O mistério judeu

V – O mistério judeu
1. O “povo eleito” e a diáspora. 2. Perseguições em Roma. 2. As cruzadas. 4. “O inferno da Idade Média”. 5. Restrições impostas. 6. Generalizada malquerença popular. 7. Fundamentos religiosos. 8. Fatores sociais. 9. Fatores econômicos. 10. Responsabilidade coletiva. 11. Idade Moderna.
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1. O “povo eleito” e a diáspora.
Fascinante é a história dos judeus, o “povo eleito”.
Certo dia, Javé querendo enviar seu Filho à Terra, para fixar um rumo à humanidade, perscrutou todas as nações e escolheu Salomão, dos profetas, dos salmistas, do Antigo Testamento. Gente de religião pura como a água que jorra de fonte cristalina. Javé decidiu pois, e fez de Jesus Cristo um judeu, nascido de Maria, uma judia.
Cristo ensinou a verdade ao seu povo, e neste escolheu doze apóstolos, a fim de que testemunhassem a sua ressurreição e difundissem o Evangelho pelo inteiro mundo. Os judeus, porém, O rejeitaram.
Segue o curso da História, sobrevém a destruição de Jerusalém. “Com a ruína de Jerusalém, desmembrou-se por completo o Estado minúsculo contra o Império mais poderoso do mundo, absorveu infinidade de vítimas: ao redor de um milhão de judeus pereceram na guerra com os romanos (66-70) e uns cem mil foram feitos prisioneiros. Desses cativos, alguns foram mortos; outros enviados a Ásia e África. Os mais vigorosos e belos permaneceram para lutar com as feras nos circos romanos e para acompanhar Tito em sua solene entrada em Roma” (Simon Dubonow, op. cit., págs. 291-2).
Suprimido o reino, ocorre a diáspora (70 d.C.): a gente de Israel se dispersa e vai buscar refúgio em todos os recantos da Europa, do Oriente, do norte da África. Tem início então um calvário sem fim, cumprindo-se a profecia bíblica: “O Senhor vos destruirá, e vos espalhará por todos os povos, e vós ficareis poucos entre as nações, a que o Senhor vos levará” (Deut, IV, 27).
Foram acossados como nenhuma outra raça. Os hebreus haviam deixado de ter um lar próprio, estavam doravante à mercê de múltiplos hospedeiros. eram pacíficos, sedentários, religiosos, místicos; laboriosos, bons artesãos, inteligentes; quando convocados, excelentes soldados. Sempre sobressaíram, pelos séculos além, nas artes e na cultura; produziram inumeráveis sábios, para ajudar a humanidade. Seus médicos, de grande prestígio, a todos davam auxílio.
Sem embargo, à medida em que se iam fixando em algum lugar, as turbulências começavam. Sempre, sempre, foram objeto de desconfiança, rancor, inveja e desprezo; maltratados, espoliados, ofendidos, massacrados, escravizados, torturados, mortos. Seu culto foi abafado, suas sinagogas, destruídas.
Tanto os oprimiram a Roma pagã como a Roma cristã; a Igreja do Ocidente e a do Oriente; os gregos, os árabes, os egípcios. Mohammed tentou deles aproximar-se, para convencê-los, mas terminou por rechaçá-los, com ódio, transformando o islamismo em seu feroz inimigo. Assim, cria-se logo um abismo entre árabes e judeus. No ano de 626, o “Profeta” vence ante as portas de Meca, e os judeus são os primeiros a sofrer as consequências, acabando afinal expulsos, para sempre, da península arábica, ao menos da Arábia Saudita, pois existem judeus ainda hoje (e cada vez menos) no Iêmen, por exemplo.
Quase mil anos mais tarde, com a Reforma na Alemanha, os judeus renovaram suas esperanças de paz, dado que Martinho Lutero voltava à fonte do Antigo Testamento. Lutero quis então atraí-los, mas, vendo frustrados seus esforços, deles se tornou, tanto como dez séculos antes Mohammed, implacável adversário. Em 1538, firmou sua aversão com uma Carta contra os Hebreus, que chamava “o povo endemoninhado” (naturalmente ele não havia se olhado no espelho, neste dia…). O azedume foi crescendo em seus sermões até que, em 1542, publicou o livro Dos Judeus e suas mentiras, onde repete as tradicionais críticas a eles feitas. Aconselha a sua destruição e, assim, envenena contra esse povo, profundamente e por dilatado tempo, o campo protestante. Tais manifestações, diz W. Durante, “colaboraram para tornar o protestantismo […] mais anti-judaico que o catolicismo oficial” (op. cit., pág 615).
