trocados, e Miguel encontrou refúgio para a noite num albergue próximo do santuário mantido por um certo Juan de Mazas… Se não tem bastante dinheiro, dorme sobre um banco debaixo das arcadas do corredor do hospital, onde ele se sente como em casa: todo mundo é seu amigo e o ajuda quanto possível.

Retorno à casa paterna

Depois de ter levado esta vida durante mais ou menos dois anos, Miguel decide, na primavera de 1640, retornar a Calanda, à casa de seus pais, que ele não vê desde ao menos três anos. Foi encorajado nessa sua decisão por alguns habitantes de sua vila, que o reconheceram na porta do santuário. Entre eles, dois padres: D. JusepeHerrero, jovem vigário de 26 anos da paróquia onde Miguel tinha sido batizado, e D. Jaime Villanueva, beneficiário desta mesma igreja. O jovem confia a D. Jusepe a inquietação que o tinha dissuadido até então de retornar a Calanda: “Como é que eu poderia retornar à casa de meus pais, eu que saí contra a vontade deles e em plena saúde, e que me encontro agora sem uma perna?” O padre prometeu que, quando retornasse a Calanda, iria encontrar seu pai e sua mãe para lhes falar em favor do filho infortunado.

Tendo finalmente superado o medo que o retinha, Miguel aproveitou-se do encontro com outros concidadãos no santuário para começar sua viagem de volta ao vilarejo natal, na primeira semana de março de 1640. Passou a primeira etapa até Fuentes de Ebro (mais ou menos 27 quilômetros), sobre a charrete de um viajante ocasional, em companhia de dois jovens de Calanda, Francisco Félez e Lamberto Pascual, que estavam em perfeita saúde e que lhe cederam a charrete para andar à pé. No dia seguinte, não podendo contar com a ajuda do charreteiro (que não podia ir além), chegou a Quinto de Ebro, distante 16 quilômetros, desta vez a pé ”pouco a pouco, e sofrendo muito”. A pressão da perna de madeira sobre o coto da perna era muito dolorosa, a ponto de que ele foi forçado a continuar a andar apoiado somente nas muletas. Em Quinto, ficou só, pois seus dois companheiros que o tinham ajudado como podiam, eram esperados no lugar e não podiam continuar a andar num ritmo tão lento.

Miguel se confiou à compaixão dos viajantes que passavam nessa estrada com uma charrete ou uma mula, e foi assim que conseguiu atingir Samper. Lá, descansou num albergue de Domingo Martín. Miguel aproveitou-se da presença de um camponês da região,

Rafael Borraz, que aceitou ir encontrar seus pais para que estes pudessem vir em seu auxílio.

Estes lhe enviaram um pequeno asno, conduzido por um jovem empregado, BartoloméXimerra, que tinha somente 16 anos. Mesmo nas famílias pobres, podiam-se encontrar esses jovens servidores, filhos de famílias muito numerosas e que, em troca de seu trabalho, só recebiam a comida e, se não pudessem retornar à casa de seus pais de noite, tinham o direito de dormir num canto qualquer. Finalmente, depois de mais de 3 anos de ausência e no fim de uma semana de provações, cumprindo 118 quilômetros que o separavam do termo de sua viagem, Miguel Pellicer (que completaria em breve 23 anos), chegou à casa dos pais e, apesar dos seus receios, foi acolhido muito afetuosamente. Era “um dia da segunda semana da Quaresma”, entre 4 e 11 de março de 1640.

Continua mendigo

Tendo imediatamente constatado sua incapacidade de ajudar nos trabalhos agrícolas, Miguel, que tinha sempre a preocupação de não ser um peso para os seus, decidiu começar de novo a pedir esmolas. Na sociedade daquele tempo, o fato de um inválido sem recursos mendigar não constituía uma desonra, mas era mesmo, em caso de necessidade, um dever.

Para os outros, era algo natural exercer a caridade, que aos seus olhos era somente justiça, repartindo um pouco do seu pão – mesmo se eles não tivessem grande quantidade – com aqueles que não podiam ganhar o seu. Os mendigos eram até mesmo considerados como verdadeiros benfeitores, já que eles permitiam aos seus próximos de praticar esta assistência aos pobres da qual o Evangelho fazia uma das condições para a salvação.

