São Domingos, atleta e construtor de Deus

São Domingos, por Fra Angélico

São Domingos, por Fra Angélico

Enquanto São Francisco de Assis, o “Poverello” travava a luta heróica de uma vida orientada contra as obras do dinheiro, outro homem combatia o segundo perigo que ameaçava a Igreja, o perigo da facilidade, da rotina intelectual, da ignorância, que entregava a fé aos desvios doutrinais. A sua obra acabaria por suscitar um clero capaz de lutar com armas iguais contra os adversários da verdade. Mas esta Ordem não devia nascer de um desígnio a priori, de uma idéia abstrata: surgiu, como a maior parte das instituições da Igreja, da providencial necessidade.
Num dia de verão de 1205, apresentou-se diante de Inocêncio III o bispo da modesta diocese espanhola de Osma. D. Diogo ou Didácio de Azevedo. Viajava há dois anos, encarregado por Afonso VIII de Castela de trazer da Dinamarca uma noiva para o Infante herdeiro. Mas como a jovem princesa havia morrido antes da sua chegada, ele não quis regressar à Espanha sem antes rezar junto do túmulo de São Pedro. Era um homem santo, uma alma sacerdotal com ânsias de servir melhor a Deus. A sua pequena diocese já tinha sido “reformada” pelo seu antecessor Martinho de Bazan e o cabido dos cônegos seguia os usos dos premonstratenses. Mas D. Diogo não considerava suficiente desempenhar o melhor possível as suas pacíficas atribuições de bispo. Pensava nos milhões de almas mergulhadas nas trevas, às quais o Senhor queria que fosse levada a luz. Ouvira falar dos cumanos, bárbaros acampados nos confins da Hungria, cujos costumes tinham fama de ser particularmente ferozes, e por isso vinha pedir ao papa autorização para se demitir do seu cargo episcopal e ir batizar os remotos selvagens. Acompanhava-o, como uma espécie de conselheiro de embaixada, o subprior do seu cabido, um jovem que D. Diogo estimava como um filho. Era um padre de feições serenas, testa alta e olhar limpo; emanava dele uma impressão de força calma e de firmeza inquebrantável. Chamava-se Domingos de Calahorra.

Nunca se soube exatamente o que o papa disse aos seus dois visitantes, mas, pelos resultados, pode-se fazer uma idéia. “Para que ir tão longe levar o Evangelho a pagãos, quando, a dois passos de vós, do outro lado dos Pirineus, há tantas almas, igualmente preciosas, que estão perdidas para Cristo? A difícil missão que desejais está ao vosso alcance nesse Languedoc cristão devastado pela heresia“. Era precisamente a altura em que Inocêncio III, angustiado pelo progresso da heresia albigense, pensava em procurar pregadores que fossem combater os cátaros em sua própria casa e, para esse fim, se dirigia a Císter. Diogo rendeu-se às razões do pontífice. Voltou para a Espanha, passando primeiro pela Borgonha, para saudar de passagem a grande abadia e vestir a cogula dos filhos de São Bernardo; pouco depois, juntava-se com o seu discípulo Domingos aos quarenta missionários pontifícios que trabalhavam no Languedoc.
Essa luta, em que o papa o lançava com o seu bispo, foi uma experiência magnífica para um jovem ardente como São Domingos. Era uma prova de grande valor formativo, porque a situação da Igreja, em todo o sul da França, era então terrivelmente difícil. Os chefes cátaros, os “Perfeitos”, provocavam os chefes católicos em discussões públicas de idéias, e estes nem sempre saíam vencedores. A forma simultaneamente coerente e simplista das doutrinas que brandiam conquistava as multidões; ao mesmo tempo, esses homens davam o exemplo de uma austera simplicidade de vida e de uma incontestável caridade. Sucessivamente, Reynier e Guy de CisterPedro de Castelnau, arquidiácono de Maguelona, e o próprio abade de Císter, Arnaldo Amalrico, legados do papa para a luta anticátara, deixaram-se invadir pelo desânimo.
Logo que se juntaram aos missionários, os dois espanhóis avaliaram a dificuldade do combate. Puderam apreciar a habilidade dialética dos hereges e a insuficiência dos argumentos que se lhes opunham.