2. Perseguições em Roma
A crônica dos judeus radicados no estrangeiro constitui um rosário de dores e de lamentações.
Na Europa, tudo começou com o Imperador Tibério (14 a 37 d.C.): no Egito, estavam sendo feitas amargas e violentas críticas contra os judeus, dos quais se tornara inimiga sobretudo a numerosa colônia grega lá existente. Libelos escandalosos foram enviados a Roma, contendo gravíssimas acusações, inclusive de assassínio ritual. diante disso, desencadeia-se a primeira perseguição, entre as muitas ocorridas no Ocidente: os judeus foram expulsos de Roma e os que não abandonaram a cidade no prazo fixado, ou não abjuraram a sua fé, foram convertidos em escravos e condenados a trabalhos forçados.
Com Calígula (37-41), novas perseguições ferozes prosseguem, em Roma e no Egito. Bem mais tarde, com Constantino, o Grande (306-337), torna-se livre o cristianismo no Estado romano. No início, houve tolerância para com os israelitas, mas logo se reiniciou um caminho cheio de desgraças, humilhações e opressões. Sua religião foi declarada “culto sacrílego”. Quando Helena, mãe do imperador, fez uma peregrinação à cidade santa de Jerusalém, esta passou a ser considerada cristã, nela ficando proibida a entrada de judeus.
O panorama hostil, com a posição hebraica piorando gradativamente, prossegue com Constâncio, imperador do Oridente (337-361). Quando os judeus se revoltaram, foram massacrados com a maior crueldade. Sob Juliano, o Apóstata, que subiu ao trono em 361, houve algum desafogo; mas, após sua morte, dissipou-se o último raio de esperança para uma vida tranquila e sem lutas. Reacendem-se para adiante, desde a Síria até a África. O mesmo quadro permanece imutável com os imperadores Teodósio I (379-395), Teodósio II, do Oriente (408-425), Honório (379-395), etc., etc.
Chegamos por fim a Justiniano, o notável imperador de Bizâncio (527-565). É por todos louvado; mas, na visão israelita, “com ele sobe ao poder um déspota sob cujo governo a intolerância obterá verdadeiros triunfos. Sob o imperador bizantino a perseguição dos judeus e sua degradação se convertem em lei e em norma e os decretos promulgados por sua ordem agravam ainda a atitude iniciada por seus antecessores, dirigida a desapossar gradualmente os judeus de todos seus direitos. Seus éditos imperiais atacam a fundo sua vida religiosa, coisa a que todavia ninguém se havia atrevido” (Werner Keller, op. cit., pág. 143).
Desaparecidos o império romano do Ocidente e, mais tarde, o do Oriente, as leis sobre o tratamento dos judeus foram preservadas: no Codex theodosianus (439) e no Codex Justinianus (554) se eternizam as restrições a eles impostas, como modelos que se projetam para o futuro, pautando toda a legislação medieval e produzindo frutos ainda através do Direito posterior.
3. As Cruzadas
Nesses maus termos nos aproximamos do que o “povo eleito” chama de “inferno da Idade Média”.
Na medida em que a Igreja avançou e se foi estendendo na Europa, aumentou a pressão sobre os hebreus. A Idade Média foi uma era impregnada de paixão, e nada a marcou mais do que a paixão pela fé. Os povos cristãos acabaram se tornando absolutamente hostis ao judaísmo, com perseguições intermitentes em muitos países, com altos e baixos, em que se entremearam períodos de tolerância e outros de combate aberto.
Na Gália e na Ibéria, os filhos de Israel começaram convivendo pacificamente com as rarefeitas populações primitivas que lá habitavam; mas, com o avanço da Igreja, teve início uma longa e dura política contra os pagãos, os arianos (seguidores da heresia de Ário) e, também, contra os seguidores da religião judáica. Rapidamente cresceram os ataques: restringiu-se o número de profissões que os judeus podiam exercer e lhes impuseram o batismo, sob pena de serem expulsos ou escravizados. Apenas durante o século VI, no reino dos francos, sete concílios regionais se ocuparam do problema.
Mais tarde, com as cruzadas, aumentou a violência. Já na primeira delas se desencadearam “para os judeus da Europa longos anos de terror e perseguições, mais amargos do que nunca. Começou um caminho de dor que conduzia à sua degradação social e à sua humilhação como homens, e que deixou entre seus membros e em seu ambiente marcas tão profundas que influíram mais além da obscura Idade Média, até á época moderna” (Werner Keller, op. cit., pág. 243).