Miguel foi, portanto, mendigar nos vilarejos ao redor. O jovem estava munido de uma autorização regular, do ato de batismo obrigatório, e de um documento explicativo dos motivos de sua invalidez. Este documento lhe tinha sido fornecido pela sua comunidade de origem, e garantia a honestidade daquele que o recebia… Serão numerosos os que verão o jovem mutilado nos vilarejos vizinhos de Calanda, montado no único asno de sua casa e tendo a sua perna cortada exposta, como em Saragoça, a fim estimular a caridade dos habitantes. Fazendo isto, ele recebia os dons em alimentos, sobretudo o pão, particularmente precioso naquele fim de março, onde a próxima colheita ainda estava distante e onde as reservas de farinha começavam a se esgotar.

O prodígio

pellicer calanda.jpg3Era o dia 29 de março de 1640, quinta-feira da Semana da Paixão que precede a Semana Santa. Faltavam, portanto, nove dias para o Domingo da Páscoa… Este ano de 1640 foi bem particular do ponto-de-vista religioso: fazia exatamente 16 séculos que a Virgem tinha “vindo em carne mortal”, nas margens do Rio Ebro. Ora, neste dia 29 de março de 1640, Miguel não partiu como de costume para pedir esmolas, mas se esforçou para ajudar aos seus, não pedindo esmolas, mas com os seus braços. Montado no asno da família, ele foi trabalhar num campo que pertencia a seu pai, perto do vilarejo, e encheu de esterco 9 vezes os cestos transportados pelo animal. É provável que ele não tenha partido para mendigar por causa da necessidade que se tinha do animal para esse trabalho. Cada uma das nove vezes, o asno foi levado ao pátio da casa por uma das irmãs mais novas de Miguel, Jusepa ou Valeria. O pai e Bartolomé, o pequeno empregado, descarregaram o animal e o mandaram de novo ao campo onde o jovem inválido esperava, equilibrando-se com dificuldade na perna de madeira e nas muletas.

De tardinha, cansado, e com o coto da perna doendo mais que de costume, Miguel (que tem então 23 anos e 3 dias), voltou para casa. Uma surpresa desagradável o esperava: por ordem do governo, os Pellicer deveriam acolher naquela noite um soldado da cavalaria real. Duas companhias de cavalaria ligeira marchavam em direção da fronteira da França: estávamos na guerra dos Trinta Anos, e a França tinha atacado a Espanha… Este soldado, confiado à hospitalidade dos Pellicer, partirá de novo de madrugada, depois da noite do prodígio, e chegará com o resto da companhia em Caspe, uma pequena cidade às margens do rio Ebro. E lá ele procurará um capuchinho a fim de se confessar, coisa que ele não fazia desde 10 anos.

A presença do hóspede imprevisto obrigou Miguel a ceder sua cama, e sua mãe, Maria, preparou então para seu filho inválido um colchão improvisado ao lado da cama de casal: tratava-se de um colchão de crina de cavalo posto sobre uma peça de couro para proteger da umidade do solo, e um lençol. A coberta foi emprestada ao militar, e só havia a capa de seu pai para proteger do frio, mas esta era muito pequena para cobrir todo o seu corpo. Às dez horas, depois de um jantar frugal, Miguel dá boa-noite a seus pais, ao soldado, ao empregado e a dois vizinhos, Miguel Barrachina e sua mulher, UrsulaMeans, que tinham vindo como de costume conversar com seus amigos, os Pellicer. Os dois serão as duas primeiras pessoas fora da família (junto com o militar, despertado logo depois), que constatarão, espantadas, o acontecimento.

Durante a conversação, o jovem tinha-se queixado, mais que de costume, das dores na perna cortada, dores que tinham aumentado por causa dos esforços no trabalho, e ele mantinha descoberta a ferida cicatrizada, que todos os presentes podiam ver e tocar. Miguel deixou sobre uma cadeira da cozinha a perna de madeira, e também as tiras de lã que ele utilizava para fixá-la ao que lhe resta da perna. As muletas foram postas no mesmo lugar.

Apoiando-se à parede para manter-se de pé, dirigiu-se, saltando com o pé esquerdo, para o quarto de seus pais, ao lado da cozinha. Pouco depois, os esposos Barrachina, Miguel e Ursula, se despediram e voltaram para a casa vizinha.

Entre dez horas e dez e meia, a mãe de Miguel entrou no quarto com uma lamparina, percebendo logo “um perfume, um odor suave” desconhecido para ela, “um perfume vindo do Paraíso, diferente de todos os perfumes da terra” e que permanecerá por vários dias, impregnando não somente o quarto, mas também todos os objetos que lá se encontravam.

