São Francisco: “a imagem mais perfeita de Cristo”

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SÃO FRANCISCO, POR CIMABUE

No decorrer do verão de 1210, Inocêncio III viu apresentar-se numa audiência um rapaz franzino, de olhar ardente, vestido com a grosseira túnica e capuz dos camponeses da época, a cintura apertada com uma corda e os pés nus dentro de sandálias. Vinha de Assis, um povoado da Úmbria, rodeado de doze companheiros tão indigentes como ele – doze discípulos como os apóstolos -, e, conforme se dizia, desejava expor ao Santo Padre as suas observações sobre a situação da Igreja e as suas idéias sobre o apostolado. “Mais um…”, pensou sem dúvida o papa, que possivelmente não teria recebido esse maltrapilho se homens piedosos e equilibrados, como o bispo Guido de Assis e o cardeal João Colonna, não se tivessem responsabilizado por ele. Não, o pequeno úmbrio nada tinha de comum com todos esses profetas errantes que pululavam na época, que brandiam o Evangelho contra a Santa Igreja e agitavam as dioceses sob o pretexto de viverem um cristianismo integral, sem que se soubesse ao certo se não seriam hereges valdenses ou paterinos.
O homenzinho começou a falar com uma voz veemente e doce, sem nenhum constrangimento, com a serenidade e a força persuasiva daqueles que se entregaram por completo a um alto desígnio. Exprimia-se com uma espécie de eloqüência ingênua, que lhe punha nos lábios comparações poéticas e expressões que atingiam o coração. Era como o eco das parábolas do Mestre. Ao escutá-lo, em silêncio, o pontífice sentiu-se invadido por uma angústia estranha, mas alegre. Não tivera ele, nessa mesma noite, um sonho que correspondia aos seus mais dolorosos pensamentos? A basílica de São João de Latrão, igreja-mãe da Igreja, oscilava, prestes a desmoronar-se, mas surgia um homem enviado por Cristo, que, sozinho, apoiando-se contra as muralhas vacilantes, impedia a catástrofe. Era um homem magro, jovem, rosto de asceta, olhar inflamado, vestido com um humilde burel, o retrato exato daquele que estava ali de pé na sua frente.

Inocêncio III sabia julgar os homens; num instante, esse que tinha diante de si conquistou-lhe a estima. Nenhum orgulho, nenhuma dessas teorias que faziam mais mal do que bem; não pretendia fundar uma nova Ordem nem expor os méritos da Regra que havia elaborado. Quando o interrogavam sobre os seus princípios, citava três frases do Evangelho: aquele em que se diz que, para servir a Cristo, é preciso abandonar todos os bens (Mt XIX, 21); aquela em que se ordena às testemunhas da Palavra divina que partam pelos caminhos sem ouro e sem túnica, sem alforje e sem bordão (Lc IX, 3); e, finalmente, aquela que formula a única lei definitiva: Todo aquele que quiser seguir-me renuncie a si mesmo e tome a sua cruz (Mt XXVI, 24). Comovido com tanta simplicidade e impressionado pelo espírito de submissão que se notava nas menores palavras do seu visitante, Inocêncio III pensou que a Providência acabava de satisfazer a sua expectativa. Tinha diante de si um desses fiéis do Grande Pobre, tal como o havia desejado. Rompendo por fim o seu longo silêncio, exclamou: “Na verdade, é por meio deste homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!”. Depois desceu do seu trono, abraçou aquele pequeno pobre e, dirigindo-se ao reduzido grupo dos discípulos, acrescentou: “Ide com Deus, meus irmãos, e pregai a penitência segundo a inspiração do Senhor. E, quando o Todo-Poderoso vos tiver feito crescer, voltai a procurar-me e eu vos concederei então muito mais do que hoje”.Foi assim que Francisco Bernardone ou São Francisco de Assis, vindo a Roma simplesmente para confiar ao Pai comum as suas esperanças e os seus juramentos, se encontrou, juntamente com os seus irmãos, devidamente autorizado a chamar os batizados a viverem como verdadeiros cristãos. O pequeno grupo dos Penitentes de Assis tornara-se uma Ordem, a Ordem dos Irmãos (Frades) Menores, tal como seis anos mais tarde a deveria denominar o seu fundador.