As coisas se passaram assim: em fins do século XI, chegam à Europa notícias de que os muçulmanos haviam profanado lugares santos em Jerusalém. Organiza-se então a primeira cruzada, para a vingança e a libertação daquela cidade. Verdadeiro delírio se apodera de povos inteiros, que se põem a caminho, milhares de soldados com o sinal da cruz estampado em suas vestes e obcecados pelo ideal de combater os infiéis.
À margem desse movimento, ocorre porém a idéia de que, em vez de ir tão longe em busca dos inimigos de Cristo, melhor seria ocupar-se daqueles que na Europa viviam, infiltrados nas suas terras. Em consequência, bandos armados se alastram pelo continente, para saquear e exterminar os judeus. A matança foi tremenda. Começou na França, passou à Alemanha, onde lavrou longa e duramente, chegou até Praga e somente se foi diluir no território húngaro. Durante muito tempo essas hordas de “cruzados” irregulares submeteram as populações judaicas a imenso banho de sangue, com muitos milhares de mortos. Enquanto isso, os verdadeiros cruzados continuaram avançando e chegaram a Jerusalém em 1099, onde massacraram todos os muçulmanos e judeus que lá viviam, assim recuperando a cidade para o cristianismo.
A segunda cruzada principiou em 1146, para atacar os muçulmanos que, da Síria, ameaçavam Jerusalém. De novo, todavia, ecoou o brado de que era preferível apanhar os infiéis “de dentro” do que os “de fora”, e outra vez sucessivos morticínios ocorreram, sobretudo na Alemanha e no norte de França. Por fim, na terceira cruzada (1189-1193), a desgraça se abateu principalmente sobre os judeus residentes na Inglaterra, que também sofreram saques, incêndios, batismos forçados, massacres…
4. “O Inferno da Idade Média”
Não é aqui possível nem preciso descrever, repetitivamente, a infinidade de idênticas agressões, maiores ou menores, que o povo de Israel veio sofrendo, nos vários países, em todo o longo correr da Idade Média. Bastam mais uns poucos elucidativos exemplos.
Na Inglaterra, em 1275, o rei Eduardo I baixou um Estatuto contendo restrições para os judeus, e mais tarde, em 1290, os expulsou. Os que desobedecessem à ordem seriam enforcados. O consequente êxodo foi de vários milhares de pessoas, que tiveram de deixar às pressas o país, perseguidas pela populaça que as maltratava. Assim, permaneceu a Inglaterra por muito tempo sem a presença dos judeus, que lá somente puderam retornar, pelas mãos de Cromwell, a partir de 1657.
Situação equivalente existiu na França: em 1306, Filipe IV determinou que os judeus fossem embora, deixando seus bens para a Coroa. A emigração se fez em massa, restando na França apenas uns poucos que, pelo menos externamente, haviam aderido ao cristianismo. em 1315, o rei Luís X autorizou o regresso dos exilados, cuja felicidade durou todavia pouco: apenas cinco anos após, em 1320, Filipe V prepara nova cruzada à Terra Santa, e tanto bastou para que mais uma vez bandos desenfreados percorressem o território francês em busca dos “infiéis”, que assassinaram aos milhares. Dispersados afinal por ordem do papa João XXII, os perseguidores atravessaram a fronteira da Espanha, onde continuaram suas desordens. Calcula-se que, no ano de 1320, foram destruídas cento e vinte comunidades judias na França e no norte da Espanha. No ano seguinte, correu no sul da França a notícia de que os israelitas haviam envenenado algumas fontes. Põe-se então em marcha nova vingança coletiva, queimando-se mais outros milhares de membros desse povo.
Passando o Reno, igual panorama se apresenta. em 1343, sob Luís IV da Baviera, os judeus são desapossados dos seus haveres; hordas agressivas varrem o país, dizimando suas populações, etc., etc.