Espantada com este perfume, ela levantou a sua lamparina e se aproximou do colchão improvisado para ver como seu filho estava. Ele dormia profundamente. Mas ela percebeu também, pensando estar enganada por causa da pouca luz, que não somente um pé ultrapassava a capa de seu pai, mas dois, “um sobre o outro, cruzados”.

Maria se aproximou com cuidado, constatando que ela de forma nenhuma se havia enganado, e pensou então que tinha havido um mal-entendido, que o lugar reservado a seu filho estivesse ocupado pelo soldado. Chamou então seu marido, que ficou na cozinha, para esclarecer a situação. O pai de Miguel chegou apressado, levantou a coberta, e os dois esposos descobriram o impensável: tratava-se de seu filho. Tirando completamente a coberta, espantados, confirmaram que os dois pés cruzados eram mesmo os do jovem Miguel. E viram que estes dois pés estavam unidos à perna, como no dia em que, há mais de três anos, tinham visto seu segundo filho partir, cheio de vigor e esperança, a buscar fortuna, pela estrada de Castellón de la Plana.

“Maravilhados e estupefatos diante de uma maravilha tão inaudita”, os pais sacodem seu filho, gritando para o despertar. Com os gritos, o rapazinho empregado acorreu da cozinha, onde ele se aprontava para dormir no seu lugar habitual. Os pais tiveram muita dificuldade para despertar Miguel, pois este tinha um sono extremamente profundo, como se estivesse num coma ligeiro. Foi preciso, para despertá-lo, “mais tempo que a duração de dois Credos”.

Quando, depois de muito esforço, Miguel abriu os olhos e tomou consciência, a primeira coisa que lhe disseram foi de “olhar, pois há duas pernas de novo”. O rapaz ficou “maravilhado”, e sua reação imediata é a de pedir a seu pai de “lhe dar a mão” em sinal de perdão pelas ofensas que tenha feito contra ele. Quando lhe perguntaram, com emoção, se ele “tem alguma ideia de como isto ocorreu”, o jovem respondeu que ele nada sabia. Mas declarou que, quando estava para acordar “sonhava que ele se encontrava na santa capela de Nossa Senhora do Pilar, e que ele ungia sua perna cortada com o óleo de uma lâmpada, conforme tinha o costume de fazer quando estava no santuário”. Acrescentou que, nessa mesma noite, antes de se deitar, recomendou-se a Nossa Senhora do Pilar com muito fervor, como de costume. Tinha certeza de que “foi Nossa Senhora do Pilar que lhe devolveu a perna cortada”.

Passada a primeira emoção, o jovem começou a “mover e apalpar sua perna, pois lhe parece que isto não pode ser verdade”. Mas ele mesmo e seus parentes, à luz da lâmpada, examinaram o membro e logo descobriram as marcas que não deixam lugar a nenhuma confusão. Pois eram as marcas que se encontravam outrora sobre a perna amputada… A mais importante, a mais visível, é a cicatriz deixada pela roda da charrete que tinha fraturado a tíbia no acidente de Castellón de la Plana. Também se podia ver outra cicatriz, menor, provocada pela extração (quando Miguel ainda era menino) de um grande quisto, ‘na parte inferior e interior da perna”. E depois, dois arranhões profundos causados por uma planta espinhosa. Finalmente, os traços de uma mordida de cachorro, na panturrilha. Além dos parentes e do miraculado, outras testemunhas se lembrarão dos traços visíveis na perna direita do seu jovem concidadão antes que ela fosse cortada, já que a roupa usada pelos camponeses aragoneses deixava ver a panturrilha, a calça só descia um pouco abaixo do joelho.

Miguel e seus parentes adquiriram logo a certeza de que “a Virgem do Pilar obteve de Deus Nosso Senhor que a perna que tinha sido enterrada há mais de dois anos lhe fosse devolvida”.Efetivamente, pesquisas foram efetuadas no cemitério do hospital de Saragoça.

Mas não se encontrou nenhum vestígio da perna enterrada na parte reservada aos membros amputados. Só havia um buraco vazio na terra. Portanto, não houve criação, mas antes uma espantosa restauração; não uma expulsão, mas uma união. Três dias ainda foram necessários para que o calor natural penetrasse progressivamente na perna e no pé direitos. Os dedos, antes “recurvados”, se endireitarão, a pele retomará sua cor normal, e desaparecerão as estrias arroxeadas que a sulcavam. Pouco a pouco, o pé reencontrará sua flexibilidade, e todo vestígio de coloração anormal desaparecerá. O fato de que a cura total não tenha sido instantânea, não diminui a grandeza do prodígio. Como observará o arcebispo de Saragoça, é preciso distinguir entre o que a natureza é capaz e o que lhe é impossível. Somente a restituição de uma perna a uma pessoa que foi dela privada durante vários anos é que constitui propriamente o caráter prodigioso do acontecimento.