São Francisco e seus frades diante do papa Inocêncio III e sua corte

São Francisco e seus frades diante do papa Inocêncio III e sua corte

E assim acabava de abrir-se uma admirável página no livro em que a História escreve os grandes acontecimentos da Igreja. Francisco era então um jovem de vinte e oito anos apenas, de estatura que mal chegava à média, magro e dotado de grande distinção. Todos os retratos que se conhecem dele coincidem em mostrá-lo como uma pessoa franzina, de pouca barba, traços regulares e finos, grandes olhos negros e brilhantes, e os lábios entreabertos num sorriso. Mas o mais impressionante de todos esses retratos, o de Cimabue, na igreja de Assis, deixa-nos adivinhar também uma alma meditativa e exigente, um caráter de ferro sob a aparência de doçura.
Os que o conheceram e o descreveram enquanto vivo pintaram um caráter que combina com esses traços. Nobres qualidades e simpáticos defeitos aliavam-se desde a sua juventude para fazerem dele um ser que era um misto de ardor extremo e de requintada doçura. Era generoso, quase até ao excesso, serviçal – com uma simplicidade que vinha do coração -, um desses homens, enfim, tão visivelmente comunicativos que a pessoa mais grosseira não lhes pode resistir. Mas tanta graça ocultava a mais enérgica virtude, uma vontade sem brechas e um temperamento que o poderia ter levado a extremos, se ele não o tivesse dominado, como afirmam os seus biógrafos. Esta mistura de moderação e de audácia era a chave do seu encanto. Nunca se servia de termos grosseiros, mas também não hesitava em dizer aquilo que entendia ser verdadeiro e justo (recorde-se sua profissão de fé diante dos infiéis, no Egito.). Nunca o viram cometer a menor vilania nem infringir o código de exigências interiores e de fina delicadeza que regia os seus atos de cavaleiro de Cristo.
Depois, este homem maravilhoso era poeta. Irmão dos trovadores que, vindos dessa Provença cuja língua tanto gostava de falar, cantavam a alegria do amor e a beleza do mundo, sabia escutar em si a voz fraternal da Criação.

A sua alma abria-se de todo às forças da natureza, puras e intactas, como aconteceu ao primeiro homem na primeira primavera (não, ele jamais foi esotérico, nem é membro do Greenpace, assim como não é pacifista…). A fé, que outros teriam reduzido a umas fórmulas ásperas, não era para ele a “secura” dos dogmas e a “dureza” dos mandamentos, mas como um santo que se preze, compreendia-os e por isso a eles se submetia com um fervor alegre e uma gratidão mística. O plano do mundo criado desdobrava-se diante dos seus olhos numa espécie de inocência paradisíaca; e é por isso que o vento, o fogo, a água e a própria morte lhe eram fraternais, as cotovias obedeciam às suas ordens e os lobos ferozes lhe estendiam gentilmente a pata. Por meio dele, introduzia-se um novo som na sinfonia cristã, um som de uma pureza e de uma profundidade inefáveis, porque ele era o próprio modelo daqueles que Jesus amou.
Quando, em 1210, se apresentou perante o Soberano Pontífice, havia já anos que Francisco se lançara ao Seu caminho e corria a aventura de Deus. No entanto, o Senhor tivera de golpear com força e advertir várias vezes o filho do rico comerciante de lanifícios de Bernardone, para que se tornasse o “Poverello”, o Pobrezinho. Vários sonhos inspirados, o milagre de um crucifixo que começara a falar e, mais modestamente, a experiência dolorosa do cativeiro e da doença – tudo isso fora preciso para que o belo rapaz de sangue ardente, que a louca juventude de Assis aclamara como um dos seus líderes, se transformasse nesse humilde penitente, vestido como um rústico, que, ajoelhado diante do papa, recebia a tonsura dos servos de Deus.

Durante uma oração, Deus falou com São Francisco através deste crucifixo, chamado "de São Damião"... E ao contrário do que pensam os protestantes, São Francisco não passou a idolatrar o crucifixo como um deus de madeira e tinta...