E, sobretudo, fizeram uma outra constatação. Foi Diogo ou Domingos quem a formulou? Durante o verão de 1206, em Castelnau, às portas de Montpellier, assistindo a uma assembléia de abades e de dignitários cistercienses, ousaram dizer alto e bom som o que tinham visto: todos esses legados, encarregados de transmitir a palavra de Cristo, percorriam as estradas confortavelmente equipados, com cavalos, carros, bagagens e servos, coisas que lhes pareciam necessárias à sua categoria. Os “Perfeitos”, pelo contrário, viviam como pobres, andavam a pé e mostravam-se humildes entre os humildes. Dos dois grupos, qual pareceria mais evangélico ao povo? Não se devia procurar a causa do fracasso em outro lugar. E era essa exatamente a conclusão a que Inocêncio III chegaria, umas semanas mais tarde, na célebre bula de 19 de novembro. Diogo e Domingos não eram “homens experimentados e decididos a imitar a pobreza do Grande Pobre”? Pondo em prática as suas idéias, mandaram o seu séquito de volta para Osma e anunciaram que, dali por diante, percorreriam as estradas sem comitiva, a pé, como os primeiros apóstolos. Assim, do seu primeiro contato com a ação, Domingos tirou a lição de uma dupla experiência: descobriu o fim que devia ter em mira – um pensamento solidamente fundado a serviço da verdade de Cristo – e o modo de o testemunhar pelo exemplo, pela renúncia absoluta, pela santa pobreza. Era então um homem de cerca de trinta e cinco anos, ao mesmo tempo calmo e apaixonado, como são os melhores filhos do seu país. Lei permanente da história espanhola: todas as personalidades que deixaram a sua marca nas páginas dessa história foram moldadas pela velha Castela, essa região áspera e sublime do mais maciço planalto.

Paisagem de Burgos, cidade típica da Velha Castela

Paisagem de Burgos, cidade típica da Velha Castela

É uma província de vida intensa, de violência patética, onde o compacto céu azul cai com todo o seu peso sobre as mesetas desérticas, onde a sombra espessa embate contra as claridades mortíferas, onde a noite cintilante com milhões de estrelas se alterna com o dia ofuscante; uma província que tempera os corpos e forja os caracteres: Cid o Campeador, Gusmão o Bom, os conquistadores da América deveram-lhe a vida, da mesma forma que a grande Santa Teresa e São João da Cruz.
Domingos nascera em 1171, no áspero vale do Douro, como terceiro filho de Félix e de Dona Joana, no seio de uma família que estava ligada à ilustre linhagem dos Gusmões. Como Calahorra, burgo sem importância, não oferecia meios de educação, foi enviado para junto de um tio, arcipreste de Gumiel d’Izan, e depois para a Universidade de Palencia, em Leão, onde ficou perto de dez anos. Os seus pais parecem ter adivinhado nele uma inteligência sólida e dotada para o estudo. Aliás, a sua mãe, como a de São Bernardo, não tivera durante a gravidez um sonho premonitório? Não vira sair das suas entranhas um pequeno cão inflamado, com uma tocha na boca que abrasava toda a terra? A verdade desta profecia parece ter-se verificado em Domingos desde a juventude, pois, feito cônego regrante de Osma, logo passou a ser o verdadeiro chefe do cabido; com menos de trinta anos, era eleito subprior e escolhido como conselheiro de D.Diogo. Todos os seus biógrafos –e a sua filha espiritual, a bem-aventurada Cecília Cesarini, melhor do que ninguém – são unânimes em afirmar que era um homem belo, bem constituído, de estatura média, mas de proporções perfeitas, cujo rosto viril reluzia sob um olhar luminoso, de mãos compridas e finas, e todo o porte cheio de dignidade. Dimanava dele uma espécie de esplendor sereno que inspirava afeição e respeito.

