Idolatria?

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Há algumas semanas li uma matéria sobre mais uma profanação contra uma igreja católica em Minas Gerais. E recordei-me que, ultimamente, episódios de invasão de igrejas e depredações – em particular contra as imagens sagradas – têm sido cada vez mais comuns neste país.

Então li a nota da diocese a respeito do ocorrido. Não vou me adentrar em detalhes, não é o propósito deste artigo, mas posso resumir em quatro pontos o que dizia ali:

1 – solidariedade aos católicos ofendidos;

2 – Indignação contra os autores do crime;

3 – Apelos aos órgãos competentes que investiguem os infratores pelo vandalismo causado;

4 – Reiterar que a política de boa vizinhança com o “politicamente correto” e com o reconhecimento  das falsas religiões não foi abalado.

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Quando li a nota, que certamente foi considerada satisfatória para quase todos os que a ela tiveram acesso (visto que hoje em dia o afã em mostrar uma igreja jovial e não-ranzinza faz com que episódios lamentáveis como esse geralmente sejam minimizados pelo próprio clero, ou ignorados), num momento inicial pensei ter sentido um certo alívio. Mas durante a leitura da nota, me escandalizei com a indigência de atitude dos ditos católicos de nossos tempos, simbolizada no que ali estava escrito.

De maneira que o escândalo maior não foi a profanação ocorrida.

O verdadeiro escândalo foi contra o conteúdo  da nota emitida.

Parece exagero. Sei que aparentemente uma nota de protesto não deveria causar escândalo a mim, que apoia exatamente uma postura forte do clero e dos fiéis contra este tipo de ocorrência.

Pois então, permitam-me explicar o raciocínio. Mas antes, deixem-me divagar um pouco, visto que ser prolixo é meu defeito incorrigível:

Há anos atrás, em um sebo, terminei adquirindo um livro chamado “Conversões ao Catolicismo”. Livro antigo, com vários testemunhos escritos a próprio punho por convertidos de diversas partes do mundo, de várias origens, etnias e profissões. Dentre todos os maravilhosos e racionais relatos que li, estava entre eles o relato do célebre convertido inglês Chesterton.  Recomendo a todos, inclusive já o publiquei neste blog, já tratei do tema em vários lugares, e algumas coisas de seu raciocínio ainda hoje me acompanham. Não sou um devorador dos livros de Chesterton – mea culpa – mas o seu relato de conversão é causa para refletir longamente sobre o que é enxergar o mundo aos olhos da fé.

Em um dos trechos de seu testemunho, Chesterton sabiamente diz que o homem que se torna católico simultaneamente passa a ter uma idade “de três milênios” (os três milênios são uma adaptação minha!), e passa a considerar as coisas através do significado profundo das mesmas, e não segundo “as últimas notícias dos jornais”, ou seja: um católico enxerga o processo, o contexto, a conjuntura e o histórico das coisas, e não se limita ao superficialmente recente.

Em outra parte de seu relato, ele exemplifica, citando por exemplo uma catedral. Diz algo neste sentido: para um historiador de arte desprovido de Fé Católica (ou com uma fé rotineira, meramente cumpridora de formalidades), diante desta catedral,  se preocuparia em pormenorizar o valor artístico do ambiente: o que contêm e o que falta, o que é original e o que veio depois. Enxergaria pelo olhar da técnica, da arte, da arquitetura. Quiçá arriscaria explicar os sentimentos e as idéias que povoaram a mente dos artistas que ali trabalharam… Já um homem, que antes de historiador fosse católico, examinaria a mesma coisa, só que antes disso, procuraria na catedral tudo o que nela se encontrasse disposta de maneira que o local reunisse tudo o que é necessário para servir verdadeiramente como uma catedral CATÓLICA! Ele enxergaria com ainda maior abrangência, pois conseguiria enxergar tudo ao seu redor como se fosse um grande livro.