Durante uma oração, Deus falou com São Francisco através deste crucifixo, chamado “de São Damião”… E ao contrário do que pensam os protestantes, São Francisco não passou a idolatrar o crucifixo como um deus de madeira e tinta…

Nascido em 1182, nessa terra da Úmbria feita de ocre ruivo e de luz, Galiléia da Itália, onde a nobreza resplandece nos menores horizontes, nessa cidade de Assis que, orgulhosa sobre a sua colina, se agarra aos flancos fulvos do Monte Subásio, tinha levado a existência de um rapaz da sua condição, certamente cristão de batismo e de fé, mas menos preocupado com “oremos” e “padre-nossos” do que com a poesia satírica e as danças, com escudos gloriosamente conquistados e até com belos golpes desferidos nessas pequenas batalhas ferozes em que se envolviam os burgos italianos da época. Foi precisamente um desses conflitos que o levou a fazer o seu primeiro retiro forçado. Prisioneiro em Perúgia, Francisco começou a cair em si. Tendo regressado a casa, depois de um ano de prisão, em tão precário estado de saúde que ficou acamado, dispôs de longas horas de silêncio que, mais do que a dissipação da vida ativa, são propícias à vinda do Senhor. E foi então que se apercebeu da aproximação de Deus. Contava cerca de vinte e um anos.
Dali por diante, estava cativo nas mãos do Mestre. Pensou em alistar-se na Cruzada, esperando ganhar até a armadura de cavalheiro, mas Cristo advertiu-o por duas vezes de que não era esse o caminho.
Dividido durante algum tempo entre os seus gostos passados e a exigente expectativa daquilo que já sabia agora o que era, vagueava um dia na planície úmbria, ao longo de uma colina eriçada de ciprestes, quando, de repente, envolvido por uma estranha perturbação, percebeu que Cristo estava ali, junto dele, dentro dele, humilhado e trágico, trespassado por cinco chagas. A sua sorte estava decidida.
Quando o Senhor fala, quem pensa em afastar-se?, diz o profeta. O Senhor!… Foi Ele que Francisco reconheceu nesse leproso cheio de pústulas que encontrou no caminho e que beijou na boca; Foi ele que Francisco pressentiu – inefável presença – nas horas de oração solitária nas grutas da montanha; foi a Ele também que em Roma, por ocasião de uma peregrinação, Francisco quis servir durante horas, mendigando entre os mendigos, por humilhação; foi a Ele, sobretudo, que, num dia de deslumbramento e mistério, enquanto orava diante do velho crucifixo bizantino da capela arruinada de São Damião, Francisco ouviu ordenar-lhe com uma voz doce, mas irresistível: Francisco, vai e reconstrói a minha casa, porque está a ponto de desabar”.
Modesto, sem imaginar sequer que o Senhor pudesse confiar-lhe a missão de reconstruir, não as igrejas de pedra, mas a Igreja das almas, entregou-se durante algum tempo e com as próprias mãos à tarefa de restaurar algumas capelas, oratórios e outras santas edificações que estavam realmente em mau estado. Mas não era esse o seu verdadeiro destino. E Deus, que se serve de tudo para alcançar os seus fins, usou de outros meios para se fazer compreender. O pai Bernardone, enfurecido ao ver o seu filho, um jovem de vinte e cinco anos, esquivar-se ao dever evidente de vender tecidos e ganhar escudos, resolveu agir. O pároco de São Damião, velho sacerdote amigo que acolhera como filho o jovem louco de Deus, teve de ouvir inúmeros impropérios, num tom áspero, acusado de abusar da credulidade de um semidesequilibrado. Mas, intimado a regressar ao lar paterno, chamado pelo próprio pai à presença dos magistrados, Francisco não cedeu. Sabia agora o que significava ser chamado pelo Senhor a segui-lo, à custa de deixar tudo, mesmo a família; quanto a ele, estava firmemente decidido e para sempre.