Pronto para a luta, ardoroso em ir ao encontro do adversário, havia nele algo do atleta de Cristo, do cruzado. Mas louvava-se a sua extrema simplicidade, o seu coração compassivo para com todas as misérias, a sua sensibilidade delicada e generosa, a sua caridade sempre alerta. Persuadia tanto com a sua presença como com os seus argumentos.
O seu gênio, inteiramente diferente do de São Francisco de Assis, não era feito de uma intuição fulgurante, consolidada depois por uma suave obstinação. Para Domingos, o estudo lúcido da realidade e a reflexão baseada em conhecimentos sólidos eram os meios de que se servia para determinar os seus objetivos; e, uma vez determinados, aplicava-se a eles com uma energia serena. Era um “construtor”, como se disse, e essas qualidades de organização, de método criador, quando se associam à audácia e ao impulso entusiástico, tornam um homem singularmente eficaz. Tinha o dom de exprimir com eloqüência as suas idéias claras, os seus projetos e raciocínios. Todos os seus biógrafos estão também de acordo neste ponto; quando falava, num tom de voz simultaneamente afetuoso e vibrante, ninguém resistia à sedução da sua linguagem, à força dos seus raciocínios e à emoção que se apoderava dele visivelmente e se tornava comunicativa. Parecia verdadeiramente que Deus se exprimia por seu intermédio.E era verdade, porque este homem de ação, este pensador, este grande construtor, foi ao mesmo tempo, e mais essencialmente, um místico, uma alma totalmente entregue a Cristo e ardentemente desejosa de modelar-se pela sua imagem. O seu pensamento, nutrido pela Sagrada Escritura, cujos livros nunca o deixavam, estava literalmente impregnado do Evangelho. A sua fé era daquelas às quais foi prometido que removeriam montanhas, e não nos admiram os inúmeros milagres que lhe são reconhecidos, porque tamanho poder de convicção era bem capaz de ressuscitar quatro mortos.

Homem da Igreja, sentia-se apaixonadamente filho da Ecclesia Mater, guardiã das tradições e das fidelidades. E há alguma coisa que nos comove quando vemos este homem de ferro, empenhado em lutas tão ásperas, tornar-se uma verdadeira criança aos pés de Nossa Senhora; a Ordem que fundou traria, por sua vontade expressa, o cunho da devoção Mariana. Um místico de ação, conforme o tipo que a Idade Média produziu em muitos casos, de São Bernardo São Luís, e ao mesmo tempo um homem de pensamento, assim era São Domingos: um exemplar completo do que há de melhor na humanidade.
Depois do regresso de D. Diogo a Osma, onde morreria em dezembro de 1207, Domingos assumiu sozinho a responsabilidade do novo apostolado, ajudado, sem dúvida, por alguns companheiros. As cidades e aldeias do Languedoc viram surgir esses missionários de um gênero inusitado, tão abnegados, tão modestos e tão caridosos como os “Perfeitos” cátaros. Encontravam-nos em Caraman, perto de Toulouse, em Carcassone, em Verfeil e em Fanjeaux, não longe de Pamiers. Os confrontos com os hereges multiplicaram-se e começaram a tornar-se mais favoráveis à fé cristã. Não apoiava o Senhor a ação dos seus fiéis? Um dia – numa prova ou ordálio -, um escrito do santo foi lançado ao fogo e repelido indene pelas chamas, enquanto o livro concorrente dos cátaros ardia por inteiro. Desta maneira, as conversões começaram a multiplicar-se.
Foi então que Domingos fez a sua primeira fundação, um pouco antes da partida de Diogo, mas sem dúvida por iniciativa própria. Havia em Prouille, pequeno burgo situado entre Montreal e Fanjeaux, no sopé dos Pirineus, um lugar de peregrinação Mariana.

Domingos rezara muitas vezes a Nossa Senhora de Prouille, e foi dEla que recebeu a inspiração de fundar um convento onde se recebessem as mulheres e moças que abjurassem a heresia, mas desejassem continuar a viver a mesma existência pura e austera que haviam conhecido no ambiente dos “Perfeitos”. Era uma idéia profunda, porque esse centro viria a exercer uma influência exemplar sobre a elite feminina, ao mesmo tempo que lhe seria confiada mais tarde a educação das crianças de uma escola. Ao mesmo tempo, os missionários itinerantes teriam assim um centro do qual poderiam espalhar-se por toda a região herética e comunicar-se facilmente com Toulouse.

