Missões na África: Raimundo Lúlio “Doctor Illuminatus”*

(*Foi discípulo do renomado médico, alquimista e astrólogo Arnaldo de Vilanova e ficou conhecido como Doctor Illuminatus, embora não seja um dos 33 Doutores da Igreja).

reconquista

Como aconteceu com a Ásia, os ocidentais voltaram também o olhar para a África do Norte. As lembranças cristãs desse continente ainda estavam vivas nas almas. Não se nutriam estas de Santo Agostinho, o grande africano? Não se evocava com tanta freqüência a memória dos mártires da África, São Cipriano, Santa Perpétua e Santa Felicidade? Iriam os cristãos resignar-se a considerar como algo definitivo que terras outrora batizadas tivessem sido tragadas pela maré islâmica? Sabia-se que subsistiam pequenos núcleos fiéis em Tlemcen, em Ceuta, em Cartago e na Tripolitânia, mas pouca luz se desprendia desses núcleos…
Dois países estavam bem colocados para se interessarem pela África: a Espanha, cuja história estava intimamente ligada à do Islã do Maghreb, e de onde partirá o maior missionário da época, e o reino da Sicília, onde os normandos tinham sucedido aos muçulmanos, e cujas costas davam para a Tunísia. Com efeito, foi da Sicília que se lançaram, desde os começos do século XII, as primeiras expedições de cavaleiros cristãos contra a África. Rogério II organizou uma em 1118-1123, com pouco êxito; sem desanimar, recomeçou em 1135 e conseguiu pôr o pé na Tunísia e na Tripolitânia, onde encontrou alguns núcleos cristãos. No entanto, não pôde resistir ao contra-ataque dos almóadas em 1152, e viu-se obrigado a embarcar de volta. Seu neto, Guilherme II o Bom, retomando a sua política, lançou incursões sucessivas contra a Tunísia, e em 1180 chegou a arrancar-lhe o pagamento de um tributo (o direito ao tributo, que passou com a herança normanda para as mãos de Carlos de Anjou, foi a causa imediata da Cruzada de São Luís na Tunísia).
Em todas estas operações, as intenções eram mais políticas e mercantis do que religiosas.

Mas não se pode dizer que, reaparecendo na África, os reis normandos não tivessem a idéia de que estavam trabalhando para a Cristandade, ao mesmo tempo que para si próprios. Eugênio III estimulou Rogério II nesse sentido. Estes contatos com o Islã africano contribuíram para manter a atenção dos cristãos voltada para esse continente. Muitos teólogos, tanto na Itália como na Espanha e em Portugal, consideravam o Islã como uma seita transviada do cristianismo, à semelhança do arianismo (A ideia sobrevivia ainda em 1578, como se nota numa proclamação feita por D. Sebastião, rei de Portugal, aos habitantes de Marrocos.): esta concepção contribuiria para impelir os missionários rumo à África.
No seu zelo de evangelização, São Francisco esteve muito longe de esquecer-se do continente africano. Em 1214, falou em partir pessoalmente para Marrocos e realmente pôs-se a caminho, a pé, mas a doença obrigou-o a regressar. Quando, cinco anos mais tarde, embarcou para a Terra santa, enviou para a Tunísia dois irmãos, Egídio (ou Gil) e Elias, que, aliás, foram muito mal recebidos pelos comerciantes cristãos estabelecidos em Túnis; receosos de que a pregação dos mendicantes desencadeasse um movimento hostil e lhes arruinasse o negócio, obrigaram-nos a reembarcar. E o irmão Egídio regressou muito triste por ver a coroa do martírio fugir-lhe das mãos.
Mas não tardou que a África desse mártires à grande Ordem de São Francisco. Pouco depois de seu Pai ter partido para o Oriente, cinco irmãos deixaram a Porciúncula para irem ao Marrocos realizar o seu outro sonho; chamavam-se Otão, Berardo, Pedro, Acúrsio e Adjuto, e eram todos de uma fé heróica. Pelo que lhes aconteceu quando passavam pela Espanha, viu-se o que valiam esses impávidos candidatos ao martírio.