Teve lugar então essa cena patética de que Assis foi testemunha: na praça, diante do bispo Guido, chamado para deliberar sobre o seu caso, Francisco, o elegante Francisco de ontem, apareceu quase nu, lançando as suas roupas e o resto do seu dinheiro aos pés do pai, e dizendo que dali por diante não conheceria outro pai senão Aquele que reina nos céus. Entretanto, o bispo, adotando esse filho em nome da Igreja, cobria-o com uma aba do seu manto.
Na vida, certos gestos são definitivamente comprometedores, faça-se depois o que se fizer. Sacrificar tudo, abandonar tudo, obedecer a essa ordem que o jovem rico do Evangelho recebera e não escutara: esse é o único modo de ser discípulo d’Aquele que quis ser na terra o mais despojado dos homens, viajante sem bagagens, sem sequer um lugar para reclinar a cabeça. Aos vinte e cinco anos e para sempre, Francisco compreendeu que a sua missão era ser pobre ao lado do maior dos pobres. A partir desse momento, casava-se com a santa Pobreza.
(N. Cop: no século XX, a Teologia da Libertação declarou guerra a esta mesma pobreza, e casou-se com a revolução).
Pelo resto da sua vida, repetirá e ensinará sempre o mesmo: a pobreza, a recusa absoluta de possuir o menor desses bens do mundo que nos possuem. A uma igreja que o dinheiro ameaçava destruir, trazia como solução essa verdade evangélica que é sem dúvida a mais difícil de todas as verdades. A pobreza não seria para ele, como fora para os grandes monges como São Bernardo, e como iria ser nessa mesma ocasião para o seu êmulo São Domingos, o meio de libertar o cristão de todos os entraves, a fim de torná-lo mais apto para servir a Deus. Não; para ele, a renúncia total e a privação absoluta levariam ao fim supremo, fome do reino de Deus e da sua justiça, à qual foi prometido que tudo seria dado por acréscimo.

Mas seria isso bastante? A vida de solitário contemplativo a que se entregara o filho de Bernardone devia ser, sem dúvida, aos olhos do Senhor, muito rica em méritos infinitos, mas, para se converter em exemplo, faltava-lhe ser irradiante, e não apenas de reclusos e de eremitas que a Igreja precisava naquele momento. Num dia de fevereiro de 1209, quando Francisco assistia à missa sozinho na pequena igreja de São Damião, restaurada por suas mãos, o seu coração foi atingido em cheio por um versículo do Evangelho: “Ide e pregai! Dizei: o reino dos Céus está próximo!…”.
Ir… pregar…, e não apenas permanecer nessa feliz solidão em que o Senhor se deixava encontrar na paz dos campos ou entre o chilrear dos pássaros. Era ao mundo que se impunha ir e gritar a Palavra! Vestindo uma túnica cinzenta de camponês e cingindo os rins com uma corda, Francisco subiu a íngreme encosta que leva a Assis e começou a pregar na praça da sua cidade. À sua vocação de pobre acrescentava-se a de pregador: estavam lançadas as duas bases do que viria a ser a Ordem franciscana.
Este é o mistério e a grandeza desses tempos em que os costumes não eram melhores do que os nossos, mas em que o impulso de uma alma tinha qualquer coisa de espontâneo e instintivo! Quando, depois de ter entoado um doce canto para atrair a multidão, Francisco se punha a falar de Deus e da sua justiça, da necessidade da penitência e da renúncia, encontrava almas que vibravam em uníssono e homens que se dispunham a seguir os seus passos: Bernardo de Quintaval, Pedro de Catânia, Egídio, Silvestre, Morico, Bárbaro, Sabatino, Bernardo de Viridante, João de São Costanzo, Ângelo Tancredo, Filipe o Longo, e mesmo aquele que devia ser o Judas do novo colégio “apostólico”, João do Chapéu.

