Ensaiando uma crônica: Falando sobre idolatria (1)

Acordei esta manhã com o pensamento de falar sobre idolatria.

Ou melhor, dividir com os leitores algumas reflexões acerca do tema. Sentei-me e iniciei um texto prévio.

O resultado é que o texto prévio terminou por ser a própria crônica. De forma que dividirei o assunto em duas partes. A primeira é a que se segue agora, e a segunda será tema de nova postagem.

Boa semana a todos!

PS: e não estou fugindo do tema… Só que me estendi tanto, que achei por bem dividir os textos, mas voltarei ao tema, de preferência sem maiores circunlóquios.

Em meus anos de adolescente de interior, recordo-me como tudo mudava ao meu redor, e ao redor dos meus amigos e colegas. Mudou a voz, mudava a estrutura corporal, mudavam as conversas, os objetivos, havia uma nova forma de encarar o mundo, tudo isto misturado com as responsabilidades que éramos cobrados: a de ultrapassar o vestibular, a do emprego, a do serviço militar. Fora as obrigações “morais”, segundo o mundo cobra implacavelmente: a de ter contato com o sexo oposto.

Lógico que o mundo não exige isso conforme os preceitos divinos de tornar-se uma só carne, de crescer e multiplicar-se. O mundo nos convida a perder a pureza e a fornicar sem responsabilidade. E foi neste ambiente que respirei, o ar estava carregado neste sentido, os hormônios estavam em alta, o incentivo era muito grande, particularmente vindo da escola, do professor de biologia, dos colegas, enfim… Não sucumbir a um clima desses já é em si obra da Graça!

Em meio a todas estas preocupações e demandas que certamente quase todo adolescente já se deparou, comigo, paralelamente a este vendaval, a preocupação de cunho religioso também cresceu. Era naqueles tempos um católico já praticante, caso isso signifique frequência nas missas dominicais e nas festas da Igreja. Frequente, mas também preocupado com a evasão de fiéis, que migravam para o protestantismo. A princípio, eu mesmo não entendia o fenômeno das seitas. Lembro-me de uma vez que até entrei em uma “igreja” universal do Reino de Deus, numa determinada tarde, quando a mesma se encontrava aberta, mas sem nenhum serviço religioso. Nada que me chamasse a atenção ali dentro. Era para mim curioso ver todas aquelas igrejolas protestantes inteiramente ocas por dentro. Vazias, sem  adornos, sem decoração, tão ao contrário da igreja matriz de minha cidade, construção sólida, monumental, repleta de cores, de imagens, altares, símbolos. Eu não os entendia, mas era estimulado por aquela atmosfera. Na Igreja, e mais ainda em seu interior, não era como o resto do mundo. Lá havia uma atmosfera solene, não pelas cerimônias, não pelo sacerdote, não pelos fiéis, mas havia algo!

Hoje compreendo o que é um altar, e a riqueza dos vários altares que lá haviam. Hoje percebo a marca na parede que denuncia a ausência da mesa de comunhão, que era a “grade” que separava o sacerdote dos fiéis, e que foi arrancada nos tempos iconoclastas do pós Vaticano II; hoje eu entendo os púlpitos, os genuflexórios, os sinos que repercutem por toda a cidade. Hoje entendo o confessionário, as vias sacras, o batistério. Naqueles tempos eu era como um analfabeto que vê iluminuras. Tudo me parecia tão belo quanto incompreensível.

***

Desde a infância minha mãe havia me dado uma publicação das Testemunhas de Jeová, que era nada menos que uma Bíblia em forma de contos. A cada história haviam ilustrações. Em virtude disso, a maneira torta e equivocada de transmitir as histórias bíblicas chegou até mim através desta obra da sociedade Torre da Vigia. Anos depois, muito depois – entendi a verdade católica, e, ao me remeter às histórias biblicas, vi quanta adulteração, quantos detritos ideológicos estavam presentes num livro aparentemente tão inofensivo, e que a mim serviu em um dado momento, porque – distorções à parte – os católicos geralmente não conhecem as histórias bíblicas, e muitos nem fazem questão. Mas também, em anos de crise tão aguda e de ignorância praticamente invencível, poucos são os que poderiam se dispor a levar conhecimento aos que não têm…

