A Alemanha diante da apostasia explícita

Segundo li esta manhã no Blogonicvs, o episcopado germânico, não mais podendo disfarçar sua disposição em submeter as coisas de Deus ao bel-prazer do mundo, toma a dianteira em aprovar a comunhão aos divorciados em segunda união, ou seja, ministrar o Corpo de Cristo a quem comete o pecado mortal de adultério.

Interessante que outro alemão, o cardeal Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e também tido como herético por muitos, (quanto à real intenção, não se sabe) surpreendeu a todos, emitindo uma anulação a uma primeira nota que se propunha a regulamentar a comunhão, da parte da Arquidiocese de Friburgo.

Pois agora, noticia-se através do Catholic Herald que os bispos alemães retomarão a nota favorável à comunhão de maneira ainda mais completa, através de um documento pré-aprovado pelos mesmos, e baseado na nota de Friburgo, para com isso aprovar o assunto de maneira independente, à revelia da Santa Sé.

Vale a pena conferir primeiro a notícia, para melhor entender o que quero dizer.

Notícia aqui

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Nos comentários, Danilo Augusto recorda que da Alemanha vieram três grandes flagelos: o protestantismo, o marxismo e o nazismo. Eu acrescento outros mais, pois à luz da história, pode-se afirmar certas coisas, ainda que numa explicação muito resumida.

O sentire cum Ecclesia germânico tem um acento diferenciado ao menos desde o final da Idade Média, com a mística, pois enquanto no restante da Europa Ocidental a ação e a contemplação tendiam a andar de braços dados na vida prática, os germânicos a partir do século XIV tenderam a isolar a Mística. A princípio se produziu muita coisa interessante, como a Imitação de Cristo de Thomas de Kempis (infelizmente mesmo uma obra admirável destas não deixou de ser um marco de abandono do comunitarismo medieval em direção ao individualismo onde Jesus Cristo falaria à alma fiel, em um diálogo demasiado alheio a tudo ao redor, o que é justificável, mas a longo prazo marcaria esta tendência de maneira talvez egoista da alma que faz tudo em separado).
Mas o passar dos séculos mostrou aonde este individualismo conduziria. A tendência individualizante alimentou o protestantismo, que é individualista por natureza (o cristão diante da Bíblia não precisa de nada nem ninguém para iluminá-lo quanto à Verdade), e depois o Pietismo e o Romantismo… Antes fossem somente estes 3 elementos a ferir a Alemanha. Outros contribuiram para abrir o fosso da filosofia, como Kant, Hegel, e muito antes deles o próprio Mestre Eckhart, que estava naqueles dias onde a mística germânica iniciou sua individualização. E outros que agora não recordo de memória…
O catolicismo germânico sempre foi problemático. Mesmo nos áureos tempos de Pio IX, papa cujo pontificado foi o mais longo da história, perdendo apenas para o Apóstolo São Pedro, mesmo naqueles tempos em que o rolo compressor da Santa Sé romanizou e uniformizou o catolicismo romano de maneira praticamente absoluta (sob o pontificado de Pio IX, possivelmente mais de 95% dos bispos de todo o mundo foram sagrados segundo as suas diretrizes, e a devoção ao papado atingiu níveis nunca antes vistos), mesmo ele não conseguiu alterar de maneira absoluta a igreja germânica, que contava com um monsenhor Wilhelm Emmanuel von Ketteler, dos tempos do social-catolicismo…

Agora, estudar a questão caso o Vaticano ceda é um assunto espinhoso, porque a igreja germânica se desvirtuou há muitas décadas, antes mesmo do concílio. Aliás não é até mesmo o título do livro de Ralph Wiltgen “O Reno se lança sobre o Tigre”? Pois é. Fato é que agora – e sou obrigado a dizer isso, e Deus sabe com que desconforto e com quanta estranheza digo – a igreja “oficial” a Sé Apostólica tem em comum com a seita tudesca pseudo-católica os mesmos podres princípios.