Havia de tudo entre eles: ricos burgueses, camponeses, um cavaleiro, um artista e dois padres que, aliás, em nada se distinguiam dos demais. Quando atingiu a cifra de doze, Francisco julgou necessário submeter-se ao julgamento daquele que tem as Chaves (São Pedro, ou o papa), para que aprovasse as suas retas intenções.
O encorajamento de Inocêncio III deu à nova Ordem o impulso decisivo. Uma vez que o papa os tinha autorizado a pregar, os pequenos irmãos vestidos de cor cinza podiam dirigir-se aos párocos e obter deles permissão para ensinar as verdades da fé. Do escalavrado convento de Rivo Torto, por baixo da colina de Assis, onde construíram cabanas com as suas mãos, os irmãos partiam de dois em dois para todos os pontos da região: Spoleto, Perugia, Gubbio, Montefalco e, mais longe, Arécio e Sena. Quando apareciam, espalhava-se à volta deles um clima novo, de doçura fraternal. Em Assis, as facções, reconciliadas pela voz do jovem santo, davam tréguas às suas querelas. As vocações afluíam; depois de Rivo Torto, Santa Maria dei Angeli – que devia tornar-se célebre por causa da indulgência da “Porciúncula” – via erguer-se o novo convento dos pobrezinhos. Em pouco tempo, toda a Itália central se habituou a ver nas suas estradas os irmãos cinzentos que mendigavam o pão cotidiano, não tinham morada certa, mas falavam tão bem de Cristo, com cantos e músicas de anjos, numa voz alegre e ardente.
Uma das mais admiráveis adesões ao grupo de Francisco foi a dessa jovem delicada, de traços tão puros, cujo próprio nome parecia projetar luz e cujo retrato, numa das paredes da basílica de Assis, comove ainda hoje o visitante com o seu encanto misterioso e penetrante: Clara.

São Francisco e Santa Clara

São Francisco e Santa Clara

Rica e formosa, filha de nobre linhagem, também ela teria podido aceitar a vida fácil que a esperava, mas quando ouviu Francisco falar de Deus e do único amor, na catedral da Assis, com palavras que não eram da terra, resolveu abandonar tudo para seguir a testemunha de Deus. No domingo de Ramos de 1212, deixou a família, confiou a sua vocação ao bispo Guido, e depois, numa radiosa noite da Úmbria, fugiu como se estivesse sendo raptada, para deixar o seu destino nas mãos do “Poverello“. Nascia nesse momento a Ordem das Damas Pobres – as nossas atuais clarissas -, que dentro em pouco instalaria em São Damião a primeira comunidade das filhas de São Francisco; chamada por ele “a minha plantinha“, não demorou a proliferar em inumeráveis ramos.
Quando, em 1215, Inocêncio III reuniu o Concílio de Latrão, Francisco foi a Roma. Não lhe dissera o papa que voltasse quando a Providência os tivesse multiplicado? As condições pareciam ter-se já cumprido, e certamente o grande pontífice se convenceu disso, porque, quando o Concílio, alarmado com a proliferação anárquica das Ordens, decretou que não seria autorizada nenhuma nova congregação e que quem quisesse fundar uma associação religiosa devia adotar uma Regra já aprovada, o papa declarou à ilustre assembléia que, no que dizia respeito aos Penitentes de Assis, ele já lhes dera a sua permissão.
Este reconhecimento oficial marcou a terceira grande etapa. A idéia muito simples de Francisco correspondia às expectativas da época. A nova Ordem, formada por todos aqueles que quisessem servir a Deus e gritá-lo ao mundo, na qual os leigos ocupavam o mesmo lugar dos clérigos, uma Ordem de monges que não se prendiam a ricas abadias, mas iam através do mundo na maravilhosa liberdade de Cristo, viu afluir cada vez mais almas, entre elas inúmeros intelectuais desejosos de se fazerem humildes entre os humildes, sacrificando o orgulho intelectual, como sacrificaram as fortunas. Em breve os irmãos menores ou minoritas – como passaram a ser designados – tornaram-se tão numerosos que foi possível enviá-los muito mais longe pelos caminhos do mundo. Uma primeira missão enviada à França, Alemanha, Espanha e Oriente não foi muito bem sucedida, mas eles não desanimaram e recomeçaram com tanta obstinação que a semente acabou por germinar. Por volta de 1221, a Ordem errante, a Ordem móvel entre todas, enxameava toda a Cristandade.
Uma outra “planta” feliz vinha brotar sobre a sólida cepa: a Ordem Terceira, que abria às pessoas de ambos os sexos, embora retidas no mundo pelos deveres da vida, a possibilidade de viverem segundo uma regra de comportamento análoga à dos irmãos. Assim, a aspiração a uma vida de renúncia que se manifestava entre tantos leigos, que os valdenses e os cátaros tinham desvirtuado e para a qual os Humilhados lombardos e os Pobres Católicos não ofereciam quadros suficientemente sólidos, encontrava-se realizada por essa Ordem e canalizada por ela. Era uma idéia profunda, que levaria a mensagem franciscana ao seio da massa cristã e multiplicaria de certa forma o efeito do novo fermento. Veremos nessa milícia laica figuras sublimes como, entre outras, Santa Isabel da Turíngia e São Luís, rei de França, ambos membros da Ordem Terceira franciscana.
No entanto, o extraordinário sucesso do “Poverello” tinha a sua contrapartida de dificuldades. O êxito é um grande problema, e não é fácil encontrar-lhe solução. O que convinha à minúscula comunidade dos primeiros irmãos, essa anarquia sublime guiada apenas por Deus, ou mesmo o que pudesse ajustar-se aos agrupamentos conventuais de Rivo Torto e da Porciúncula, era porventura adequado àquela Ordem que se tornara imensa, com ramificações em todos os países, e da qual milhares de almas esperavam orientação espiritual? Era necessário prever uma organização, uma administração, regulamentos.