Os cinco proto-mártires franciscanos

Os cinco proto-mártires franciscanos

Chegando a Sevilha, ainda nas mãos dos muçulmanos, entraram na mesquita e puseram-se a pregar contra o Alcorão, o que lhes valeu serem imediatamente espancados. Dirigindo-se então ao palácio, conseguiram ser recebidos pelo rei, a quem anunciaram com a mesma tranqüilidade que tinham vindo ali ordenar-lhe que “renunciasse a Mohammed, vil escravo do demônio”. Foi por um triz que escaparam de diversos suplícios, da forca, da decapitação ou da defenestração. Na prisão onde foram encerrados, tentaram ainda converter os seus carcereiros. Por fim, o rei mouro declarou que não daria a esses cinco fanáticos a felicidade de morrerem mártires. E expediu-os para Marrocos.
Ali recomeçaram as mesmas heroicas loucuras. O miramolim Abu-Yakub, que representava o sultão almóada, chamou-os à sua presença. Semi-nus e acorrentados, os cinco humildes frades não perderam nada da sua audácia. “Quem sois? – Os discípulos do irmão Francisco. – Por que estais aqui? – Ele nos mandou pelo mundo para ensinar o caminho da verdade. – Qual é então esse caminho?” E o irmão Berardo, que era sacerdote, começou a recitar o Credo, comentando-o ponto por ponto. Mas, quando disse que Jesus era Filho de Deus e se tinha encarnado, o miramolim ficou possuído de grande furor: “Foi o diabo que vos mandou para que ouça tais coisas!”, exclamou, chamando os carrascos. Durante uma noite inteira, os cinco infelizes foram flagelados até estarem cobertos de sangue, arrastados pelo pescoço sobre pedras, regados com azeite fervente e depois com vinagre, enquanto rezavam em voz alta, animando-se uns aos outros. No dia seguinte, 16 de fevereiro de 1220, o muçulmano chamou de novo os pobres farrapos; alguns tinham o ventre aberto e as entranhas à vista. Continuavam a desprezar o Alcorão? Tinham ainda fé no seu Deus? Unânimes, responderam que havia apenas uma verdade, o Evangelho.

vou matar-vos!”, gritou o mouro. “Tu dispões dos nossos corpos, mas as nossas almas estão em poder de Deus”, responderam eles. Foram as últimas palavras que pronunciaram. O muçulmano mandou buscar um sabre e ele mesmo os decapitou. Quando, em Damieta, Francisco soube o que se passara, exclamou: “Louvado seja Deus! Agora sei verdadeiramente que tenho cinco irmãos Menores!”.
Quase na mesma ocasião em que os franciscanos escreviam esta nova página na gesta dos mártires da África, os dominicanos, aqui como em toda a parte seus êmulos no zelo apostólico, chegavam também ao continente. Vemo-los em Tunis antes de 1230, e em Marrocos por volta de 1225, ano em que uma bula de Honório III lhe dava poderes para excomungar e absolver nesse país. Um deles, o irmão Domingos de Fez, designado como bispo dessa cidade, ali morreu mártir em 1232. O sangue destes primeiros pioneiros não foi derramado em vão. Os muçulmanos compreenderam que era impossível eliminar esses homens, pois, se um caía, logo outro o substituía com a mesma coragem. A partir de 1233, passaram a tolerar bispos, e Gregório IX achou a penetração tão bem começada que dirigiu ao sultão de Marrocos uma bula em que lhe propunha que se convertesse. Mas, na realidade, a penetração foi extremamente lenta. Compreender o Islã, responder aos seus argumentos e ganhar a sua confiança eram coisas que demandavam gerações. O heroísmo e a audácia não podiam bastar; era preciso ainda ter muita ciência e muita inteligência (e acrescento: muito abandono diante da Providência, porque nada do que estes missionários e mártires conseguiram aconteceu sem que a Graça os tivesse precedido em tudo).
Um espanhol assim o compreendeu. A Península Ibérica era então o lugar privilegiado para que se difundisse a idéia da conversão por meio da pregação, porque se tratava de uma terra composta por um mosaico de povos e religiões que se viam obrigados a procurar uma plataforma de entendimento.

filhos da Ordem do pai Seráfico

filhos da Ordem do pai Seráfico

Era revelador que, na capela real de Sevilha, se lesse por cima do túmulo do grande rei Fernando uma quádrupla inscrição em latim, árabe, hebreu e espanhol. Dirigir-se aos muçulmanos, mas conhecendo-os bem, amando-os e falando a sua língua, essa foi a idéia de São Raimundo de Peñafort. Eminente jurista, espírito universal, era também uma alma radiante e um coração generoso. Decidiu fundar em Múrcia e em Tunis – onde o bei era mais ou menos controlado pelos cristãos, como se acaba de ver – dois conventos dominicanos onde se formariam missionários que fosse para os países muçulmanos falando o árabe e conhecendo o Alcorão. A sua idéia foi aproveitada e desenvolvida por uma das personalidades mais apaixonantes de toda a história das missões na Idade Média: Raimundo Lúlio (1235-1316).