Os germânicos, usando destas mesmas conclusões, querem alargar o fosso do divórcio entre o catolicismo liberal conciliar e a Igreja Católica Apostólica Romana. E Roma (que já há décadas deixou de ser romana como nos antigos tempos) quer como sempre compor as coisas.

Mas desgraçadamente ambos têm os mesmos princípios. O que vemos agora é uma falta de consenso nos métodos e na aplicação destes princípios. Por isso recordo: este problema hodierno (que parece chegar ao ápice agora no pontificado de Francisco) não é um problema nascido com o papa atual. Mas corre o risco de chegar a um termo desastroso, pois encontrou neste pontífice a quantidade de liberalismo suficiente para causar não somente uma ruptura, mas uma revolução em toda a igreja oficial e conciliar. É como observou o Danilo (do Blogonicvs): o desfecho pode não se limitar a uma ruptura, mas pode inaugurar um princípio mundial de autocracias episcopais que minarão definitivamente a doutrina católica com a prática da comunhão aos divorciados.

É por temas assim que às vezes nos comentários da blogosfera – como no caso do protesto na catedral de Buenos Aires – me pergunto se a igreja oficial ainda tem algo de católico. Então se percebe que já não ando muito longe do eclesiovacantismo em ambientes conciliares, porque está cada vez mais difícil enxergar ali a Igreja. Onde enxergar a Igreja Católica Apostólica Romana entre o episcopado germânico, por exemplo? Mas enfim, deixemos de lado estas divagações.
Está demonstrado que Bento XVI e sua era de conciliação da Igreja com a revolução sob um prisma de continuidade não careciam de bases sólidas. Estou plenamente convencido que tudo o que a igreja oficial oferecer – por mais ultraconservador que pareça – e que encontre apoio nas doutrinas do Concílio Vaticano II será sempre paliativo.

E mesmo sabendo de tudo isso, mesmo sabendo o tipo de homem que é o atual papa, não deixa de consternar o fato de que os bispos alemães se baseiam exatamente nas palavras de Francisco para fazer o que fazem. E quem vai dizer que o papa foi mal interpretado? Bergoglio, ao menos até pouquissimo tempo, costumava ser tão liberal quanto estes bispos, basta ver seu governo como arcebispo de Buenos Aires. A democratização querida por ele vai de encontro exatamente ao que querem os bispos, não é necessário investigar muito, ele sempre foi muito transparente em seu pensamento.
É realmente um pesadelo assistir o desenrolar dos fatos, porque humanamente falando sabemos onde tudo isso vai dar. A Igreja oficial vai ceder por bem ou por mal, a crise tirará o sono até mesmo dos conciliares conservadores, e se Deus não nos socorrer, muitos perderão a fé.
Quanto a mim, há muito que já não olho torto para os sedevacantistas. Não porque eu concorde ou porque tenha inclinação a me tornar um, mas porque diante das atrocidades que estes papas cometem, aparecer alguém e negar que um Francisco seja papa, já não parece o fim do mundo. Mas não penso que seja tão fácil assim. Seria bom. Seria um alívio, porque subitamente estaríamos diante de um João-Ninguém a quem não precisaríamos nem lembrar da existência. Mas quer a Providência que arrastemos a Cruz de aturar pessoas inamovíveis e acima de qualquer julgamento nesta terra. E se este e os outros se separaram da Igreja, não serei eu quem tomará qualquer iniciativa a respeito disso, que Deus mesmo os julgue. Mas se não ensino, nem declaro, nem nego que eles não sejam papas legítimos e detentores de todas as prerrogativas do cargo que exercem, por outro lado prefiro seguir como D. Williamson e seus fiéis, e manter um cordão de isolamento com qualquer coisa que de longe traga consigo o liberalismo, sobretudo o conciliar. Somos chamados a sermos plenamente católicos, com 0% de contato com o liberalismo, ou perder a coerência – e quiçá a alma – tentando qualquer tipo de mistura com a igreja conciliar em todas as suas formas moderadas, progressistas ou conservadoras.

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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