Eu refleti sobre a questão, e realmente tentei enxergar pelos olhos da religião. Uma catedral é construída de maneira a receber a luz do sol que nasce no oriente, símbolo da Salvação que para nós é Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio do Leste. Seu altar-mor e os demais altares, ao mesmo tempo em que são preciosidades, são o mesmo Monte Calvário que está na Palestina, só que num sentido místico. Ali as missas não são meras cerimônias, mas vemos a mesma imolação de Cristo no Calvário; o que acontece ali não é uma encenação ou um outro sacrifício: é o mesmo e único Sacrifício de Cristo naquela cruz sob o Gólgota acontecendo diante de nossos olhos, um acontecimento atemporal que está fora dos conceitos de presente, passado e futuro, e que está sendo atualizado diante de nós. Só há um Sacrifício que se renova naquele lugar, não importa em quantos altares! Nestes altares estariam as relíquias obrigatórias? – perguntar-se-ia o católico que examinasse a catedral – Sim, porque o altar é o Calvário, mas também é um túmulo! O Santo Sacrifício sempre foi renovado sobre os jazigos dos mártires das catacumbas. A Igreja, para honrar os que morreram por amor e fidelidade a Cristo, sempre exigiu que se colocassem relíquias de mártires nos altares, para cumprir o que dizem os salmos: “preciosa na presença do Senhor é a morte de seus santos”. Na catedral, os vitrais filtram a luz do Sol, de forma que tudo se encha de luz e o homem possa ver o Astro-Rei sem ficar cego. E a mesma luz do sol que chega até nós através dos vitrais é decomposta nas cores mais diversas, a unidade da luz solar na diversidade das cores da mesma luz! O católico enxerga no vitral os santos que nos permitem ter uma noção prática da infinita bondade de Deus, pois se O olhássemos diretamente, morreríamos. Moisés cobriu a face diante da manifestação de Deus, pela sarça ardente. Olhando para Cristo, vemos Deus! Olhando para as virtudes dos santos, temos uma parca noção das Virtudes (com V maiúsculo) reunidas em Cristo. Cada santo reflete de maneira relativa uma qualidade que Deus reune de maneira absoluta. Pela maneira heróica com que cada santo consegue refletir alguma determinada qualidade, podemos enxergar claramente que o Autor por trás do santo reflete de maneira absoluta aquela qualidade que para nós é tão sensacional, mas que é ao mesmo tempo relativa! Assim como Cristo amou a todos, mas chamou uns a segui-los como discípulos, e dentre eles, doze apóstolos em particular, para que aprendessem mais profundamente a Sua Doutrina, afim de transmitirem Sua Tradição e conduzirem os demais, na Catedral há a divisória física entre o presbitério, onde ficam os que governam, ensinam, transmitem, confirmam, e a nave, onde ficam os discípulos, as ovelhas, os que recebem o que sempre foi transmitido desde o tempo em que Nosso Senhor esteve aqui e pregou a Verdade… Para enumerar cada espaço de uma catedral, haveria muito mais coisas, muitos outros detalhes e muitas lições a se tratar. Paro aqui.

Em suma: existe uma forma católica de se enxergar as coisas. Uma forma que vai muito além do que uma catedral materialmente contêm. Existe esta forma, e existe a visão mundana de enxergar as coisas. Visão que na verdade é cegueira. E cegueira que hoje ataca a maioria dos cristãos, culpados ou não.

Cegueira que não poupou nem o bispo da diocese onde a profanação ocorreu. E se atinge o clero, ainda pior se encontra o povo.

Infelizmente, esta violação de igrejas tem sido uma constante, e a reação dos católicos tem sido geralmente pífia.

Mas quando escrevo estas linhas, não julguem que me sejam motivo de vanglória, como se fosse alguma prerrogativa que eu supostamente tenha e que falte nos outros. Enxergar as coisas não é qualidade, é apenas o exercício de abrir os olhos. Logo, não há mérito nenhum no que digo. Mérito só se conquista com esforço, com trabalho e com a ajuda de Deus. Mas falar, como estou fazendo aqui, qualquer um poderia. Falar é sempre fácil. Voltemos ao tema.

Como infelizmente nestas últimas décadas, passou a ser de praxe no clero e na Hierarquia do Brasil o falar muito e não dizer nada, o que me deixou estarrecido com a nota foi, antes de qualquer coisa:

NENHUMA LETRA acerca da realidade sobrenatural!!!! Perceberam? Em todo o texto, não se falou em um momento a palavra DEUS. Não se falou a palavra PECADO, não se falou em desagravo, não se falou em expiação! Nenhuma palavra sobre o VERDADEIRO OFENDIDO: DEUS. Nenhuma palavra sobre o que ocorreu verdadeiramente: ódio à Fé, desprezo às coisas de Deus, profanação de lugar consagrado ao culto a Deus, ultraje aos santos…

Onde Deus entrou nesta nota? Foi uma declaração naturalista, como se tudo não passasse de uma depredação de um lugar qualquer.