E era este o drama: como institucionalizar a obra, conservando o seu caráter de liberdade divina?
Se Francisco tivesse de cuidar apenas de si, não teria feito outra coisa senão semear a mãos cheias o bom trigo do Evangelho, sem se preocupar de saber como germinaria. A febre de anunciar a Palavra era nele tão ardente como nos primeiros dias. Pensou em ir ao Marrocos muçulmano converter os infiéis e, não o tendo conseguido, mandou para lá seis irmãos que, mais felizes, chegaram ao país do “Miramolim” e, pouco depois, ali morreram mártires. Ele próprio desembarcou em Damietta e chegou até a conversar com o sultão do Egito; o seu misterioso prestígio revelou-se tão claramente aos olhos desse muçulmano que os dois puderam tratar de assuntos de religião num clima que beirava a amizade (e ao susto, no caso do sultão).
Mas esta pregação livre, eficaz quando é levada a cabo por santos, poderia ser confiada a todos os que eram atraídos pela irradiação da nova Ordem? Já em 1218, compreendendo a necessidade de ter a seu lado um homem mais organizador, Francisco desejara que a sua obra tivesse um “protetor” na pessoa do santo e enérgico Hugolino, o futuro Gregório IX. Depois, em 1220, aceitou que aos que quisessem ser Irmãos menores se impusesse um ano de noviciado. apesar da sua suave teimosia em não permitir transformações, em recusar-se a conceder aos clérigos as funções de superiores na sua Ordem, em declinar toda a oferta de isenção em relação aos bispos e outras autoridades, pouco a pouco foi tolerando uma certa evolução, que se traduziu nas sucessivas redações da Regra, em 1221 e 1223. O último texto insistiu menos no trabalho manual e reforçou o dever da obediência. A fim de evitar o abuso da vagabundagem, os Menores foram obrigados a ter residência – loca ou conventos -, de onde partiriam para as suas missões.

À frente de cada convento, foi colocado um superior chamado “guarda”; numa mesma região, o conjunto dos conventos ficava sob a autoridade de um “custódio”; vários “custódios” constituíam uma “província”, dirigida por um “ministro provincial”, e a totalidade das províncias formava a Ordem dos “Irmãos menores”, dirigida por um “ministro geral”. A esta sistematização, que viria a ser fecunda, acrescentava-se uma “clericalização” por força dos padres que afluíam à Ordem; a partir de 1223, os franciscanos passaram a ter de “celebrar todos os dias o Ofício, conforme o uso da Igreja romana”.
Toda esta evolução não se fazia sem grandes angústias e profundos despedaçamentos na alma do santo Fundador. Ele se perguntava se era isso, na verdade, o que Cristo desejava, se o seu ideal não teria sido traído. “Quem são os que ousaram separar de mim os meus irmãos?“, sussurrava nos dias de maior inquietação. Sentia-se despedaçado entre duas concepções: a da inspiração e a da eficácia. Fatigado, de saúde abalada, abandonou a direção da Ordem e nomeou como ministro geral Pedro de Catânia, substituído logo depois pelo irmão Elias, cujas qualidades de organizador não se harmonizavam talvez com as intenções puras e simples da graça.
Tendo regressado às suas origens, Francisco vivia cada vez mais em Deus, ora numa ilha do lago Trasimeno, ora na gruta de Subíaco, onde São Bento vivera como eremita, ou ainda no cume do austero monte Alverno, num lugar que um amigo lhe havia dado para a sua meditação. Mais do que nunca, tinha apenas um desejo: viver em Cristo, assemelhar-se a Ele. Que importavam, comparados com este propósito, os acontecimentos relativos à vitalidade da Ordem e à sua eficácia?
O Senhor deu-lhe por fim a resposta mística que esperava. No mês de setembro de 1224, subiu ao cume do Alverno, numa bela tarde cheia de cantos de pássaros. Ao longo dos dias, a sua oração foi-se tornando cada vez mais ardente, semelhante a uma agonia de amor.