Enfim, quase mil e quinhentos anos se escoaram desde que, após a diáspora, teve início o anti-semitismo e o anti-judaismo na Europa, e as mesmíssimas cenas de violência se repetem, incansavelmente, iguais em toda parte, século após século, até chegarmos ao ocaso da Idade Média. Nesta altura, se instala a Inquisição na Espanha, mais adiante em Portugal; e outra vez, tudo recomeça…
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5 – Restrições impostas
As restrições impostas à gente de Israel foram sempre as mesmas, em todo tempo e lugar: confiscação de bens; tributos especiais; proibição de exercer cargos públicos e determinadas profissões; proibição de casar com cristãos, de ter escravos ou empregados cristãos (para que estes não fossem ameaçados em sua fé). A cada passo os judeus se defrontavam com o dilema de escolher entre o batismo ou a morte, a escravidão, o exílio.
A partir do IV concílio de Latrão (1215), se foi alastrando pela Europa a ordem para que os judeus se distinguissem do resto da população mediante o uso de sinais de cores vivas e, muitas vezes, de formas grotescas: ora mero emblema de pano costurado à roupa, ora um modelo especial de vestuário, ora, muito comumente, certo tipo de chapéu. Em Viena, adotou-se o “cornutius pileus“, que era um chapéu alto, em forma de torre e encimado ademais, por dois chifres. desse modo, ponderava-se, seu portador poderia ser identificado bem de longe (Imaginem que chapéu humilhante e ridículo!) O capcioso fundamento para tão aviltantes medidas foi tirado do Antigo testamento: “Disse também o Senhor a Moisés: fala aos filhos de Israel, e lhes dirás que se façam umas guarnições nos remates das suas capas, pondo nelas fitas de cor de jacinto, para que, vendo-as, se recordem de todos os mandamentos do Senhor, e não sigam os seus pensamentos, nem os seus olhos se prostituam a vários objetos; mas antes mais lembrados dos preceitos do Senhor, os cumpram“.Num XV, 37-40).
Generalizou-se também o costume de, nas cidades em que houvesse apreciável número de judeus, confiná-los em ruas ou em bairros próprios, os guetos. Claro é que eles mesmo preferiam estar lá, em ambiente familiar, e longe da hostilidade das populações. Em Portugal, chamavam-se “judiarias“.
6. Generalizada malquerença popular
Estamos falando de tempos em que a vida do povo em geral não era trepidante como a de hoje, mas fluia lentamente e pouco se alterava no curso dos séculos. Quase um milênio e meio transcorreram, pois, sem que a situação dos judeus, na Idade Média, sofresse mudanças importantes.
Perante esse constante e sombrio panorama, ficamos perplexos: quais terão sido os motivos para tão obstinada aversão? A crônica da diáspora revela, desde logo, que a má sorte dos judeus não dependeu unicamente das autoridades, civis e religiosas. Houve mesmo inúmeros casos em que soberanos, papas e bispos deram a mão aos perseguidos, impedindo violências.
É inegável que a Igreja, ao defender a fé na divindade de Cristo, muito pregou contra eles; mas tornava-se visível, também, a espontânea malquerença que lhes devotava o povo. Era o homem da rua, o homem comum, que tinha rancor pelos judeus, que os maltratava, que zombava das suas desditas, que se alegrava ao vê-los morrer na fogueira. Conforme observa L. Poliakov (op. cit., págs 302-3), “a animosidade para com os judeus se nutre nos próprios massacres que ela suscitou: matamo-los primeiro e os detestamos em seguida […] a partir da segunda metade do século XIV, os ódios anti-judeus atingem tal acuidade que podemos ousadamente datar dessa época a cristalização do anti-semitismo em sua forma clássica, aquela que conduziria mais tarde um Erasmo de Roterdã a consignar: “Se é próprio de um bom cristão detestar os judeus, então nós todos somos bons cristãos“.
Quando a “Peste Negra” devastou a Europa (1348-1351), dizimando milhões de pessoas, prontamente surgiu a notícia de que ela fora obra de judeus. dizia-se que estes haviam envenenado as fontes de água, para destruir os cristãos.
Populações inteiras se deixaram arrastar por cego delírio, partiram à caça dos supostos responsáveis pela tragédia e desencandearam em todos os países atingidos, imensa matança dos “culpados”. Na França, Alemanha, Suiça, Espanha, muitas comunidades hebraicas foram exterminadas.
A verdade é que o povo em geral se mostrava contrário aos judeus. As razões disso serão de três ordens: religiosa, social e econômica.
7. Fundamentos religiosos
Na raiz de tudo encontra-se o fator religioso.