Como se Ele não contasse, ou como se não existisse…

A primeira linha foi reservada aos “sentimentos” dos católicos.

Ooh, coitadinhos…

Querem saber? Aos esgotos o mi-mi-mi dos católicos! Eu ou você que lê estas linhas, ou quem quer que seja: o que são nossas indignações diante da monstruosidade ali ocorrida?

Não se trata de levarmos para o lado sentimental: foi um ataque contra Deus e contra a Sua Igreja, o que sentimos é irrelevante: a reparação contra o pecado, o restabelecimento da Justiça para desagravar a Deus, isso sim deve ser buscado com presteza!

Qualquer um sabe que Deus não precisa de templos materiais para “se sentir em casa”. Deus não está “preso” entre as paredes das igrejas. Só que a finalidade da construção de um templo religioso católico é a de separar um local PÚBLICO onde os homens possam se dirigir à vista de todos para dar a Deus os louvores e graças que são direito dEle. Onde o povo reunido possa implorar Sua Misericórdia, aprender Sua Doutrina, confessar seus pecados, unir-se de coração ao Sacrifício do Calvário, amá-Lo, e devolver-Lhe da forma mais sincera possível todo o Bem que Ele tão dedicadamente e com  tanta ternura nos dirige… As igrejas são edifícios reservados para o culto PÚBLICO. Pois então: o recinto é SEPARADO de construções comuns, é eivado de significado, deve ser adornado com o que há de melhor, visto que não é para nós, mas é para o Culto a Deus, é benzido, é consagrado inteiramente, é exorcizado e tudo em seu interior deve falar de Deus, e deve ser centralizado em torno dEle.

Por ser nos altares das Igrejas o lugar onde se renova o Santo Sacrifício, é o que difere nossos templos de meras sinagogas.

Portanto, profanar uma igreja por própria culpa é atentar diretamente contra Deus. É humilhá-Lo publicamente diante dos homens. As coisas devem ser chamadas por seu nome: não é vandalismo, é profanação movida por fanatismo, que por sua vez é derivado da rebelião das consciências contra a Doutrina Cristã, visto não admitirem que a única verdade é que só há um Deus e uma Igreja, a Católica Apostólica Romana, transmissora da Verdade, ainda que assolada o tempo inteiro contra inimigos internos e externos que não cessam de feri-la.

De forma que, até mesmo os que alegam ter ódio ao catolicismo e não a Deus, terminam, exatamente por desprezar a Verdade e cometer tais atrocidades atiçados pelo fanatismo, demonstrando que odeiam a Ele em virtude disso, visto que se O amassem, não fariam ouvidos moucos acerca de sua Doutrina.

A razão destas impiedades é atiçada em grande parte por desprezo ao que chamam de “idolatria aos santos”, o que só depõe contra os próprios hereges. Não são apenas fanáticos, mas agem como boas cavalgaduras.

Antes de tudo porque, quando nenhuma seita suburbana sequer sonhava em nascer, as Sagradas Escrituras já haviam sido reunidas pela própria Igreja, cuja existência ANTECEDE a maioria dos textos, pois quando os mesmos passaram a contar a vida de Nosso Senhor nos Evangelhos, isso se deu depois de sua Morte e Ressurreição, e não DURANTE seu Ministério. Nosso Senhor não andava com secretários, com notários que passassem o dia a persegui-Lo com um bloco na mão, anotando seus diálogos e seus feitos. Isso foi feito DEPOIS, a Igreja passou ao governo dos Apóstolos depois da Ascensão, e uma vez constituída, vieram as Cartas ou Epístolas, os atos dos Apóstolos, o Apocalipse de São João etc. Então a Igreja reuniu os textos sagrados e separou-os dos demais escritos não inspirados, tanto os do Antigo quanto os do Novo Testamento, mas isso se deu no ambiente eclesial, mesmo porque todo o Novo Testamento foi escrito depois da fundação da Igreja…