Pois, se na infância eu li e reli inúmeras vezes o “Meu livro de Histórias Bíblicas”, livro este que eu não me recordo se queimei ou se passei aos meus primos com a advertência de que tomassem cuidado com as doutrinas jeovistas nele escondidas (hoje eu o queimaria com certeza se o tivesse ao meu alcance), na adolescência, à medida que fui questionando mais a respeito das respostas primordiais que o ser humano se inquire (“Quem sou eu?”,”Para onde vou”?, “Deus existe?”, “Onde está?”, “As religiões são boas?”, “Qual é a religião verdadeira?”, etc etc etc), fui me apegando mais ao que entendia ser o catolicismo. Entretanto, como a religião católica liberal daqueles dias não ensinava coisa alguma (assim como hoje permanece sem ter o que ensinar), e como a internet ainda não era uma realidade, não me restavam muitas alternativas. A apologética católica havia desaparecido, e minha única fonte eram os folhetos do semanário O Domingo.

Estava bem arranjado! Foi realmente um milagre eu não ter sucumbido com o marxismo da Teologia da Libertação, que envenenou tão eficazmente a fé católica da maior parte dos brasileiros…  Geralmente eram seus livros os poucos que eram postos nas prateleiras da matriz, junto com meia dúzia de livrecos totalmente inúteis e desinteressantes, que creio, nem a maior das boas vontades conseguiria sequer iniciar sua leitura e chegar até o final.

Deparei-me então com o apego instintivo à igreja em que fui batizado e a presença cada vez mais constante do protestantismo que cercava a mim e a todo o povo. Sempre ouvia um católico aqui, outro ali, que deixou a antiga fé em direção a estas paragens.

Só que, no meio de tudo isso, eis que outra publicação que minha mãe também havia adquirido junto às Testemunhas de Jeová – só que esta era de conteúdo mais maduro – me caiu nas mãos. Na ocasião eu recordo quando minha mãe o adquiriu. Foi junto com o de histórias bíblicas que ganhei, só que este era voltado para “adultos”. E vindo daquela seita abominável, realmente o indecoro teológico é de certa forma pior que pornografia.

Meu livro tinha cor ocre, e chamava-se “Meu livro de Histórias Bíblicas”. O da minha mãe era vermelho, e tinha por título principal a palavra “Revelação”, com um conteúdo escatologicamente alarmante. Tratava sobre o Apocalipse (que eles chamam Revelação num tom de afirmação de identidade) e condenava especialmente a Igreja Católica, e em segundo lugar, com menos ênfase, os protestantes, e as demais falsas religiões em geral.

Para mim soou como um alarme. O fim estaria muito próximo, os sinais do fim estariam ao alcance de todos os que têm “olhos para ver”, o Armagedom,  a prostituta da Babilônia, a besta de sete cabeças e dez chifres, a besta que veio do mar, o número da besta, o Anticristo, os cavaleiros do Apocalipse, tudo isso escrito de forma apologética. Por um lado me serviu, porque me fez enxergar a falsidade do espiritismo, das práticas pagãs e também a realidade do esfacelamento do protestantismo, já que as Testemunhas de Jeová se proclamam os verdadeiros fiéis, e o que está fora deles é embuste de Satanás. Mas no meio desta “ajuda” estavam também maciças acusações contra a minha Igreja, e negações frontais contra o dogma da Unidade e Trindade de Deus (onde eles desenhavam ídolos de três faces, para induzir os incautos a crer que a Trindade de Deus é um culto pagão), da Divindade do Filho, da natureza do Espírito Santo, e muitos, muitos etc.

Para mim foi uma experiência desesperadora. Não tinha contato direto com nenhum religioso, ninguém parecia saber nada. Já rejeitava o espiritismo, o paganismo em geral e o esoterismo (minha mãe também se envolveu com uma sociedade teosófica em minha juventude… Mas ela fez isso por ignorância, pois como a maioria dos brasileiros que se dizem católicos, foi “programada” a achar que tudo o que fale de Deus é bom).

