Carta de Silvana De Mari ao papa Francisco.

Antes de qualquer coisa, quero dizer que recebi esta carta por e-mail, e achei por bem transmiti-la, para proveito de todos. 

***

Caríssimo Papa Francisco,

         Dirijo-me ao senhor de forma bastante familiar, pois já percebi como o senhor gosta de ser uma pessoa comum, sem ornatos, sem ouro e sem arminho; uma pessoa comum, como tantas outras.

         Uma pessoa comum que gosta como muitas de assistir futebol.

         Uma pessoa comum que – como muitas – conversa amenamente no avião. Uma pessoa comum como muitas outras.

         Precisamos de um Papa.

         Perdoe-me, caro Papa Francisco, não é mesmo para chamá-lo de Santidade, eu acredito que o senhor seja uma pessoa agradável, o vizinho ideal, mas precisamos de um Papa.

         Cristãos são mortos como cães, Santidade. Entre um jogo de futebol e outro, entre um beijo a uma criança deficiente e outra, poderia fazer algo mais que corresponda ao seu papel? Só nos últimos dias, 10 igrejas foram queimadas no Egito. O senhor poderia fazer alguma coisa?

         Poderia se vestir com seus ornamentos, o ouro e o arminho, que não são lixo, Santidade, mas símbolos com dois mil anos de história. E assim revestido, ir ao Egito em vez de assistir futebol? Não é apenas Balotelli que deseja muito falar com o senhor.

         Há também os párocos das igrejas católicas da Nigéria que teriam algo a falar ao senhor; isto é, aqueles que sobreviveram, pois os mortos já não têm o que dizer.

         Numa época em que a cristandade se encontra como nunca sob ataque, Santidade, nós precisamos de um Papa. Precisamos de alguém que tenha como primeira preocupação saber os nomes dos cristãos massacrados na Nigéria, dos cristãos massacrados no Paquistão na homilia de Páscoa, porque aqueles mortos, Santidade, eram homens, e, pelo fato de serem mortos, foi morta a liberdade à dignidade do homem.

         Santidade, eu não gostaria de lhe ensinar o ofício, pois entendo que o senhor é um profissional em matéria de cristianismo, e eu uma amadora inexperiente; mas às vezes acontece de os amadores serem mais lúcidos no julgamento.

         A Arca de Noé, por exemplo, foi construída e conduzida por amadores, e o Titanic construído e guiado por profissionais. Não quero fazer má comparação, mas o cristianismo dá-me a impressão do Titanic. O iceberg é o Islã, o qual o senhor diz que é muito bom e espiritual; isso afirma o senhor, que é um especialista. Será também assim, insisto, pois também o capitão do Titanic era um especialista, e um dos melhores?

         Um amador, no entanto, foi São Pedro, metade de cuja vida tinha sido de pescador, estudos teológicos zero, um patinho se comparado com o senhor.

         São Pedro disse aos romanos que enquanto seres humanos eles eram irmãos, filhos do mesmo Deus, mas que sua religião era falsa. A tarefa dele era converter ou morrer na prova da única fé verdadeira.

         Encontrar mérito numa falsa fé pode conduzir aqueles que nela nasceram a nunca a abandonar. São Pedro morreu na tentativa, mas finalmente os converteu. Não deveria este ser o Seu papel? Converter ao cristianismo ou morrer nessa tentativa?

         Em Lampedusa o senhor deveria pronunciar uma única frase: Trago-vos o amor de Deus.

         Ao longo do Corão, a palavra amor não é mencionada uma só vez. Teria bastado. O senhor em Lampedusa se curvou diante da “espiritualidade” do Ramadã, curvou-se diante do Islã, e o senhor representa Cristo. Quem representa Cristo não se curva diante de ninguém.

         Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.

         Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, mas não importa essa confusão de evangelizar, até mesmo de fazer proselitismo, pois todas as religiões são iguais. Santidade, no meu Evangelho isso não está escrito. Ou o senhor tem um diferente ou existe um excesso de profissionalismo que o esmaga.

         São Pedro disse aos romanos que eles eram irmãos, mas que sua religião era falsa. E fez-se matar pelo fato de ter dito isso.

         Santidade, as pessoas morrem. Pessoas morrem assassinadas de maneira horrível e o senhor vai assistir futebol.

         Precisamos de um Papa. Alguém que seja o herdeiro de Jesus Cristo e de São Pedro, alguém que esteja disposto a ser odiado. Porque está tudo aqui. Jesus Cristo foi morto por pessoas que O odiavam. São Pedro foi morto por pessoas que o odiavam. Quem luta por uma causa será odiado. Odiados foram Martin Luther King e Gandhi, tão odiados que foram mortos. Profetas desarmados, certamente, mas não líderes tolerantes.

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         Quem tolera tudo, o contrário de tudo, com a habitual cara de feliz, é um conivente. Ao lutarmos por algo, não podemos ser amados por todos. Se não me trai a memória, também está escrito nos Evangelhos: Não tenhais medo de ser odiado. O seu predecessor foi muitas vezes odiado. Até mesmo condenado à morte por uma fatua depois do discurso de Regensburg. Osama Bin Laden decretou sua morte.

         Aqui em Turim, Sherif Azer foi espancado pelo fato de ter falado em nome de Cristo. Foi espancado por pessoas gritando Allah Akbar. Nem mesmo um padre católico levou-lhe uma palavra de conforto. O bispo de Turim e o de Milão, bem como o senhor, estavam provavelmente demasiado ocupados em homenagear o Ramadã.

         Tenho a honra de pertencer a uma família que em todas as épocas forneceu alguém para morrer pela liberdade de expressão. Estou disposta a continuar a tradição. Minha igreja não vai ficar comigo?

             O senhor é amado por todos, Santidade. Tem certeza de que isso representa uma vantagem? Creio ter chegado a hora de o senhor se fazer detestar. Revista-se de todos os seus ornamentos – eles não são lixo, mas símbolo de dois mil anos de história a dar o peso desses 2.000 anos – e vá para o Cairo, e no Cairo lute pelos cristãos coptas, e chore sobre as suas igrejas queimadas e, em seguida, vá para a Síria e, depois, para o Paquistão.

         Então, se sobrar tempo, pode ir também assistir a uma partida de futebol, mas não creio que haverá tempo. É o momento mais sombrio do cristianismo desde o início dos tempos. Precisamos de um Papa.

         Silvana De Mari

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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