Só que os hereges, ignorantes que são, perversos que são, não consideram estas coisas: utilizam a Bíblia de maneira mágica, pregando que é FUNDAMENTAL que todos a leiam, (como se o fenômeno de alfabetização das massas fosse algo sempre existente… Se a salvação depende tanto da leitura individual, o que foi feito das almas da quase totalidade dos homens em dois milênios de analfabetismo generalizado?) quando na mesma Bíblia, vemos que a ênfase de Nosso Senhor foi ordenar de modo particular aos seus Apóstolos e de modo geral aos demais discípulos que fossem por todo mundo pregar o Evangelho “a toda criatura”. Mandou pregar, e não copiar ou imprimir. Transmitir por palavra ou como fizeram posteriormente os apóstolos, por epístolas ou cartas dirigidas às comunidades cristãs ou igrejas particulares com “i” minúsculo (visto que eram partes, e não o todo), e não que se distribuíssem Bíblias para que cada um se julgasse pretensamente iluminado, interpretasse individualmente, de maneira egoísta e isolada, sem precisar de ninguém, bastando-se a si e ao Espírito Santo. Criaram a doutrina da Sola Scriptura, mas se inquiridos onde está escrito na própria Bíblia a passagem onde a mesma se auto-define como a depositária única de toda a Verdade Cristã, não poderão responder, pois é uma doutrina falsa inventada por eles. A Bíblia é toda verdadeira, mas a Tradição oral da Doutrina Cristã passada por pregação desde Cristo aos Apóstolos e por conseguinte aos seus sucessores, assim como o Magistério da Igreja são igualmente fontes da Verdade revelada, coisa que eles desprezam em detrimento da anti-bíblica doutrina da Sola Scriptura luterana. Usam pretensamente os “serviços” do Espírito Santo, como se o mesmo fosse um lacaio a serviço da sentença de cada desmiolado que abre a Bíblia, lê e julga correta a interpretação que acabou de formular. Se existem trinta mil seitas protestantes, existem trinta mil fundadores que pretensamente se serviram do Espírito Santo através da leitura bíblica para descobrir a vontade divina. E cada um ensina coisa diferente do outro… E cada um se julga correto, graças à certeza baseada na Sola Scriptura… E é exatamente por cometerem, do alto de seus orgulhos, a petulância de se arvorarem em juízes dos outros (ao invés de aproveitarem a Bíblia para examinarem seus interiores e emendarem-se), que em meio de suas interpretações piratas, feitas totalmente de maneira alheia ao que sempre foi acreditado, e por julgarem seus pareceres pessoais superiores ao que a Igreja sempre ensinou, desprezando o fato de que, por dois mil anos a mesma Igreja tenha fielmente compilado a Sagrada Escritura – o que a própria arqueologia confirmou através dos manuscritos do Mar Morto (para decepção de tantos hereges e ímpios que apostavam nas “falsificações” católicas) – a mesma Igreja que conhecia e transmitia as Escrituras mil e quinhentos anos antes que o primeiro protestante surgisse e decretasse que a verdade era a da interpretação pessoal entendida por ele – ou seja: por essa lógica de que a Sola Scriptura é o meio de entender a vontade divina, consequentemente obriga-nos a concluir que a assistência do Espírito Santo dada à Igreja que Cristo nos garantiu, teria sido interrompida por dezesseis séculos (visto que até Lutero, a Igreja jamais ensinou tal coisa). Logo, visto que só depois de Lutero a verdade de Deus passou a ser acessível  baseada na Escritura E NADA MAIS QUE ISSO (Sola Scriptura), então, Cristo mentiu ou se esqueceu de sua promessa até o advento do luternaismo!

***

E é neste modismo de abrir as Escrituras e pregar que a interpretação pessoal do leitor é a correta, que algum néscio, num dado momento, baseado do alto de sua fanfarronice, ao ler os episódios de idolatria mencionados no Antigo Testamento, “descobre a roda”, ou seja: descobre que as imagens das igrejas são equivalentes às idolatrias dos pagãos mencionadas no Antigo Testamento!