Aos olhos dos cristãos, a gente de Israel era deicida, praticara, em circunstâncias torpes, o crime de lesa-majestade divina. Quando Deus se fez homem, preferiu a nacionalidade judaica, mas o povo escolhido fez ouvidos moucos e escarneceu da Mensagem que Deus lhe transmitia, para que dela se tornasse guardião. Tendo de escolher, a Cristo preferiu Barrabás. “E respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sobre nós, e sobre nossos filhos. (Mt XXVII, 25)“. Proferidas, por “todo o povo“, tão terríveis palavras de autocondenação, cuspiram em Cristo, torturaram-nO, renegaram-nO, crucificaram-nO entre dois ladrões. O cristão da Idade Média, por mais inculto que fosse, conservava bem presentes essas imagens.
Depois século após século, os judeus repeliram desdenhosamente toda idéia de arrependimento e de conversão. Saulo, perseguidor de cristãos, ao conhecer a Mensagem, encheu-se de júbilo e se tornou São Paulo. Querendo partilhar tanta felicidade, ele (ou um seu discípulo) escreveu a Epístola aos Hebreus, mas não obteve resposta. Isso tudo, também, os cristãos da Idade Média não podiam compreender nem perdoar.
Não empreguemos, contra esses antigos cristãos, a palavra “intolerância”, atualmente tão encharcada de fel. O sentimento era em sua origem, puro, pleno de perplexidade, angústia, decepção e deve ser por nós apreciado com extrema serenidade. Sobretudo não podemos julgá-lo com os olhos do presente.
A fé religiosa popular era, por múltiplas razões, muito intensa. A paixão política, o interesse pelos assuntos econômicos, que hoje tanto ocupam as massas, eram, então, quase inexistentes; em seu lugar havia absorvente preocupação religiosa. O cristianismo, ademais, se achava imbuído da sua missão apostólica. O cristão estava ansioso por transmitir uma verdade que o encantava.
odos os povos da Terra deviam ser unidos sob o signo do Salvador, porque Este pedira: “Pai Santo, guarda em teu nome aqueles que me deste: Para que eles sejam um, assim como nós somos um” (Jo XVII, 11), e “creia o mundo que Tu me enviaste para a salvação de todos” (Jo XVII, 21).
As portas da Igreja Católica permaneciam alegremente abertas para todos os homens, ao passo que na sinagoga os judeus se fechavam, isolados do mundo. Os cristãos viam a maravilhosa obra que sua Igreja estava realizando, ao construir a civilização ocidental. Nunca houvera coisa equivalente, na inteira História dos povos. O ser humano se libertara: “Tu não mais és escravo, mas te tornaste filho de Deus” – o arrebatador ensinamento é de São Paulo – “E assim já não é servo, mas filho” (Gal IV, 7). Adquirira, afinal, dignidade: o homem, a mulher, o ancião, a criança, o aleijado, o enfermo mental, o miserável, todos, sem exceção, desde o mais pequenino, estavam feitos à imagem e semelhança de Deus.
Apesar da variedade étnica e política que a dividia, a cristandade permanecia unida numa fé comum em Cristo e submissa à Igreja. As palavras do Messias penetravam em todos os recantos, transmitindo esperança e alegria; tomaram de assalto a Europa, avançaram pelo Oriente e pela África. Multidões de pagãos aderiam e confraternizavam à sombra da cruz.
Um grupo, entretanto, permanecendo fechado em si, repelia a Cristo, precisamente o “povo eleito”. Os cristãos lhe tinham apego, sabiam que sua crença vinha de Israel. As Igrejas ostentavam sempre, pintadas nas paredes, cenas do Antigo Testamento. Para o cristão, o judeu representava como um irmão mais velho, a quem se ama e de quem se espera apoio, mas a resposta era desconcertante, com cruel ruptura. O pior ódio é aquele que provém do amor.
A separação e o rancor, foram inevitáveis. Os judeus permaneciam tenazmente apartados, formando um grupo fechado. Conservavam estranho idioma, se escondiam em ritos misteriosos, a que se acrescentou, por volta do século XII, a “kaballah“, como estranha doutrina místico-teológica. Tudo isso produzia espanto, medo e desconfiança. Em 1199, foi preciso que o papa Inocêncio III proibisse aos cristãos não só de matar os judeus, mas também de molestá-los em suas festas religiosas, com ofensas e pedradas. Nos mercados, encenavam-se peças teatrais de escárnio aos judeus.
Apegados ao Antigo Testamento, eles renegavam o Novo, que daquele era o desfecho e a explicação. Constituíam mau exemplo para a cristandade e para os pagãos que esta buscava atrair. A Igreja tentava de todos os modos convencê-los, chegou a obrigá-los a ouvir pregações que lhes eram especialmente preparadas; mas, quando acaso um judeu se convertia, espontaneamente ou coagido, verificava-se com frequência depois que havia guardado no coração a crença dos seus ancestrais e, na primeira oportunidade, apostatava.
