Cisma?

Repassando um e-mail recebido do amigo Plínio Coutinho:

Dom Marcel Lefebvre manifesta aos fiéis qual era sua intenção exata na Consagração dos Bispos da FSSPX:

“É necessário que vocês compreendam bem que não queremos por nada nesse mundo que essa cerimônia seja um cisma. Não somos cismáticos. Se a excomunhão foi pronunciada contra os bispos da China que se separaram de Roma e que se submeteram ao governo chinês, entendemos muito bem porque o papa Pio XII os excomungou. Porém, para nós não se trata de nos separarmos de Roma e de nos submetermos a um poder qualquer estranho a Roma, e constituir uma espécie de Igreja paralela como o fizeram, por exemplo, os bispos de Palmar de Troia na Espanha, que nomearam um papa, que criaram um colégio de cardeais. Para nós não se trata de nada disso. Longe de nós esses pensamentos miseráveis de nos distanciar de Roma. Muito ao contrário, é para manifestar nossa adesão à Roma que realizamos essa cerimônia. É para manifestar nossa adesão à Igreja de sempre, ao papa, e a todos aqueles que precederam esses papas que, infelizmente, desde o concílio do Vaticano II acreditaram ter o dever de aderir a erros, erros graves que estão demolindo a Igreja e destruindo todo o sacerdócio católico”.

Àquele que considerasse paradoxal ouvir Dom Lefevbre recusar o termo de cisma, durante até a cerimônia das sagrações episcopais, o aconselharíamos a ler o Rev.Pe. Héribert Jone, O.F.M.Cap. que escreve em seu Précis de théologie morale catholique, nº 432, 1 (Salvator, 1935):

“É cismático aquele que, por princípio, não quer ser submisso ao papa…, porém não é cismático aquele que recusa simplesmente obedecer ao papa, ainda que isso fosse durante muito tempo”.

E sobre esse ponto, leremos com proveito o julgamento de Santo Agostinho:

Frequentemente também a divina Providência permite que, vítimas das agitações sediciosas excitadas pelos homens sensuais, mesmo alguns justos sejam excluídos da assembléia dos cristãos (= excomungados). Se eles suportam pacientemente estes ultrajes e estas injustiças, sem querer perturbar a paz da Igreja pelas novidades do cisma ou da heresia, eles mostram a todos com qual devotamento verdadeiro, qual amor sincero o homem deve servir seu Deus. Esses cristãos dedicados têm o intento de voltar ao porto, quando a calma tiver sucedido à tempestade. Se eles não o podem, seja porque a tempestade continua a crescer, seja porque eles temem que seu retorno a mantenha ou excite uma mais terrível, eles preferem prover a salvação dos agitadores que os expulsaram, e, sem reunir assembleias secretas (ou seja, sendo transparentes em professar a Fé sem compromissos), eles sustentam até a morte e confirmam por seu testemunho a fé que eles sabem que é pregada na Igreja católica. Aquele que vê seus combates secretos sabe coroar em segredo sua vitória. Essa situação parece rara na Igreja, mas ela não é inédita, ela se apresenta até mais frequentemente do que se poderia crer. Assim, todos os homens e todas as suas ações servem ao cumprimento dos desígnios da Providência divina, para a santificação das almas e a edificação do povo de Deus”. (Da verdadeira religião, 6, 11).

E Santo Agostinho é do século V… E já dizia no século V que situações em que justos eram excomungados e esperavam a tempestade passar, ao mesmo tempo em que, do “exílio” permaneciam pregando o catolicismo às claras, aguardando o momento em que pudessem voltar “ao porto”, ou seja, ao convívio com os demais cristãos, a hierarquia, etc, “se apresenta até mais frequentemente do que se poderia crer“… Para ser cismático não basta desobedecer ao papa, mas um desejo manifesto de repudiá-lo pela rebelião pura e simples, negando e combatendo a sua autoridade apostólica dada por Deus…

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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Uma resposta para Cisma?

  1. Pedro Augusto disse:

    “Para ser cismático não basta desobedecer ao papa, mas um desejo manifesto de repudiá-lo pela rebelião pura e simples, negando e combatendo a sua autoridade apostólica dada por Deus…” Isto é o cerne da questão.

    Infelizmente há escassas produções na doutrina canônica e teológica relativas ao tema no Brasil. Transcrevo ao Sr. o que postei no FRATRES IN UNUM sobre a questão: “Quanto ao suposto cisma, numa interpretação teleológica/finalística dos elementos caracterizadores do instituto, há que se considerar que a recusa de sujeição da FSSPX ao Pontífice Romano Francisco não tem fim em si própria, como uma mera insubordinação que pretende subverter o escalonamento hierárquico da Igreja, mas ampara-se no estado de necessidade de fato/putativo de insubordinação que tem o fito de preservar de máculas a doutrina católica, o que descaracteriza definitivamente o elemento subjetivo do instituto, o animus de provocar o cisma por obstinada rejeição da doutrina da jurisdição universal do Romano Pontífice.”

    Indico, por fim, uma matéria publicada no site “Apostolado São Pio V” ao sr, disponibilizada no link a seguir: http://apostoladosaopiov.blogspot.com.br/2014/03/monsenhor-lefebvre-foi-cismatico.html

    “Não basta uma desobediência, por mais obstinada que seja, para constituir um cisma; é necessário, além disso, uma revolta contra a função do Papa e da Igreja” (Cardeal Charles Journet, teólogo suiço, amigo de Paulo VI, L”Eglise du Verbe Incarné)

    Que Deus abençoe o sr e sua família
    Pedro Augusto
    Aracaju-SE

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