A estupidez de quem concluiu tal raciocínio  só se compara à sua pretensão intelectual: Pois então seria ele a primeira pessoa em mil e quinhentos anos a ler na Bíblia que Deus proíbe a idolatria? Francamente…

Mas, oras! Não é o que a maioria dos protestantes e protestantizantes dizem? É o que repetem à exaustão: que cometemos o erro grosseiro de adorar ídolos, por sermos cegos ou ignorantes demais para entender o que está na Bíblia. Ou seja: subestimam a nossa inteligência ou nos julgam perversos.

Mas esse parecer é antes um movimento da vontade protestante de que as coisas sejam desta maneira: na maioria dos casos, não adiantará fornecer todas as provas, todos os argumentos que demonstrem a nossa fé. O protestante típico parte do pressuposto de que se está lidando com idólatras, portanto nada do que os católicos disserem irá quebrar-lhes a disposição, porque já decidiram que conhecem nossa fé melhor do que nós mesmos, portanto julgaram nossos gestos antes de desejar entender o que queremos dizer, de forma que,  tudo o que dissermos será em vão antes mesmo que comecemos a argumentar…

Portanto, não é para esses hereges, mas para os que querem continuar católicos, e mesmo para os que têm intenção reta e são sinceros que dedico esta crônica:

Antes de tudo, não preciso me submeter à moda protestante de sair espalhando passagens bíblicas aos quatro cantos: primeiramente porque eu sou católico, e não usarei o mesmo método de tesoura que condeno. Não interpreto a Bíblia, isso cabe à Igreja, e não estou falando sequer em nome da mesma (não recebi ordem de ninguém, faço isso por dever de cristão, visto que é obrigação minha contribuir dentro de minhas possibilidades para combater a ignorância que abunda em toda parte!). Também não sairei lançando passagens bíblicas ao léu, exatamente porque esse assunto tem relação com os protestantes, e como eles têm o vício de se ater estritamente às palavras, pois então não hei de alimentá-los nisso. Não ficam nada a dever aos da imagem abaixo:

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Caem nos mesmos enganos. Aliás atualmente há uma simpatia mal-disfarçada de muitas seitas pelo judaísmo, talvez porque desejem inconscientemente refazer a sucessão das gerações de homens que se baseiam nas Escrituras e no Deus de Israel. Como se separaram da videira, não têm mais a sucessão apostólica. Então procuram se ligar ao judaísmo. São inúmeras as seitas com nomes em hebraico, ou que apoiam suas práticas em preceitos do Antigo Testamento, ou mesmo que constroem templos à maneira do Templo de Israel, etc etc. Só que, para estes que dizem servir a Jesus Cristo, buscar nos judeus alguma legitimidade é um paradoxo, visto que os judeus objetivamente falando rejeitam a Divindade de Cristo, rejeitam a Santíssima Trindade, e crêem quase sempre que o Messias ainda não veio.

Mas assim como nos tempos em que Nosso Senhor veio ao mundo para nos trazer a Boa Nova, os judeus que O rejeitaram eram no entanto doutores da Lei e grandes conhecedores materiais das Escrituras, no final das contas, de nada adiantou frisar letra por letra, visto que não foram capazes de aceitar o Messias, amiúde todas as evidências e profecias que eles conheciam se realizassem em Cristo. Aliás, negar o Messias apesar de ler a Bíblia com tanta minúcia não poupou algumas vertentes do protestantismo radical, que dizem por aí que Cristo não é Deus, que o Espírito Santo não é uma das Pessoas da Santíssima Trindade, etc etc etc. A questão não é ler a Bíblia inteira, letra por letra, pois está escrito que a letra mata. A questão é aproveitar os ensinamentos bíblicos para aprender tudo o que é necessário para se salvar, dentro de um contexto familiar que é o da Igreja e seus legítimos pastores!

***

Falar em idolatria, na mente de um católico, deve reportar ao problema central; antes de tudo, a palavra latria têm o sentido de adoração. Para nós, adoração é o culto supremo reservado a Deus, o Criador, o Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis, Deus Infinito, eterno, Princípio e Fim, Alfa e Ômega, a quem todo joelho se dobra no Céu, na Terra e nos infernos.