Neste livro das Testemunhas, estava a fotografia do encontro de Assis de 1986, com aquela fauna escandalosa de líderes religiosos de todo o mundo, e quem estava bem no centro da foto? O “beato” João Paulo II.

Ele não têm noção do mal que fez à minha alma, porque se uma seita perniciosa monta um sistema de explicações com o propósito de induzir o não-crente a deixar a fé e persuadir-se de que a acusação está correta, a presença de um papa misturado aos representantes das falsas religiões já é comprometedora. E eles não se furtaram a levantar a pergunta logo abaixo da fotografia: “Pode a religião de Jeová comprazer-se com as falsas religiões?”… Eu só podia ter uma resposta: NÃO, JAMAIS… A menos que a religião católica também seja falsa! Por gestos assim que me trouxeram escândalo, me pergunto depois se somente eu me depararia com isto e sentiria esta repercussão negativa… Quantas pessoas não podem ter passado semelhante coisa? Será que gestos assim ajudaram a arrancar almas do rebanho de Deus?

Será que alguém teria interesse em meu depoimento? De repente, pela lógica atual, causar escândalo e não conseguir que a vítima abandone a Igreja talvez seja prova de eleição divina ao candidato aos altares… Que ele tenha se salvado, tomara que sim. Mas me desculpem os sensíveis, só que não serei neste caso necessariamente um entusiasta. Muito menos um devoto…

E foi neste pé que me encontrei. Chamado a tomar uma posição definitiva, afinal minha cabeça já dava voltas e mais voltas, os protestantes nos acusavam pelo celibato sacerdotal, pelos votos monásticos, pela veneração à Santa Mãe de Deus, e por idolatria.

Pois, pedi a Deus que me desse luz e conselho, já não sabia o que fazer, já não conseguia mais diferenciar o certo do errado.

E Deus me deu a maior graça. A de enxergar. Ao menos o que eu precisava enxergar.

Não me lembro de ter algum dia entrado em um “salão do reino”. Todo este tormento em minha alma se deu através de sua lamentável publicação. Mas em meio a tudo isso, continuava frequentando a igreja católica – só que altamente protestantizado – cheio de escrúpulos, incomodado com as imagens, com possíveis exageros na veneração dos santos, etc., e  assim fiquei.

Um dia puseram naquela estante empoeirada da sacristia um livreto, ou melhor, dois, visto que os títulos eram diferentes, e – milagre dos milagres – APOLOGÉTICOS! O primeiro chamava-se “Questões que a Bíblia responde – às acusações dos “crentes” contra a igreja católica”. O autor era um prelado gaúcho, e nele eu encontrei respostas emergenciais para o que eu necessitava naquele momento crítico. Respostas BÍBLICAS, pois a esta altura, eu já estava suficientemente protestantizado, de maneira que não seria facilmente convencido com quaisquer respostas onde não houvessem referências a passagens bíblicas.

Pois era um livreto de poucas páginas. Quase um livro de bolso.

Para quem não tinha nada, este livro para mim virou uma relíquia, uma preciosidade incalculável.

O outro não era tão bom, mas tinha algumas coisas interessantes.  

Portanto, me bastaram dois livretos para que eu rejeitasse definitivamente todo o sistema jeovista, com aquela literatura tenebrosa e fantástica. Mas para que eu exorcizasse o protestantismo que adquiri, necessitaria de mais alguns anos, até chegar à Tradição (naturalmente eu não me dava conta da influência protestante que agia sobre meus atos, então mais à frente, houve o tempo em que flertei com o carismatismo…). Mas isso é uma outra história. Hoje acordei disposto a escrever sobre a questão da idolatria. Como sempre, terminei por me distanciar plenamente do meu propósito inicial, mas gosto de detalhar as coisas. Como sempre me alongo demais, mas a reflexão sobre a idolatria há de sair, se Deus quiser. E sair logo, antes que eu me distraia e esqueça o que hoje me veio à mente a respeito do tema…

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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