Missa solene em rito dominicano

Missa solene em rito dominicano

Acabava de constituir-se esse núcleo ativo do cristianismo quando o assassinato do legado Pedro de Castelnau, em 15 de janeiro de 1208, atraiu sobre o Languedoc a cruzada dos albigenses. Os exércitos nórdicos semearam o terror por toda a parte. Domingos não participou dessa guerra horrível, que, em tese, poderia achar necessária, mas cuja desumana crueldade nunca poderia aceitar. Se, conforme lhe foi pedido, teve de proceder à “convicção” de certos hereges, isto é, à discriminação entre eles e os fiéis, isso estava dentro da sua vocação; nada prova, porém, que o santo tenha alguma vez prestado a sua colaboração a um processo criminal, e é absolutamente certo que, em qualquer caso, nunca participou de atos de guerra; durante a batalha de Muret, em que os cruzados nórdicos neutralizaram a intervenção do rei de Aragão,Domingos permaneceu em oração na igreja.

Deixando Prouille e a função de “prior das monjas”, e quase sozinho, porque a maior parte dos cistercienses tinha desertado, Domingos voltou a pôr-se a caminho e retomou a pregação. Impressiona-nos esta energia, esta obstinação em manter aberta a porta do redil às ovelhas desgarradas. O novo bispo cisterciense de Toulouse, Foulques, um antigo trovador provençal que tinha o sentido das almas, apelou para ele e para os seus companheiros; um burguês da cidade deu-lhes uma casa perto da igreja de Saint-Romain. Assim se transpunha uma segunda etapa: Domingos tornava-se oficialmente chefe de uma comunidade de missionários diocesanos, sob a autoridade do bispo. Semelhante iniciativa estava na linha das instruções pontifícias, mas representava muito mais: era o germe da nova Ordem que o santo começava a conceber. Eram apenas sete os hóspedes do pequeno convento toulousiano, mas sabiam que Deus os chamava para uma tarefa imensa, e o bispo Foulques deu-lhes o nome que a Ordem não tardaria a usar – “Irmãos Pregadores, Ordo Praedicandum” – e que Honório III viria a ratificar. Quando, em 1º de novembro de 1215, se abriu o Concílio ecumênico em Latrão, Foulques e Domingos pensaram que era chegada a hora de alargarem o seu raio de ação. Não tinha Inocêncio III desejado esse mesmo tipo de pregação que eles lhe iam propor? Mas esbarraram com os decretos do Concílio que proibiam a constituição de novas Ordens e exigiam que todo aquele que quisesse servir a Deus adotasse uma das Regras já existentes. Domingos e os seus companheiros receberam muitas palavras de estímulo, mas nada de efetivo. Já que era necessário escolher uma Regra, havia uma que o cônego de Osma conhecia bem e cuja maleabilidade permitiria adaptá-la à ação desejada: a de Santo Agostinho. Foi assim que os Frades Pregadores adotaram costumes muito semelhantes aos dos cônegos regrantes premonstratenses.

Seriam, portanto, cônegos pela Regra, monges pelo espírito e missionários pelo modo de vida. Estavam encontrados os dados fundamentais da futura Ordem.
Esta situação de expectativa não duraria muito. Em 12 de julho de 1216, encontrando-se em Perúgia, Inocêncio III morreu. O conclave, reunido imediatamente na mesma cidade, deu-lhe por sucessor o cardeal Savelli, já muito velho, que tomou o nome de Honório III. Este admirável ancião – que viria a morrer onze anos depois, em 1227, mais do que centenário – era tão lúcido quanto enérgico. Muito bem informado sobre o perigo cátaro, conhecia a ação desenvolvida no Languedoc pelo pequeno grupo de Saint-Romain. Em 22 de dezembro, enviou a Toulouse a sua calorosa aprovação, escrevendo a Domingos que os irmãos da sua Ordem deviam ser “campeões da fé e as verdadeiras luzes do mundo”. O papa confirmava formalmente a Ordem e tomava-a sob a sua proteção. Este ato, repetido em janeiro de 1217, instituía, portanto, os Irmãos Pregadores. Estava vencida a terceira e decisiva etapa.
Quantos eram? Um punhado. Exatamente dezesseis: seis espanhóis, um normando, um inglês, um francês, um provençal, um Navarro e cinco do Languedoc; era flagrante o caráter universal da Ordem desde os seus começos. O hábito que passaram a usar foi-lhes fornecido pelas circunstâncias: a túnica de lã branca dos cônegos regrantes e o grande manto negro dos padres espanhóis em viagem, o que não quer dizer que a própria Virgem não tivesse o cuidado de lhes detalhar os pormenores do vestuário, especialmente o uso do escapulário, como se refere de um êxtase do irmão Reginaldo de Orléans. Estavam determinadas as características da nova Ordem: pregadores e homens de estudo, homens da palavra e da pobreza.