Nada nem ninguém pode sequer ser comparado a Deus, tudo o que existe só têm o bem da existência por conta de Deus, jamais existiria sem que Deus tivesse feito, e em nada por ser comparado a Deus.

Portanto, a idolatria têm um sentido mais amplo para nós, católicos. Idolatrar é colocar qualquer criatura como a medida de todas as coisas, como a fonte de todo bem, como o objeto de dedicação exclusivo e entronizado na vida, de forma a ignorar, desprezar ou negar a Deus o lugar devido.

Nesse sentido, o mundo atualmente é idólatra. Não pelo culto ao boi Ápis, ou à vaca Hátor, ou a Baal, ou a Ganesha. O mundo é idólatra, por exemplo, quando os homens cultuam o próprio corpo de forma hedonista, com a vaidade excessiva que promove sacrifícios em nome da perfeição nas medidas e nas formas. O mundo é idólatra quando os homens vivem para o dinheiro, é idólatra quando o ídolo é o prazer a todo custo, etc.

Fiel alimentando com leite um ídolo hindu

Fiel alimentando com leite um ídolo hindu

Toda idolatria consiste em colocar alguma criatura no lugar de Deus, e só viver para satisfazer ou sacrificar o que se tem diante deste ídolo, desprezando ou ignorando que é a Deus que se deve dar a suprema honra e glória.

Existe a idolatria dos povos atrasados que alimentam estátuas com leite, como na Índia, ou se valem de amuletos e deuses falsos. Mas para além dessa idolatria grotesca e absurda, existe uma idolatria refinada chamada antropoteísmo, que consiste na entronização do homem no lugar de Deus. É o culto à personalidade, é o culto ao bel-prazer humano, é o que faz a sociedade atual, que prega a auto-suficiência do homem em viver para si mesmo e usufruir o máximo de prazeres e deleites nesta vida material, pois no entender da sociedade hodierna, não existem realidades sobrenaturais, nem Vida Eterna. E em nome de tudo o que possa ser empecilho para que se obtenha o prazer total, aprovam vários sacrifícios diabólicos como o aborto (para que os bebês não sejam empecilhos na vida dos pais), o divórcio (para que os cônjuges se desobriguem de si e de suas famílias), encorajam a eutanásia por horror ao sofrimento físico, e para que os doentes e velhos não atrapalhem os demais, etc etc etc.

E os santos da Igreja? As estátuas e demais imagens dos santos?

Os santos da Igreja, a começar pela maior criatura feita por Deus, que é Nossa Senhora, Virgem e Mãe, toda Pura, Imaculada e Medianeira de todas as Graças, mesmo Nossa Senhora e todos os santos juntos são menos que pó diante de Deus. Abandonem a competição entre os santos e Deus, tal competição NÃO EXISTE. Exceto na vontade dos protestantes e na ignorância dos católicos protestantizados, que por não procurarem com dedicação as razões da Fé em que foram batizados, persuadem-se de que as injúrias dos hereges são verdadeiras, e acabam tornando-se  na prática como eles.

Não há do que se envergonhar, não há do que se indignar, porque não existe competição entre Deus e os santos. Não existe empecilho entre Deus e os santos. O que existe são mentes humanas que não alcançam a realidade, e se equivocam por conta disso.

Antes de tudo, os santos foram seres humanos como nós, de carne e osso, e continuam sendo seres humanos como nós. Essencialmente, eles e nós somos a mesma coisa. Os santos não mudaram de essência. Depois que morreram, não passaram a ser outra categoria de seres, continuam tão humanos como foram em vida. Logo, não faz sentido que adoremos ou desprezemos a Deus de alguma maneira para colocarmos a nossa razão de ser em criaturas que não passam de homens e mulheres.