Isso tudo teria forçosamente de criar, como criou, profundo abismo entre os dois grupos. Todos os males que atingiam os cristãos eram atribuidos aos judeus. Pairaram sempre, sobre suas cabeças, duas acusações muito graves, de assassínio ritual e de profanação da hóstia. A primeira é velhíssima, já a encontramos no Egito; nos primeiros tempos da Era Cristã, repetiram-na os escritores Tácito, Plutarco e Juvenal, e veio depois rolando pela Idade Média: dizia-se que, em certos rituais secretos, os judeus imolavam um cristão: citavam-se “casos comprovados”. Milhares de judeus pagaram com suas vidas por essas duas acusações, levados à fogueira para se submeterem ao simbolismo do “fogo purificador”.
8. Fatores sociais
Em decorrência da sua obstinada atitude, os israelitas se fecharam num círculo social distinto, que não se misturava com as pessoas de outras raças.
Surge como altamente elucidativa, em tal sentido, a instituição do gueto. Muitas vezes este foi imposto pelas autoridades ou pelo povo, que queriam segregar os judeus; outras vezes constituiu fenômeno espontâneo, com os judeus preferindo manter apartada a intimidade da sua vida. Seja como for, o gueto demonstra, com eloqüência, o isolamento social dos judeus: eles queriam permanecer separados dos cristãos, os quais, a seu turno, também não queriam com eles manter vida em comum (Em Portugal, ao tempo de D. João II [1481-1482], o povo se queixou da dissolução em que se encontravam os judeus, tanto no convívio como nos trajes e conversas. “que são cousa feia, desonesta e abominável”. Eles, dizia-se, montam cavalos e mulas “com lobas e capuzes finos, com jubões de seda, espadas douradas, toucas rebuçadas, jaezes e garnimentos”, sem quaisquer sinais distintivos e, sendo incumbidos da cobrança dos rendimentos da coroa, atormentam os cristãos. Diante disso, D. João II determinou que os judeus andassem vestidos sobriamente e com “o sinal da estrela costumado acima da boca do estômago”, devendo recolher-se às judiarias, segundo MARCELLO CAETANO, op. cit., pág. 506).
As comunidades hebraicas possuíam Justiça própria, para resolver os feitos, casos e contendas que nelas surgissem. Os atos oficiais tinham lugar na sinagoga, regidos por um magistrado eleito, o arrabi, assistido por seus vereadores. O patrimônio próprio da comuna era zelado pelo procurador e pelo tesoureiro, devendo haver letrado para o ensino e capelães para o culto (Marcello Caetano, op. cit., pág. 507).
Se virmos o problema sobre o prisma dos judeus, forçoso será reconhecer que estes foram admiráveis por sua coragem e tenacidade. Não mais possuíam pátria, encontravam-se esparsos, à mercê de povos estranhos e geralmente hostis. De natureza sedentária, se haviam transformado em eternos fugitivos, errando daqui para ali. A despeito de tudo, se conservaram unidos, mantiveram a própria identidade, foram fiéis à sua história, aos seus costumes e religião; mas eram minoria, e tiveram de pagar muito caro por tanta firmeza.
Torna-se enfim compreensível o repúdio dos hospedeiros contra aqueles que, vivendo há tantos séculos (um milênio, um milênio e meio!) em seus países, orgulhosamente rejeitavam a idéia de absorvição, com eles não se irmanavam. Um milênio é muito tempo, abarca pelo menos quarenta sucessivas gerações.
9. Fatores econômicos
Somando-se ao fator religioso, o problema econômico também muito contribuiu para separar profundamente judeus e cristãos, suscitando amargo ódio destes por aqueles. Os israelitas foram abominados, porque se dedicavam à prática da usura. Em sua defesa, alega-se que a isso chegaram porque não os deixavam exercer as profissões normais; no que parecem ter alguma razão; à margem da sociedade, com religião e hábitos estranhos, dificilmente os admitiriam como membros das corporações de ofícios. Mas também não será inteiramente exato o argumento, porque, em vários países e em várias épocas, vemos os homens dessa raça pacificamente entregues a atividades agrícolas, extrativas, industriais. Não queriam porém limitar-se a isso. Entre os motivos alegados por Eduardo I para expulsá-los da Inglaterra, em 1290, esteve o fato de haver tentado, em vão, constranger os judeus ricos ao comércio comum e os pobres ao artesanato (os judeus só tiveram permissão de voltar a morar na Inglaterra, sob a ditadura de Cromwell, no século XVII).