Subitamente, na manhã do dia 17, num deslumbramento de amor, mostrou-se aos seus olhos extasiados um serafim que batia o ar com as suas seis asas (para horror dos protestantes que se escandalizam até mesmo com as representações angélicas que a arte católica produz, providos de asas…), e que tinha, desenhada sobre o seu ser sobrenatural, a imagem de Cristo crucificado. Quanto tempo durou essa visão? O que foi que Francisco experimentou? Ao sair do êxtase, sentiu-se penetrado por uma dor múltipla, ao mesmo tempo dilacerante e suave. Nas suas mãos, nos seus pés, no seu flanco, eram visíveis e sangravam as chagas da Paixão. A testemunha de Cristo trazia na sua carne os estigmas do seu Deus.

Giotto. São Francisco recebe os estigmas depois da visão do serafim.

Giotto. São Francisco recebe os estigmas depois da visão do serafim.

Esta alegria inefável seria o alimento espiritual dos seus dois últimos anos. Parece que só sobreviveu a esse instante único para cantar as maravilhas de Deus e louvá-lo de mil maneiras. Dos seus lábios inspirados jorravam poemas que exaltavam a glória do Senhor na sua criação – como esse Cântico das Criaturas, um dos mais belos salmos que os homens já proferiram. Doente, esgotado, quase cego, torturado por médicos cruéis que pretendiam tratar as suas oftalmias com ferros em brasa aplicados sobre as fontes, conservava a sua serenidade alegre, a sua paz sublime, e louvava o Senhor pelas suas tribulações. Ditara o seu testamento, no qual lembrava a essência da mensagem que trouxera à Igreja. Mais doce do que nunca, parecia ter-se tornado amor.
Quase agonizante, quis que o levassem para Santa Maria dei Angeli, que lhe lembrava a sua juventude, e, no caminho, mandando parar os que transportavam a padiola, abençoou a sua cidade pela última vez. Ao Cântico do Sol (das Criaturas, acrescentara uma estrofe para louvar “a nossa irmã a morte“), e pediu ao irmão Ângelo e ao irmão Leão que lhe cantassem mais uma vez e integralmente esse seu Cântico.

Giotto: a morte de São  Francisco

Giotto: a morte de São Francisco

No sábado, 3 de outubro de 1226, a sua garganta quase muda proferiu ainda as palavras do Salmista: “Gritei para Deus com toda a força da minha voz“. Depois morreu. E assegurou-se que um grande bando de cotovias voou para o céu, como se acompanhassem a alma do trovador de Deus.
Esta foi a obra prodigiosamente fecunda daquele que Bento XV, papa que reinou de 1914 a 1922, viria a designar como “a imagem mais perfeita que já existiu de Nosso Senhor. Dotou a Igreja de uma nova milícia adaptada às exigências do tempo, que opunha às forças de desagregação o poder irresistível do simples e puro Evangelho. A sua fé tão espontânea e tão terna propôs aos cristãos uma nova forma de piedade, mais humana do que a de São Bernardo, mais ligada às maravilhas do mundo criado por Deus, feita de entusiasmo e gratidão. Dois anos depois da morte deste filho fidelíssimo da Igreja, em 1228, a sua doce e radiante figura era colocada sobre os altares. Serão inúmeros os livros e obras de arte que os cristãos consagrarão à sua memória. Mas talvez seja a um apóstata que devamos pedir o testemunho que resume tudo. De todos os homens, escreveu um dia RenanFrancisco de Assis foi aquele que teve “o sentimento mais vivo da sua relação filial com o Pai“.

Fonte

ROPS, Daniel. A Igreja das Catedrais e das Cruzadas. Ed. quadrante, s.d.

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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