Só que há uma diferença entre eles e nós: enquanto nós sabemos a categoria de indivíduos relapsos e infiéis que somos, os santos não foram nada menos do que pessoas que, em vida, despojando-se completamente de tudo, rebaixaram-se na humildade de tal maneira que passaram esta sofrida existência superando a si próprios a cada dia, e empenhando-se cada vez mais em amar a Deus e em seguir seus Mandamentos. Ou seja: passaram a vida correspondendo às Graças de Deus, e como resultado, cresceram espiritualmente, e quanto mais se abandonavam diante de Deus, mais preciosos se tornavam diante dEle. Por amarem mais do que a maioria dos homens que por culpa própria nem sempre corresponderam à altura das Graças que Deus lhes enviou, após morrerem do mesmo jeito em que viveram, foram declarados bem-aventurados e modelos para os cristãos, para servirem de exemplo de que é possível ser humano e vitorioso na luta contra o pecado. Cristo foi o primeiro e o exemplo PERFEITO, mas sua ordem é que todos O imitassem na santidade. Se homens imperfeitos se  tornaram santos, então nós também podemos, desde que peçamos perdão a Deus e imploremos que nos mude o coração e nos torne obedientes e fiéis. As Graças jamais faltam, cabe a nós correspondermos a elas. Os santos pediram socorro a Deus e conseguiram, façamos como eles.

No final das contas, vai pro Inferno quem quer, porque Deus dá graças abundantes a todos, e ninguém no mundo pode protestar ter sido injustiçado por Deus. Só que Deus respeita nosso livre arbítrio. Somos livres para fazermos o que aquelas pessoas bem-aventuradas fizeram. Não fazemos porque não queremos.

Os santos, por serem amigos de Deus em vida, gozam do próprio Deus na Eternidade, no Céu. E como Nosso Deus é Deus de vivos, e não de mortos, é óbvio que eles estão no céu apenas em espírito, portanto de maneira incompleta (visto que a morte física é quando o corpo material se separa da alma, que é espiritual), pois aguardarão a Ressurreição da Carne, junto com os que já morreram. Mas se em vida podiam rogar por nós a Deus, na Vida Eterna fazem isso unidas a Ele! E ao pedirmos a intercessão dos santos, não estamos invocando a presença física deles entre nós, não somos espíritas, ninguém “baixa” em parte alguma! Pedimos a Eles que estão lá no Céu por nós que estamos aqui na Terra! Ninguém tem dificuldade em se recomendar a um irmão para que o mesmo implore a Deus em seu favor. E é bom que seja assim… Mas onde há injustiça em pedir aos que triunfaram e estão diante de Deus no Céu? A maioria dos que estão na terra não é tão virtuosa, mas pedimos que se lembrem de nós em suas orações… É um contracenso declinar de quem têm muito mais méritos diante de Deus, pelo fato de estar morto para o mundo. A parábola do Pobre Lázaro deixou bem claro que depois da morte as almas vão para o destino que traçaram em vida. Se estão no Paraíso, como Deus não permitirá que as mesmas interrompam a caridade para com os homens que ainda não venceram? Deus têm interesse em nossa salvação, ele não negligenciaria nenhum meio que dificultasse nossa conversão a Ele…

A intercessão é algo natural para os homens. É natural que seja assim: se muitas vezes nós precisamos de pessoas próximas para tratar com homens, se precisamos de advogados que nos representem junto a juizes humanos, porque deveríamos de maneira soberba julgar que Deus, que é o Criador e absolutamente perfeito, desaprovaria que nos reportássemos a Ele através da intercessão dos que em vida O agradaram com toda a alegria de seus corações? Passamos o tempo a só desgostar a Deus… Seremos tão orgulhosos a nos dirigirmos diretamente a Ele que é tão Bom, quando podemos humildemente admitir que alguém em melhor situação poderia conseguir junto a Deus favores para nossa causa, que sabemos não merecer?

Deus nos dá tudo o que temos porque Ele é Bom. Porque Ele têm mais interesse em nossa salvação do que nós mesmos! Mas coloquemo-nos em nossos lugares, só estamos aqui por Mercê de Deus, não estamos em posição de negar o auxílio de ninguém, quanto mais a quem foi vitorioso em Cristo!

Há outra coisa além disso: admitamos que estamos numa galeria, e encontramos uma obra de arte fantástica. Diante de tão sublime obra, não deixamos de nos entusiasmar com tamanha beleza, até que um guia nos apresenta ao artista criador da obra. Diante da admiração causada pela obra de arte, o criador ficaria lisonjeado ou enciumado? Pois os santos são santos com “s” minúsculo. Todo o bem que eles conseguiram fazer não nasceu dos esforços deles. Tudo o que eles têm de bom veio de Deus, que é o SANTO, o BEM. É como o Sol e a Lua. A Lua só tem luz porque é um reflexo do Sol, que é a Fonte.