São Raimundo de Peñaforte

São Raimundo de Peñaforte

A vida de Raimundo Lúlio é uma imensa epopéia em mil atos. Nada lhe falta para torná-la patética: nem a aventura, nem o perigo, nem o amor, tanto à terra como a Deus. O herói: uma inteligência prodigiosa, um espírito enciclopédico, pronto a lançar-se em todas as direções em busca do mistério, um gênio talvez incompleto e mal ordenado, mas, de qualquer modo, um gênio, orientado para a apologética prática e para a expansão do reino de Deus.
Este homem que medita à proa de um navio ancorado em Palma de Maiorca, na vigília da Assunção de 1314, este belo ancião de barba branca, vestido com o burel de terciário franciscano, é olhado pela multidão de curiosos reunida no cais como alguém muito ilustre pela sua ciência e pela sua santidade. Dele se diz corretamente: “o Bem-aventurado Raimundo” ou “o Doutor iluminado”. Envolve-o uma auréola em que a verdade e a lenda se misturam. Que idade tem? Oitenta anos? Cem? Há quem afirme que, com a pedra filosofal, descobriu o segredo de prolongar a vida.

Raimundo Lúlio

Raimundo Lúlio

Sabe-se que, antes da sua conversão, escreveu muitos livros das mais variadas espécies – romances, poesias ligeiras -, e depois hinos piedosos, tratados de teologia, de música, de filosofia. Diz-se que correu o mundo inteiro: foi recebido por reis nos quatro cantos da Europa, incluindo os da brumosa Inglaterra. Avistou-se cinco vezes com o Santo Padre. Fez peregrinações, não só a Compostela e outros lugares da Europa, mas também ao Santo Sepulcro. E eis que volta agora para a sua querida África, onde já sofreu tanto pelo nome de Cristo e onde, sem dúvida, sonha morrer mártir.
Era uma verdadeira natureza de fogo este catalão que, nascido em Palma em 1235, manifestara desde a adolescência os mais brilhantes dotes e uma verdadeira paixão por gozar intensamente a vida. A princípio, não se podia pensar que semelhante febre o levaria aos caminhos de Deus. Trovador, amigo das canções e da galantaria, nem os conselhos dos príncipes nem o amor de sua mulher puderam impedi-lo de comportar-se bastante à margem da moral. No seu romance Blanquerna, conta que, certa noite, a moça que pretendia conquistar se voltou de repente e lhe descobriu um rosto horrível, devorado por um câncer. O incidente é verdadeiro ou apenas imaginário? O certo é que, de um momento para o outro, renunciou às suas aventuras, aos seus versos galantes, à sua conduta frívola. Durante uma noite dolorosa, pascaliana, resolveu mudar de vida e, durante meio século, cumpriria a sua palavra. A sua poesia só lhe servia agora para manifestar o seu arrependimento. “Serei digno de Vos louvar, ó meu Deus, eu que fui tão grande pecador? Não passo de um trovador e, no entanto, eu Vos amo“. Mesmo no meio dos seus extravios, “Raimundo o Louco” amara o Deus do Perdão. Dali por diante, surgiu nele um irresistível impulso sobrenatural que o levava com todas as forças para Aquele que o ferira em cheio no coração, como fizera com Saulo na estrada de Damasco.

Cenas da pregação de Raimundo Lúlio e da hostilidade de seu publico.

Cenas da pregação de Raimundo Lúlio e da hostilidade de seu publico.

