Visões de Santa Hildegard de Bingen

Santa Hildegarda de Bingen 04

 Conhecida como “A sibila do Reno”, Santa Hildegard foi uma monja, médica informal, mística, teóloga, pregadora, naturalista, poetisa, compositora, dramaturga e escritora alemã.

Santa Hildegard nasceu no Condado de Spanhein, Diocese de Maicus, no ano de 1098, de pais nobres e virtuosos. Com a idade de oito anos, foi levada ao Mosteiro beneditino de Disimberg (Disibondenberg), ou do monte de Santo Disibode, e colocada sob a direção da bem-aventurada Jutta Hurclitt, irmã do conde de Spanhein.
Dos 8 anos aos 15, viu sobrenaturalmente muitas coisas, das quais falava com simplicidade com suas companheiras, que ficavam maravilhadas, assim como todos que disso tiveram conhecimento. Indagavam qual poderia ser a origem das visões.
A própria Hildegard observou surpresa, enquanto via interiormente na sua alma, ao mesmo tempo enxergava as coisas exteriores com os olhos do corpo como de costume, o que jamais ouvira dizer houvesse acontecido a qualquer outra pessoa.
Desde então, presa de temor, não ousou mais entreter-se com pessoa alguma sobre sua luz interior.
Contudo, acontecia nas suas conversas referir-se a coisas ainda por suceder, e que pareciam estranhas aos ouvintes. Esse estado de intuição sobrenatural perdurou durante toda a vida.
Tinha 40 anos quando ouviu uma voz do Céu ordenar-lhe que escrevesse tudo quanto visse. Resistiu durante muito tempo, não por obstinação, mas por humildade e desconfiança.

Visão de Santa Hildegarda
Visão de Santa Hildegard

Aos 42 anos e 7 meses, viu o Céu abrir-se e uma chama muito luminosa penetrou-lhe na cabeça, no coração, em todo seu peito sem queimá-la, mas aquecendo-a suavemente.

Numa de suas notas autobiográficas, disse:

Hildegard escrevendo sob inspiração divina.

“E sucedeu no 1141º ano da encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus, quando eu tinha quarenta e dois anos e sete meses, que os céus se abriram e uma luz ofuscante de excepcional fulgor fluiu para dentro de meu cérebro. E então ela incendiou todo o meu coração e peito como uma chama, não queimando, mas aquecendo… e subitamente entendi o significado das exposições dos livros, ou seja, dos Salmos, dos Evangelhos e dos outros livros católicos do Velho e Novo Testamentos”.

Ao mesmo tempo uma voz lhe ordenou: “Oh mulher frágil, cinza de cinza e corrupção de corrupção, proclama e escreve o que vês e ouves”. Para que não restassem dúvidas, a ordem lhe foi repetida por três vezes. Mas não pôde colocar em prática de imediato o mandado divino. Imaginava-se indigna e isso a atormentava, e temendo o que os outros iriam dizer dela se aparecesse como profetiza, entrou em uma crise interior, e adoeceu. Por incentivo do monge Volmar, que provavelmente deu-lhe uma educação complementar mais sólida e ajudou-a na correção do seu latim ainda precário, transcreveu alguma coisa em segredo, os primeiros esboços de seu Liber scivias Domini, mas somente em 1147, ainda hesitante, procurou São Bernardo de Clairvaux, já famoso, em busca de orientação. Escreveu-lhe uma carta onde expunha suas dúvidas e receios, e pedia uma confirmação para seu dom, mas a resposta do celebrado religioso foi circunspecta e evasiva. Não quis assumir a responsabilidade por seus atos, mas encorajou-a a confiar no seu próprio julgamento e através dele atender ao chamado que recebera. Enfim, confiou sua preocupação ao seu diretor espiritual, e por intermédio dele, enviou-os à Congregação.