Primeiras testemunhas

Alertado pelos clamores dos esposos Pellicer e prevenido pelo jovem empregado, acorreram o vizinho Miguel Barrachina, companheiro da conversação, e que pouco antes tinha visto Miguel só com uma perna. Viu o que tinha acontecido e logo chamou da rua sua esposa Úrsula, já deitada, para que ela também viesse. Os clamores de seu marido eram de tal modo ininteligíveis, e as palavras deformadas pela emoção, que ela se enganou sobre o que era dito. Perto da cama de Miguel, Úrsula encontrou todas as pessoas como fora de si mesmas, cantando em alta voz hinos de louvor e ação de graças à Virgem do Pilar e a Jesus Cristo. Logo chegam outras pessoas, entre as quais a avó materna do miraculado.

Quando o sol nasce nesse dia 30 de março – sexta-feira da Semana da Paixão – a incrível notícia se espalhou em todo o vilarejo e D. Jusepe dirigiu-se à casa dos Pellicer “seguido de muita gente”. Entre elas, os notáveis de Calanda, o prefeito, Miguel Escobedo, e seu adjunto, Martín Galindo. E ainda o notário real, Lázaro Macário Gómez. O prefeito declarou mais tarde que, não conseguindo compreender como uma coisa tão extraordinária pudesse se produzir, ele tinha “apalpado a perna e feito cócegas na planta do pé”. Também ali estava o juiz de paz, que deveria assegurar a ordem pública, Martín Corellano. Este redigiu o primeiro relato dos acontecimentos que deveria ser enviado às autoridades de Saragoça, no dia seguinte aos fatos. Este documento foi entregue pela mesma família Pellicer quando, algumas semanas depois, ela se dirigiu em peregrinação de ação de graças ao santuário do Pilar. Na capital aragonesa, a coisa foi considerada tão extraordinária, que se julgou necessário informar logo as autoridades supremas do reino. Assim, este primeiro documento de um obscuro funcionário de Calanda foi enviado a Madrid pelo correio e chegou às mãos do rei Filipe IV.

No meio da multidão, que se reuniu em torno da casa dos Pellicer, se achavam também dois médicos de Calanda. Uma espécie de procissão se formou para acompanhar o jovem até a igreja paroquial, onde o resto dos habitantes o esperava. Todos, dizem os documentos, “ficaram estupefatos vendo-o de novo com a sua perna direita, pois eles tinham-no visto antes com uma só perna até o dia anterior de tarde”. Na igreja, o vigário, depois de ter confessado o miraculado, celebrou uma missa de ação de graças, durante a qual Miguel comungou.

Ata feita perante o notário a respeito do prodígio.

O dia 1º de abril, terceiro dia após o milagre, foi, naquele ano de 1640, Domingo de Ramos. Aproveitando-se do feriado, numerosas pessoas de toda a região foram a Calanda: espantados pela notícia do prodígio, queriam assegurar-se da veracidade dos fatos. Entre eles chegam de Mozaléon, lugarejo situado a leste de Calanda, a 50 km, o pároco, pe. Marco Seguer, doutor em teologia, e um dos seus vigários, pe. Pedro Vicente, e o escrivão real do lugar, mestre Miguel Andreu.

Devemos a esta pequena expedição inesperada esse documento extraordinário: um ato jurídico oficial certificando a autenticidade dos fatos, de maneira que o milagre está garantido por um documento estabelecido por um escrivão habilitado junto ao Estado segundo todas as regras do direito e confirmado por dez testemunhas oculares, escolhidas entre as mais dignas de fé e as melhores informadas entre as numerosas disponíveis. Além disso, este ato de certificação foi feito no lugar mesmo onde tudo isto aconteceu. Apesar das vicissitudes da história aragonesa, o original do documento existe até hoje. Desde 1972, encontra-se exposto numa vitrine no escritório da prefeitura de Saragoça. O historiador Leandro Ama Naval observa: “Com documento, estamos próximos daquela garantia ideal reclamada pelos racionalistas e pelos incrédulos de sempre como condição preliminar para poder-se levar em consideração esses fenômenos que ultrapassam os limites das leis científicas e que os crentes definem como milagres”. O mistério, em suma, se vê confirmado pelo selo de mestre Andreu, que se apresenta neste ato como ele se apresenta nos numerosos outros atos assinados por ele e que chegaram até nós.