Páginas e mais páginas suas descrevem essa atração, num tom em que nos parece reconhecer a grande Santa Teresa: “Diz, louco: se o teu Amado te desamasse, que farias tu? – Continuaria a amá-lo para não morrer, porque o desamor é a morte e o amor é a vida”.
O trovador de Deus entrega-se, portanto, ao serviço do Amor. Ao alcance da sua mão, nessa Espanha há pouco conquistada pelas armas cristãs, bem como nessa África que se ergue à sua frente, há homens que esperam o Evangelho. O desígnio a que vai consagrar a sua vida é claro; aliás, por várias vezes, em êxtases, o próprio Senhor lhe fixara o caminho. Conhece bem os muçulmanos: relacionou-se com muitos e aprendeu tão bem a língua deles que se tornou capaz de escrever livros em árabe. Forja-se nele um plano grandioso: seguindo os passos de São Raimundo de Peñafort, de quem recebeu conselhos, resolve formar missionários em escolas e colégios onde eles aprendem as línguas orientais, redigir resumos da fé cristã nos idiomas dos povos a serem conquistados e, por fim, expor-se pessoalmente ao martírio (porque este intelectual sabe bem que sine sanguine non fit remissio), dando aos fiéis o testemunho da suprema fidelidade a Cristo.
Durante anos, propõe esse plano a reis e pontífices, batendo a todas as portas imagináveis, e ora é bem recebido, ora mal. O rei Jaime II de Aragão cria o Colégio de Miramar, onde 13 irmãos menores se formarão segundo a orientação de Raimundo Lúlio. Em Roma, o iluminado submete à apreciação de Nicolau IV um ousado questionário do qual conclui que “os cristãos são responsáveis pela ignorância dos fiéis em relação à sã fé católica“. Da mesma maneira, expõe a Celestino V(São Pedro Celestino) todo o interesse que haveria em converter os tártaros, porque este homem universal está informado das relações esboçadas entre os mongóis e o Ocidente, e o plano que apresenta para “recuperar a Terra Santa” tem em conta a aliança mongólica (o que, se acontecesse, teria sido a destruição do Islã, pois os mongóis em sua expansão chegaram a invadir toda a península arábica, assim como fizeram com toda a Ásia, exceto o Japão).

Bonifácio VIII e Filipe o Belo, precisamente no momento em que iam travar o seu duelo de morte, recebem uma espécie de intimação para se unirem e conquistarem para a luz os povos mergulhados na noite. O movimento lançado por este homem extraordinário obtém resultados: Paris, Oxford, Bolonha e Salamanca decidem criar cadeiras de árabe, de grego, de caldeu e de hebraico nas suas respectivas universidades. Raimundo Lúlio pode agora pensar que já realizou, pelo menos em parte, os dois primeiros pontos do seu programa. Resta o terceiro, isto é, o do testemunho. E empenha-se nisso.
Em 1292, embarca para Túnis. Sabe que encontrará lá núcleos cristãos, principalmente de comerciantes. Mas o incidente com os franciscanos provou que esses homens são hostis a uma pregação audaciosa: conservam-se à margem e as relações que mantêm com os mouros são apenas de negócios, sem a menor preocupação de ganhar as suas almas. Raimundo quer fazer o contrário. Vestido como um sábio do Islã, vai misturar-se com as multidões muçulmanas que, nos cantos das ruas ou praças, se reúnem para ouvir um poeta ou um pregador.
Procede assim durante semanas. Aproveita todas as ocasiões para falar. Chega até a travar discussões com sábios muçulmanos nas próprias escolas deles. Mas num dia em que triunfou visivelmente sobre um adversário, este, cheio de rancor, resolveu vingar-se. Correu a denunciá-lo às autoridades como cristão. Raimundo Lúlio é levado perante o tribunal como blasfemo e condenado à morte. Chegaria para o terciário franciscano a hora de dar ao Senhor a prova de sangue da sua fidelidade? Não. Cristo, sem dúvida, ainda tem necessidade dele. Um poderoso personagem de Tunis, que o ouviu, intervém em seu favor, e a vida de Raimundo é salva. No entanto, é submetido a uma terrível flagelação – com a qual se regozija, lembrando-se da de Cristo – e, com a respiração entrecortada, é atirado para dentro de um navio genovês que ia partir. O cristão estava expulso.