Depois de aconselhar-se com os membros mais sábios da comunidade, e de interrogar Hildegard, o Prior ordenou-lhe que escrevesse, o que ela fez pela primeira vez. Imediatamente se viu curada e levantou-se da cama.
Essa cura pareceu tão milagrosa ao prior, que não quis confiar apenas no seu critério. Foi contar o que sabia ao Arcebispo e às mais altas figuras do clero, e mostrou-lhes os escritos de Hildegard. Isso deu motivo a que o Arcebispo consultasse o próprio Papa.
Desejando Eugênio III ficar a par daquele prodígio, enviou ao mosteiro de Hildegard, Alberon, Bispo de Verdum. Hildegard respondeu com muita singeleza às perguntas que lhe foram feitas.
Tendo o Bispo apresentado seu relatório, o papa mandou que lhe trouxesse os escritos de Hildegard, e tomando-os nas mãos, leu-os em voz alta na presença do arcebispo, dos cardeais e de todo o clero.
Também contou tudo quanto fora relatado pelos emissários, por ele enviados, e todos os assistentes renderam graças a Deus. São Bernardo de Clairvaux estava presente e também deu testemunho do que sabia sobre a santa mulher, que ele visitara quando estivera em Granfort, e escreveu que a felicitara pela graça por ela recebida, exortando-a a permanecer fiel à mesma, pediu pois ao papa, no que foi secundado por todos os presentes, que divulgasse tão grande graça concedida por Deus à Igreja no seu pontificado, e a confirmasse com sua autoridade. O papa seguiu o conselho, escreveu a Hildegard recomendando-lhe que conservasse pela humildade, a graça por ela recebida, e relatasse com frequência tudo que lhe fosse revelado por intermédio do Espírito.

A santa relatou ao Papa Eugênio, em carta bastante longa, tudo quanto ouvira da voz celeste relativamente ao pontífice. Anunciava uma época difícil, cujos primeiros sinais já se manifestavam: 
“Os vales queixam-se das montanhas, as montanhas tombam sobre os vales, isto porque os súditos não mais sentem temor de Deus, estão como que impacientes para subir aos cumes das montanhas, para acusarem os prelados, invés de acusarem os próprios pecados. 
Dizem: sou mais adequado do que eles para superior. Denigrem tudo [o que] os superiores fazem, por inveja e por ódio à superioridade. 
Assemelham-se a um insensato que, ao invés de limpar suas roupas sujas, nada mais faz a não ser observar de que cor é a roupa do próximo. As próprias montanhas, que são os Prelados, em lugar de elevarem continuamente a comunicações íntimas com Deus, a fim de cada vez mais se transformarem na luz do mundo, descuidam-se e obscurecem-se. Daí a sombra e a perturbação que reina nas ordens superiores. 

E porque vós, grande Pastor e Vigário de Cristo, deveis buscar luz para as montanhas e conter os vales, dai preceitos aos senhores e disciplinas aos súditos. 
O Soberano Juiz recomenda-vos que condenais e repilais de junto de vós os tiranos importunos e ímpios, no temor de que, para vossa grande confusão, eles se imiscuam na vossa sociedade, mas sede compassivo com as desgraças públicas e particulares, pois Deus não desdenha as chagas e as dores daqueles que O temem”.

A santa abadessa fazia predições e dava conselhos semelhantes aos bispos e aos barões que toda parte lhe escreviam e a consultavam. Entre as mulheres, o mesmo que São Bernardo foi entre os homens, teve inúmeras revelações sobre as obras de Deus, desde a criação do mundo até a derrota do anti-Cristo.

Em 1148, obedecendo uma ordem recebida em uma visão, deixou Disibodenberg junto com outras monjas a fim de revitalizar o antigo Mosteiro de Rupertsberg, então arruinado. Era localizado numa região erma, e lá continuou seu trabalho religioso e assistencial, e seus escritos. A mudança encontrou resistência no clero e nos monges de Disibodenberg, e inclusive em suas monjas, mas finalmente, em torno de 1150, o prédio estava restaurado, e o grupo, instalado. Sua primeira obra, o Liber scivias Domini (Livro do conhecimento dos caminhos do Senhor), foi concluída ali em 1151, contendo uma coleção de relatos sobre suas visões até então.