O processo canônico

Foi a municipalidade de Saragoça que pediu a abertura do processo, a fim de que o acontecimento fosse completamente esclarecido. O primeiro signatário desse pedido de investigação sobre o que verdadeiramente se tinha passado no vilarejo do reino de Aragão foi o prefeito de Saragoça, Lupercio Diaz de Contamina. Depois de ter recebido a autorização do arcebispado, as autoridades civis nomearam três pessoas que serão incumbidas de representá-los no júri. No dia 5 de junho, os três representantes de Saragoça se apresentaram diante do vigário geral da diocese, D. Juan Perat, e o processo canônico foi oficialmente aberto. Para que houvesse uma maior transparência, ele seria público e não a portas fechadas. As minutas, com todos os interrogatórios, as objeções, as deduções e as contra-deduções, seriam integralmente e imediatamente publicadas e postas à disposição de todos aqueles que quisessem consultar, tanto mais que se quis deixá-las em castelhano, a língua do povo. Somente a sentença solene do arcebispado será redigida em latim – mas ela será também, logo traduzida. As regras estabelecidas na 25° sessão do Concílio de Trento e claramente enunciadas no decreto sobre a veneração dos santos e de suas relíquias e sobre o reconhecimento dos “novos milagres”, foram rigorosamente seguidas.

A organização formal do processo foi confiada ao vigário-geral. D. Perat. Mas foi o arcebispo de Saragoça em pessoa, D. Pedro Apaolaza Ramírez, que se constituiu juiz e presidente do tribunal, assistindo a todo o desfilar de testemunhas e ao seu minucioso interrogatório. O arcebispo era um pastor de grande experiência (tinha 74 anos), sábio autor de trabalhos de teologia apreciados. Cumpriu seu cargo episcopal com zelo e severidade na aplicação dos decretos conciliares, a ponto de atrair para si ressentimentos. Em conformidade às regras do Concílio de Trento, um colégio de nove teólogos e canonistas (entre os quais um leigo, professor universitário), se assentaram ao lado do arcebispo. Todos assinaram com ele a sentença definitiva.

Uma confirmação suplementar do rigor jurídico e teológico deste processo veio de que ele se desenrolou sob o olhar atento e desconfiado da Inquisição que, todavia, não interferiu diretamente. No apogeu de sua organização e de seu poder em Aragão, a Inquisição velava com autoridade pelo respeito estrito da ortodoxia católica, intervindo de maneira inexorável em todos os casos onde ela acreditava detectar novidades perigosas ou traços de superstição.

Contrariamente ao que nos queria fazer crer a “Lenda Negra” da Espanha, o tribunal da Inquisição gozava de um apoio total e convencido da parte de todas as classes sociais, a começar pelo povo. O fato de que o tribunal da Inquisição não tenha exigido de proceder por ela mesma à investigação do impressionante prodígio é uma garantia da objetividade e da regularidade do trabalho jurídico feito pelo tribunal constituído.

Este tribunal não se contentará em buscar as provas, a fim de estabelecer a verdade sobre o objeto do processo, pela audição das vinte e quatro testemunhas oculares. Depois deles, durante cinco audiências, serão outras nove testemunhas de “credibilidade” que compareceriam diante dos juízes. Estes são chamados a ser avalistas dos testemunhos precedentes, para confirmá-los sob juramento de credibilidade. No total, as minutas do processo mencionam 102 nomes, ilustres ou obscuros: juízes, escrivães, procuradores, meirinhos, testemunhas oculares ou “de credibilidade”, médicos, enfermeiros, eclesiásticos, donos de albergue, camponeses, carreteiros… Um jurista moderno e leigo, depois de uma análise dos procedimentos e do desenrolar do processo, podia falar de um “excesso de garantias” e de uma “prudência quase impertinente na verificação”.