Mas não conheciam bem esse homem indomável. Mal a noite chegou, atirou-se à água e nadou até a costa, decidido a recomeçar a sua tarefa de evangelização.
Estava resolvido a reiniciar aquilo que tentara uma primeira vez. E, mesmo que tivesse hesitado por uma questão de prudência humana, Deus não o teria constrangido nesse sentido? Tendo regressado a Maiorca, para descansar e refazer as forças, perguntava-se a si mesmo se não seria preferível escrever livros a viver aventuras na África. Mas um dia em que estava entregue à meditação num pequeno bosque, apareceu-lhe um eremita e os dois conversaram acerca daquilo que o preocupava. Que não se importasse com as dificuldades nem com os aparentes fracassos! Deus queria apenas o seu testemunho; o resto ser-lhe-ia dado por acréscimo.
Voltou, portanto, a partir. Nenhum companheiro quis compartilhar os seus riscos. Jaime, o seu rei, aconselhou-o a ficar nas Baleares ou na Espanha, onde havia bom trabalho para ele. Mas não, não era isso o que Deus lhe ordenara na sua iluminação. Desta vez desembarca na Argélia, em Bugia. Nenhuma prudência! Nenhuma moderação! Dir-se-ia que tem pressa de ser martirizado. Nas praças públicas, ataca a doutrina de Mohammed e acaba por ser preso. Os negociantes genoveses e catalães conseguem que não o tratem muito mal, e aproveita essa oportunidade para escrever um longo tratado, em árabe, contra a religião islâmica. Expulso após seis meses de prisão, o barco naufraga quando vai desembarcar na Itália, e tudo o que tinha se perde, incluído o famoso manuscrito… Dir-se-ia que a Providência se encarniça contra ele…

Volta a partir ainda mais duas vezes. Agora é aquele homem muito velho que vimos na proa de um barco ancorado em Palma, pronto para seguir viagem pela última vez. O aspecto é ainda nobre e belo, mas ele sabe que as suas energias estão esgotadas. Fez o seu testamento e deu instruções para que os seus livros fossem traduzidos para as principais línguas do Ocidente. A bordo da nau catalã carregada de mercadorias, vai mais uma vez desembarcar na sua querida África, sempre com a esperança de lhe ensinar a Boa Nova. O rei Jaime compreendeu a importância da sua missão e escreve ao bei de Tunis pedindo-lhe que o acolha bem. Graças a este apoio, Raimundo é constituído “procurador dos infiéis” e pode falar em paz durante um ano. Pouco depois, enviam-lhe um dos seus antigos alunos para o ajudar. Obstinado, heróico, embora não faça ilusões a respeito do seu estado e veja a morte aproximar-se, o velho lutador continua a falar, a escrever, a multiplicar os seus tratados para discutir a doutrina muçulmana e anunciar Cristo. Por fim, num dia de junho de 1316, a populaça, amotinada por qualquer contraditor, precipita-se sobre ele, espanca-o e deixa-o praticamente morto. Se não fosse a intervenção de uns marinheiros genoveses, teria expirado ali mesmo.

A única mágoa que sentiu no navio em que o trouxeram foi não ter morrido mártir nas terras de África. Pouco a pouco, foi-se debilitando e não houve cuidados que lhe restituíssem as forças. Morreu quando Maiorca aparecia no horizonte. E foi na sua ilha natal que repousou, como testemunha heroica da paixão que queimava o coração dos missionários, como precursor daqueles que, muito tempo mais tarde, dariam à África a Cruz de Cristo e o seu amor.
Assim foi Raimundo Lúlio, “Raimundo o Louco, o Doutor iluminado, o louco de Deus. Ele próprio definiu o lugar que ocupou na história da expansão cristã. No momento em que o espírito da Cruzada abdicava, a substituição da força por outro método, pressentido por São Francisco, teve o seu princípio formulado pelo franciscano de Maiorca: “Vejo os cavaleiros mundanos partirem para a Terra Santa com a ideia de poderem retomá-la pela força, para afinal se esgotarem, sem atingirem o seu desígnio. Por isso, pensei que essa conquista não se deve realizar senão como Tu, Senhor, a fizeste com os teus Apóstolos, isto é, pelo amor, pelas orações e pelo derramamento de lágrimas. Portanto, tem que haver santos cavaleiros religiosos que se ponham a caminho e vão pregar aos infiéis a verdade da Paixão, fazendo por amor de Ti o que Tu fizeste por amor deles“.

Bibliografia

ROPS, Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. IN: Da Guerra Santa às Missões.

+  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +  +

 “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor”. Isaías, LV, 8

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres“. Evangelho de São João XXI, 18

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s