Pregadores, em primeiro lugar: seriam porta-vozes de Cristo, conquistadores do Espírito Santo. Iriam falar nas igrejas, credenciados junto dos párocos pelas autoridades, mas também onde quer que surgisse a menor oportunidade: nas Universidades, nas escolas e até nas praças públicas. A Ordem mal acabava de ser instituída, e já Domingos dispersava os seus irmãos pelos quatro cantos da Cristandade, visando sobretudo os grandes centros intelectuais, onde a luta das idéias podia ser mais áspera, mas também mais frutuosa.
Para triunfar nesses combates, era necessário que os “dominicanos” estivessem devidamente armados. O fundador sabia o que devia aos anos que passara na Universidade de Palencia e aos estudos que fizera das ciências divinas. Seus filhos deveriam aperfeiçoar os conhecimentos, antes de se lançarem ao mundo. Já quando partira para Roma, em setembro de 1216, Domingos confiara o seu pequeno grupo a um mestre de Toulouse. Obtida a aprovação pontifícia, a Ordem voltou-se para as Universidades célebres do tempo, primeiro para formar os seus membros e, pouco depois, para ingressar no corpo docente.
A terceira característica dos Irmãos Pregadores foi-lhes dada pessoalmente por São Domingos: a renúncia, a pobreza. Descobrira a necessidade dessa virtude quando lutava contra os “Perfeitos” cátaros. À medida que a sua Ordem se desenvolvesse, poderia crescer a tentação de enredar-se nos bens que lhe dessem ou em igrejas que lhe pedissem para administrar. O lado “canonical” da sua fundação corria o risco de fazê-la perder a liberdade de movimentos. Já em 1216, em Toulouse, quisera impor o princípio da pobreza absoluta, mas não o pudera fazer porque o bispo Foulques se tinha oposto, com medo de que seus missionários, sem terem nada que os prendesse, se dispersassem para longe da sua diocese. Mas, em Roma, Domingos encontrou São Francisco de Assis, provavelmente na casa do cardeal Hugolino.

Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli

Encontro de São Francisco e São Domingos, Benozzo Gozzoli

Os dois homens de Deus, por mais diferentes que fossem, compreenderam-se profundamente. Diz uma tradição que, no segundo capítulo dos franciscanos, em 1217, sobressaiu uma túnica branca entre as túnicas cor de cinza, e conhece-se a cena, representada por Andréa della Robia na Loggia de São Paulo, em Florença, em que se vê São Domingos pedindo ao “poverello” que lhe ofereça como relíquia a corda de cânhamo que usava à cintura. Confirmado nas suas idéias sobre a pobreza pelo exemplo de São Francisco, Domingos voltou a insistir no assunto e, no Pentecostes de 1220, no capítulo geral de Bolonha, fez os irmãos decidirem que os Pregadores renunciariam à posse de igrejas e conventos, bem como a toda a propriedade de terras, e seriam também Mendicantes, para que pudessem estar totalmente livres para o serviço de Deus.
Tais eram, em 1220, os elementos constitutivos da nova Ordem. A Regra dominicana não estava ainda codificada (só o seria em 1228), mas o fundador tinha visto o essencial daquilo que seria indispensável à pequena semente para se tornar árvore. O que estava feito, só por si, era suficiente para mostrar o gênio deste homem. A organização precedeu a expansão, e os seus sucessores teriam apenas de seguir as suas pegadas, o que, entre outras vantagens, evitaria à Ordem dominicana as crises de autoridade que abalaram a de São Francisco. A sua amplidão de vistas, o sentido da realidade, a compreensão das necessidades da época e a vontade de ir até ao fim fazem de São Domingos um dos mais notáveis fundadores de Ordens que jamais existiram.
Tal como a concebeu, a Ordem, inspirada em Cister, mas levada bem mais longe, realiza uma síntese entre a autoridade dos chefes e a sua dependência em relação aos subordinados. Assemelha-se simultaneamente às duas formas políticas que se desenvolviam nessa ocasião: a monarquia e a comuna.