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Sentença

A decisão do arcebispado, declarando o acontecimento de Calanda autenticamente miraculoso, foi pronunciada no dia 27 de abril de 1641, ou seja, depois de onze meses de trabalho e catorze sessões públicas e plenárias, menos de treze meses depois dos fatos. Num latim solene, o arcebispo concluía nestes termos a sentença que selava o fim de um longo e complexo processo:

Por isto, tendo considerado os argumentos ditos acima e muitos outros, com o conselho dos ilustres doutores em Sagrada Teologia e em Direito Canônico nomeados acima, nós afirmamos, pronunciamos e declaramos que a Miguel Juan Pellicer, nascido em Calanda, que foi objeto deste processo, lhe foi devolvida milagrosamente sua perna direita, que lhe tinha sido anteriormente amputada; que não se tratou de um fato natural, mas de uma obra admirável e miraculosa; e que se deve julgar que se trata de um milagre, todas as condições requeridas pelo Direito tendo sido reunidas para que, no caso aqui examinado, se possa falar de um autêntico prodígio. E assim devemos inscrevê-lo no número dos milagres, e nós o aprovamos, declaramos e autorizamos como tal.

Extraído da revista Sel de la Terre (49240 – Avrillé) nº49.

Fontes: FBMV

Core Catholica

Pale Ideas.

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Para divulgação: Instituto Nossa Senhora do Rosário.

Capela do Santo Rosário, Anápolis/GO

Esta congregação feminina é – segundo o Padre Jahir Britto, fundador da Familia Beatae Mariae Virginis, – a “versão feminina” da FBMV, com o diferencial de que 1- não são monjas e, 2- são voltadas particularmente para a educação da infância, em especial de meninas.

O fundador, o padre Fernando, até onde sei, amigo de muitos anos do padre Jahir, superior dos monges da Bahia, certamente criou uma obra de grande serventia para a formação destas futuras cristãs: tanto que a obra, para socorrer outros lugares com católicos tradicionais, já não está presente apenas em Anápolis, mas já tem uma fundação em Nova Friburgo/RJ: o colégio São Bento e Santa Escolástica.

Interior da Igreja do Santo Rosário, Anápolis/GO

Interior da Igreja do Santo Rosário, Anápolis/GO

Em busca de maiores detalhes para escrever esta matéria, fui ao site da FSSPX-Brasil, e percebi que o Instituto das irmãs rosarianas já não se encontra mais entre as suas comunidades amigas, e se ligarmos o fato de que as mesmas estão unidas aos beneditinos de Nova Friburgo no auxílio às almas locais, então me parece possível concluir que todas as comunidades religiosas amigas da FSSPX no Brasil romperam com a mesma, depois do espetáculo de deposição de armas de D. Fellay e da expulsão de Monsenhor Williamson.

É realmente uma pena, mas diante do liberalismo conciliar as posições devem ser claras, e é por falta de clareza que chegamos onde estamos. Mas Deus proverá! Não pretendo divagar mais sobre o assunto: voltemos ao tema!

Faltam-me dados precisos, mas segundo o blog Pale Ideas, até outubro de 2012 o instituto era composto por 27 religiosas, sendo 20 em Anápolis, vinculadas ao Colégio São José, e as demais em Nova Friburgo, atendendo numa escolinha vizinha do Mosteiro de Santa Cruz. No Colégio São José há por volta de 90 alunas. É uma escola localizada na zona rural, com bem razoável infra-estrutura e uma grande capela.

Enquanto isso, na jovem fundação de Nova Friburgo, os trabalhos de construção ainda avançam, devagar e sempre…

Colégio São Bento e Santa Escolástica, Nova Friburgo/RJ

Colégio São Bento e Santa Escolástica, Nova Friburgo/RJ

Ao que parece, faz parte dos projetos do fundador a construção de um internato para meninos em Anápolis. Em Nova Friburgo, ao que parece, o colégio é misto.

Mas além da função social e de formação religiosa, o grande destaque que se deve dar às irmãs é a reza diária do Rosário, assim como fazem os monges Marianos da Bahia.

Que a obra cresça segundo a vontade de Nosso Senhor. Que cresça de maneira discreta, humilde, e que cresçam em santidade todos os envolvidos: pais, alunos, benfeitores, o padre, as irmãs e as professoras graduadas externas.

É uma obra pia, não deixem de contribuir, segundo suas possibilidades. Deixo aqui algumas fotografias que encontrei no site do Mosteiro de Santa Cruz de Nova Firburgo/RJ e no blog Pale Ideas. Vale igualmente a pena passar a vista numa crônica de uma visita do padre Cardozo ao local.

Mais fotografias abaixo:

Padre Fernando

Padre Fernando

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Alunos de Nova Friburgo

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Procissão no colégio São José

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As irmãs e as alunas no ginásio do colégio São José

Transporte escolar do colégio São José

Transporte escolar do colégio São José

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