Certamente as condições em que esse povo viveu concorreram para que se dedicasse a trabalhar com dinheiro. Inclusive a insegurança de uma existência instável o fazia preferir bens móveis, porque facilmente escamoteáveis e transportáveis. Mas a verdade é que, acima de tudo, os judeus encontraram, nos negócios financeiros, a sua grande vocação.
Eles preferiam morar nas cidades e, embora espalhados por vários países, se mantinham solidários entre si, unidos numa univesitas judaeroum e sempre atentos aos negócios lucrativos. Enquanto as populações cristãs eram em regra analfabetas, o pequeno israelita desde cedo aprendia a ler, a contar e era instruído na Torá. Extremamente astutos e capacitados, os judeus se tornavam, assim, inigualáveis. Facilmente dominavam o mercado financeiro, tornavam-se capitalistas, banqueiros, emprestadores de dinheiro e, por essa via, conquistavam o Poder.
Quantas e quantas vezes a História mostra os judeus sendo espoliados, com todos os seus bens apreendidos, expulsos de certo país; mas a este depois retornando, para nele de novo enriquecerem. Impedidos de exercer cargos públicos, se aproximavam todavia das autoridades, que envolviam com manobras, mediante talento ou pela corrupção. Sua habilidade financeira e negocial os tornava indispensáveis aos governantes, seja como conselheiros, seja como banqueiros. Surgiu assim a figura do judeu palaciano, cortesão, que, na sombra, conduzia os negócios públicos e ensinava aos soberanos as melhores maneiras de extrair mais recursos dos contribuintes.
Reis, nobres em geral, bispos e até mesmo papas tiveram de recorrer aos judeus, em busca de auxílio econômico. Muitas vezes, depois, para que os credores pudessem recuperar os valores emprestados, lhes era dado o direito de cobrarem tributos do povo, e fácil será imaginar a revolta que contra eles isso produzia.
Enquanto os cristãos estavam proibidos pela Igreja de receberem juros, os judeus permaneciam livres para fazê-lo, com taxas escorchantes. Os tomadores desses empréstimos eram homens comuns, modestos, pequenos negociantes, que se viam assim frequentemente conduzidos à miséria, enquanto o usurário enriquecia. Mais odiosamente ainda, verificava-se que esse usurário somente explorava os cristãos, mas não o fazia com as pessoas da sua raça (A posição da Igreja era de que dinheiro jamais deve gerar dinheiro. Ele não passa de “metal morto”, simples instrumento de troca, não mercadoria equivalente aos bens reais, ou naturais, que, estes sim, a justo título se consideram virtualmente produtivos.
O grande temor contra o empréstimo remunerado teve origem na experiência: no passado, sempre que se adotara essa prática, insinuara-se logo a ganância, com abusos intoleráveis, geradores da miséria e atentatórios ao dever de caridade.
Por isso a Igreja preferiu cortar o mau pela raiz, com firme condenação dos doutores, dos primeiros papas e vários concílios, contra qualquer empréstimo a juros.
Aos poucos, entretanto, o desenvolvimento do capital e do comércio foram tornando a economia monetária cada vez mais complexa, sendo de esperar-se que o problema fosse então revisto. Mas a tradição se tornara muito forte e demais fraca a compreensão da nova realidade econômica, o que tornava impensável qualquer real mudança. Assim, vigorou ainda por longo tempo a proibição de cobrar juros, inclusive sob ameaça de excomunhão.
Essa posição do cristianismo deixou o terreno livre aos judeus, que em consequência se tornaram grandes emprestadores de dinheiro na sociedade medieval.
Só bem mais tarde e aos poucos a Igreja passou a aceitar a diferença entre lucro justo e usura, para apenas esta proibir).
Os judeus, em suma, se mostraram gananciosos e, sempre que puderam, foram extremamente duros com os cristãos. A par disso, sua atividade creditícia era vista como pecaminosa e desprezível, mas graças a ela venciam, ostentando poder e riqueza. Daí o generalizado rancor contra eles, que foi crescendo e debaixo do qual havia muita inveja escondida. Explicam-se também as sucessivas e frequentes perseguições sangrentas contra o povo de Israel, que, ademais de massacrado e expulso, tinha seus bens confiscados. Expulsar ou matar os judeus era um meio de os cristãos se livrarem das dívidas com eles contraídas.