Em cada casa, a autoridade recai no prior, eleito por todos os religiosos por um período determinado; concluído esse período, regressa à situação anterior. O capítulo conventual constitui um freio aos excessos do poder. No plano superior da Província, o capítulo provincial confirma a eleição dos priores e elege o prior provincial, cuja principal tarefa é visitar todas as casas que dependem dele. Este capítulo provincial é formado pelos priores conventuais, cada um assistido por um “definidor” eleito, e por pregadores gerais, isto é, irmãos que têm o direito de pregar em todas as dioceses. O papel dos “definidores”, homens de confiança escolhidos pelos religiosos, viria a ser muito importante; passaram a ser os conselheiros dos provinciais e seus intermediários junto dos seus irmãos. Por fim, o mestre geral é eleito pelo capítulo geral, composto pelos provinciais e pelos definidores. Por sua vez, o capítulo geral desdobra-se de certo modo, para que esteja assegurada uma vigilância superior e haja uma espécie de válvulas de segurança para possíveis descontentamentos: de três em três anos, reúnem-se todos os provinciais; nos outros dois, reúnem-se os definidores, e estes capítulos anuais tomam conhecimento de todas as queixas que lhes seriam dirigidas. As Constituições dominicanas mostraram-se bastante maleáveis para se adaptarem às novas necessidades, mas tão sólidas que nunca foram reformadas. A melhor prova da genial lucidez do seu fundador é que esta organização permaneceu quase idêntica desde o século XIII até os nossos dias. Foi também a São Domingos que se ficou a dever uma iniciativa original e fecunda: o regime da dispensa individual. Originariamente cônegos regrantes, os dominicanos tinham obrigações tradicionais de ofício coral e de observâncias monásticas. Mas estas obrigações eram dificilmente conciliáveis com as exigências de uma vida ativa.

Como faria um irmão, se, longe do convento, não pudesse cantar as Primas ou as Terças? Tornava-se necessário adaptar as obrigações regulares à vocação, às funções e aos temperamentos. Daí surgiu a dispensa individual: um superior pode, em qualquer circunstância, dispensar um religioso das obrigações da Regra, a fim de que esteja nas melhores condições possíveis para desempenhar a sua verdadeira missão, que é pregar.
Paralelamente à fundação da Ordem masculina, nasceram outras instituições. A Ordem feminina, que havia precedido a dos Pregadores em Nossa Senhora de Prouille, desenvolveu-se numa Ordem Contemplativa e em breve assumiu uma grande importância, quando as religiosas de Santa Maria do Trastevere, em Roma, resolveram colocar-se sob a obediência dominicana. Mais tarde, a Ordem Contemplativa completar-se-á com “Ordens terceiras regrantes”, dedicadas ao ensino e ao cuidado dos doentes.
A penetração da idéia dominicana ver-se-á reforçada pela criação da Ordem Terceira. Bastante diferente da franciscana nas suas intenções, pelo menos quanto à origem, definiu-se a princípio como uma “Milícia de Jesus Cristo.”, encarregada de defender a Igreja e, depois, como uma “Fraternidade da Penitência”; mas o ideal não demorou a ser o mesmo que São Francisco propusera aos seus discípulos leigos: aplicar o melhor possível na vida comum os princípios religiosos da Ordem. Assim se criava uma elite de cristãos capazes de introduzir o fermento na massa; o escapulário dominicano será usado debaixo da couraça dos guerreiros e do manto dos reis.
A aprovação pontifícia foi o sinal para a arrancada decisiva. Surgiram vocações, muitas delas de qualidade eminente, entre estudantes e intelectuais. Passados quatro anos, várias centenas de missionários percorriam as estradas: belo resultado para aquele minúsculo punhado de dezesseis homens que, em 1217, se dispersava para conquistar o mundo!