Deus e seus santos.

Deus e seus santos.

Ah, mas as imagens, as relíquias, as velas, as flores!!!

E o que tem? São apenas sinais materiais! Não está demonstrado nas próprias Escrituras que Deus deixou milagres acontecerem através de coisas materiais? Quando a pessoa doente tocou nas vestes de Nosso Senhor, não ficou curada instantaneamente? Isso não quer dizer que as roupas de Nosso Senhor são DEUS, mas a Graça dEle pode ser comunicada da forma como ELE quer, e não exclui nenhum canal, até mesmo material. A própria sombra de São Pedro não era um meio que Deus dispôs para curar enfermos? Está lá nas Escrituras. E Deus permite que seja assim, Deus quer que seja assim, porque somos egoístas e desejamos nos salvar individualmente. Mas Deus quer que os homens se AJUDEM na salvação. Por isso nossa fé não pode admitir que basta ler a Bíblia e o Espírito Santo iluminará, sem nada mais. Por isso nossa fé não admite que a Hierarquia seja abolida e que o contato do cristão seja cara-a-cara com Deus, sem precisar de nada nem ninguém. Cristo tinha muitos discípulos, mas somente doze apóstolos. Ele criou uma hierarquia entre os discípulos e os apóstolos que os governavam. Disse aos Apóstolos que quem os ouvisse, a Ele estaria ouvindo… Se fosse só a Bíblia, para que Apóstolos? Para que Hierarquia? Mas foi exatamente isso o que Lutero e seus descendentes protestantes fizeram: só Deus, sem precisar da Igreja…

Enfim, voltando ao tema!

A injúria ocorrida dentro da igreja não foi um simples gesto de vandalismo. Vandalismo se pode fazer depredando uma praça, um automóvel, um prédio da prefeitura. Antes do crime contra os homens, houve um pecado contra Deus. Ao depredar as imagens dos santos, houve uma intenção de se atingir a pessoa dos mesmos santos, atingir pessoas que em vida cumpriram da melhor forma que puderam os preceitos do Evangelho. Ao fazer isso desejou-se arrancar de nós, católicos, os laços de amizade que temos ou gostaríamos de ter com os que já estão no Céu, gozando de Deus eternamente. O que sucede é que, infelizmente vivemos na crise mais aguda de nossa história, uma crise que não tem nada a ver com o crescimento numérico dos hereges, ou do fanatismo produzido pelo furor dos sectários… É uma crise interior, uma crise de Fé. Estamos naquele momento em que o Apóstolo diz: “não conheço este Homem”. A maioria dos católicos está num estado deplorável, e a perda da Fé fez com que muitos se tornassem cegos.

O bispo não enxergou o estrago sobrenatural. Ele teve olhos para o estrago material, viu ofensa aos homens, quando o grande ofendido foi Deus. Viu vandalismo onde estava a profanação.

O que poderíamos fazer diante de tal atrocidade? Antes de tudo, cairmos de joelhos no chão, e repetirmos a oração que Nosso Senhor ensinou no alto da Cruz: “Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem”… Em seguida, com todo cuidado, que o pároco e o bispo acionassem não somente a polícia, mas todo o clero, todos os religiosos e todo o povo, afim de convocá-los até ali, e diante de todos, confessar a Deus a culpa pela negligência com a segurança devida a um lugar reservado para o Seu Culto. Convidar aos presentes para que fizessem um profundo exame de consciência e vissem o estado de pecado em que se encontram, para somente depois disso fustigarem os culpados, se conseguissem, depois de confrontados com suas próprias almas escurecidas pelo pecado. Vestir o negro, que é a cor do luto, e promover Horas Santas, atos de expiação, penitências, atos de desagravo e outras austeridades, e finalmente exortar todo o povo escandalizado a mudar de vida, e aproveitar aquela cena lamentável como ocasião para voltarem aos Sacramentos e à prática das boas obras.

Porque o maior escândalo não são as atrocidades dos maus, mas o silêncio de quem deve se manifestar. Se ofendem a Deus, deveremos lutar para que os Direitos de Deus sejam respeitados… Ou nos calaremos, cães mudos, e esperaremos as pedras falarem?

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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