Anos finais e morte

A partir de 1160, sempre por força de comandos divinos que lhe impunham doenças até que ela anuísse ao chamado, o que fazia nem sempre de boa vontade ou imediatamente, por temor da rejeição das pessoas, empreendeu diversas viagens pela Alemanha e França a fim de pregar, um privilégio nunca outorgado a mulheres, indo primeiro a Mogúncia (Mainz), Würzburg, Ebrach e Banberg. Depois viajou para a Lorena, visitando Trier e Metz. No ano seguinte visitou Colônia (Koln) e outras cidades, indo até o Ruhr. Em 1163 terminou o Liber vitae e imediatamente iniciou sua obra teológica mais notável, o Liber divinorum operum (Livro das obras divinas), um comentário sobre o prólogo do Evangelho de São João e sobre o livro do Gênesis, aprofundando os temas já tratados no Scivias. A escrita dessa obra sofreu várias interrupções, e só foi terminada em 1174, pouco antes de sua morte. Em 1165 suas tarefas duplicaram com a fundação de um novo mosteiro em Eibingen, para acomodar o crescente número de monjas sob seus cuidados. Visitava-o duas vezes por semana, e nesse período seus biógrafos dizem que fez suas primeiras curas milagrosas e exorcismos.

Em torno de 1170, já idosa, uma visão ordenou que ela fizesse uma última viagem, agora para Maulbronn, Hirsau, Zwiefalten e outras cidades. De início relutou, como costumava fazer, mas então foi atacada por uma hoste de espíritos malignos que se compraziam em humilhá-la e infligir-lhe intensas dores físicas. Quando finalmente aceitou a incumbência, foi recompensada com a visão de um homem de aparência extraordinariamente formosa e de bondade amantíssima: “Ao vê-lo senti todo meu ser infuso de um perfume balsâmico. Então exultei com alegria imensa, e desejei permanecer na sua contemplação para sempre. E ele ordenou que os que me afligiam partissem e me deixassem em paz, dizendo: ‘Vão, não quero que a atormentem mais!’, e eles, partindo, gritaram: ‘Ah, sempre que viemos aqui saímos confundidos!’ Imediatamente, às palavras do homem, a doença que me afligia, como água empurrada pelo vento, se foi, e eu recuperei as forças”.

Relicário de Santa Hildegarda na igreja paroquial de Eibingen.

Suas pregações eram audaciosas e veementes, denunciando os vícios do clero e combatendo as heresias, em particular a dos cátaros, que naquela altura estavam penetrando rapidamente na Germânia, fazendo muitos seguidores. Esses périplos exigiam muito de sua saúde, e seus anos finais foram perturbados por uma série de moléstias. Algumas lhe causavam grandes sofrimentos, mas seus dotes intelectuais e espirituais pareciam crescer à medida que o corpo fraquejava. Permaneceu sempre em atividade, escrevendo, debatendo com outros religiosos e atendendo à crescente multidão de pessoas que vinham em busca de seu conselho e dos remédios que preparava.

No último ano de sua vida enfrentou uma outra crise, agora a do interdito que o clero de Mogúncia impôs sobre o seu mosteiro, impedindo a celebração da missa e a prática dos cânticos sacros. O motivo foi o de ela ter permitido o enterro de um nobre alegadamente excomungado no cemitério de seu mosteiro, mas segundo ela este nobre havia sido absolvido in extremis e recebido o santo Viático. A despeito de ter feito apelos às autoridades, explicando o ocorrido, o conflito só piorou e foi necessário o concurso do arcebispo de Mogúncia (Mainz), que decidiu levantar o interdito em 1179. Mas todo o caso a desgastou profundamente, e depois de conseguir uma solução favorável para si, perdeu as forças e desejou ser liberta do corpo para encontrar a Cristo. Previu a iminência de sua morte e faleceu pacificamente em 17 de setembro do mesmo ano. E assim passou desta vida  no dia 17 de setembro de 1199, na noite de domingo para segunda-feira, com a idade de 80 anos. A Igreja festeja a santa no dia de sua morte.

 

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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