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Mais ainda do que a importância destas adesões, o que impressiona nos começos da expansão dominicana é a justeza de visão e de intenções, em que é impossível não reconhecer a lucidez genial do fundador. Os lugares em que a nova Ordem se instalou foram exatamente aqueles em que a Cristandade podia preparar o seu futuro: Roma, Paris, Bolonha. Em Roma, bem próximo do Chefe supremo da Igreja, o convento de São Sixto, pouco depois do de Santa Sabina no Aventino, estabeleceu firmemente a presença dominicana. Em Paris, capital da teologia, e em Bolonha, centro eminente do direito, os irmãos de branco e negro começaram por estar entre os alunos dos grandes mestres da época, para depois fazerem parte do corpo docente. Se bem cedo o pensamento foi capaz de integrar no cristianismo aspirações que, de outra maneira, teriam desembocado na rebelião e na heresia, foi porque São Domingos situou os seus irmãos nesses pontos estratégicos. E não nos esqueçamos de que, sem ele, a Igreja não teria tido São Tomás de Aquino.
Mas agora que a sua obra estava consagrada, ele pessoalmente retomou a vida a que a sua vocação o chamava. Voltou a pôr-se a caminho, ensinando e pregando, sempre simples, sempre humilde. Viram-no percorrer as planícies lombardas, o Tirol, os vales da Suíça e as estradas da França. Depois, como que impelido pelo pressentimento do fim, quis rever as paisagens da sua juventude. Regressou à Espanha, essa pátria que deixara há mais de quinze anos. Chegou a Segóvia, a cidade abrupta no sopé da Serra de Guadarrama, e ali se deteve; Osma e o castelo dos Gusmões não ficavam longe. Instalou-se numa gruta e não demorou a ser assediado por todos os cristãos piedosos do país. Foi então que estabeleceu a sua primeira fundação espanhola, o convento de Santa Cruz, que confiou a Corbolan, futuro bem-aventurado. Dirigiu-se depois a Madrid, pregando continuamente e caminhando sem cessar, embora já estivesse doente.

Voltou a Bolonha, exausto. Mas podia contemplar a sua obra com orgulho, se é que este humilde era capaz de se orgulhar a não ser de Cristo. Existiam oito provínicias: a Espanha, a Provença, a França, a Lombardia, Roma, a Alemanha, a Inglaterra que o irmão Gilberto de Fraxineta acabava de ganhar – e onde, das obras dominicanas, nascia Oxford -, e ainda a Hungria, que o irmão Paulo tinha conquistado. O Servo de Deus sabia que ia deixar a terra. Um anjo de maravilhosa beleza revelara-lhe que seria arrebatado antes da festa da Assunção de Nossa Senhora. Pôs-se a caminho pela última vez e foi a Veneza, onde se encontrava o cardeal Hugolino, a fim de confiar à sua benévola autoridade os assuntos da Ordem. No fim de julho de 1221, regressou ao convento de São Nicolau em Bolonha, com uma enxaqueca terrível e uma disenteria que o esgotava.
A sua morte teve a dignidade simples e calma da sua vida. Quis dar aos jovens noviços os seus últimos conselhos, e depois mandou chamar para junto do seu catre doze irmãos dos mais antigos. Fez-lhes as últimas admoestações sobre o desenvolvimento da Ordem, e depois confessou-se publicamente diante deles. Ao narrar essa confissão, o bem-aventurado Jordão da Saxônia, seu biógrafo, refere um pormenor que põe na austera face do santo uma nota singelamente humana: “Embora a bondade divina me tenha preservado até agora de toda a mancha, quero confessar que não escapei à imperfeição de encontrar maior prazer na conversa com mulheres novas do que com mulheres idosas…”. No dia 6 de agosto, antes do meio-dia, pediu que todos os irmãos se juntassem em volta do seu leito, como no coro, para que entoassem no último instante a prece dos agonizantes.

Teve ainda forças para lhes dizer: “Começai!” e, no momento em que retiniam as palavras “Santos de Deus, vinde em seu auxílio; anjos do Senhor, correi ao seu encontro”, entregou a sua alma. Conta-se que, no mesmo instante, no convento de Bréscia, o santo prior Guala teve um êxtase. Como Jacó, viu os céus abertos e, subindo uma escada, os anjos levarem até o trono de Cristo um homem vestido com a túnica dominicana. Mas não pôde reconhecer quem era o eleito, porque tinha o capuz descido sobre o rosto, como se costuma fazer aos mortos.
Efetivamente, a Igreja canonizou São Domingos em 1234.

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ROPS, Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Editora Quadrante.

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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Uma resposta para São Domingos, atleta e construtor de Deus

  1. Darildo de Souza Fernandes disse:

    Maravilhosa a vida de São Domingos, quanto bem faria a Santa Igreja homens como este, o grande problema é que no seu tempo as heresias estavam fora da Igreja e eram combatidas pelos Papas, Bispos e Sacerdotes, mas hoje é ao contrario elas estão dentro e são estes os seus arautos. Que grande castigo de Deus por conta dos nossos pecados caro Bruno.

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