Enquanto houve apenas motivos religiosos de separação, as autoridades eclesiásticas tendiam a proteger os judeus, evitando excessivas opressões. No momento porém em que a isso se superpôs a exploração econômica, a usura, a atitude da Igreja em relação a eles passou a ser condenatória.
10. Responsabilidade coletiva
As violências contra o povo hebreu, durante a Idade Média, ocorreram em geral anarquicamente, sem forma nem figura de Justiça. Apresentam os característicos de vingança, da vendetta, e esta sempre gera, fatalmente, a responsabilidade coletiva, em que se dilui, ou não se forma, a idéia de identidade individual.
Na vendetta, atua a solidariedade grupal, tanto no sentido ativo como no passivo. A ofensa dirigida a uma pessoa alcança a inteira comunidade a que ela pertence, de sorte que a represália se deve exercer por qualquer um do seu grupo; e responsável, à sua vez, serão todos os membros do grupo a que pertence o ofensor.
No caso, formaram-se dois clãs, de um lado os cristãos, de outro os judeus. Estes foram indiscriminadamente oprimidos, sem se indagar se cada um deles era inocente ou culpado. é evidente que milhões de judeus eram pobres ou remediados, e não usurários; mas todos podiam ser punidos, pelo só fato de serem representantes de um “mal”, que se queria combater. E a exploração econômica, por estes desenvolvida, também alcançou qualquer pessoa, apenas por ser cristã.
É com a Inquisição que entramos na via judiciária, com judeus formalmente acusados de alguma falta perante um tribunal. Resta entretanto verificar em que medida esse formalismo não terá passado de mera aparência.
11 – Idade Moderna
Durante a inteira Idade Moderna prosseguiu vivo o anti-semitismo violento.
Na península ibérica, a Inquisição seguia seu curso, ceifando vidas e provocando a fuga das populações judaicas lá radicadas.
Há de se saber, entretanto, em que circunstâncias estes tribunais foram feitos, e quanta resistência houve por parte de Roma, até que esta cedesse em permitir, por causa de grande pressão dos reis de Espanha e Portugal, que houvessem tribunais nestes ditos países.
Muitos dos seus membros encontraram como acolhedores portos de refúgio a Holanda, a Polônia e o império otomano. Na Turquia, até hoje existe uma comunidade de judeus, que conservam como idioma o “ladino”, formado por uma mistura de espanhol clássico com palavras hebraicas.
Aos poucos, as perseguições foram ressurgindo, por quase toda a Europa. Seria longo descrevê-las, o que ademais ultrapassaria os limites deste estudo. Para se ter uma noção do que sucedeu, daí por diante, basta passar os olhos pelo índice do minucioso livro de Werner Keller sobre a História do Povo Judeu. Eis alguns títulos: “Os escritos anti-judaicos de Pfefferkorn”; “A ira de Lutero contra os judeus”; “Contra-Reforma e novos sofrimentos”; “Sombras da Inquisição sobre a Itália”; “Perseguições no Estado Pontifício”; “O édito de expulsão de Leopoldo I da Áustria”.
“Matanças na Ucrânia e na Polônia”; “Banho de sangue em Nemirov”; “Anos de terror do judaismo polonês”; “Setecentas comunidades destruídas”.
“Dificuldades em Hamburgo”; “Sofrimento e opressão na Áustria”; “Expulsão de Praga”; “A Prússia restringe os direitos dos judeus”; “As cidades de Lubeck e Bremen os expulsam”; “A Itália de novo instituiu os guetos”.
“Triunfos da reação na Prússia: o rei não mantem sua palavra, negação dos direitos prometidos”; “Tumultos anti-judáicos em cidades alemãs”.
“Acusações de assassínio ritual em Damasco”; “O que aconteceu após 1871: anti-semitismo na Alemanha e na Áustria”; “Presságios de catástrofe”; “O processo Dreyfus na França”; “Os pogroms na Rússia
“, etc.
E assim avançou aos tropeções esse povo, até chegar ao que provavelmente representa a maior maldade que já surgiu sobre a face da Terra: a “solução final” engendrada pelo nacional-socialismo germânico (1933-1945).
Referência bibliográfica
GONZAGA, João Bernardino. A Inquisição em seu mundo. Editora Saraiva, 1ª Edição, 1993.

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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