Leia a Bíblia?

I – Introdução

Cada religião é conhecida por sua prática mais característica. Assim, o Catolicismo tem na Missa seu ato essencial de culto a Deus. Os espíritas têm como ação típica a invocação dos espíritos, para conhecer algo do além, isto é, a necromancia, e os protestantes de todos os naipes são conhecidos pela sua insistência na Bíblia, que eles lêem e recomendam ler com insistência, como se pela leitura se achasse a salvação.

O pressuposto desses protestantes – hoje, para mascarar suas divisões, eles ocultam inicialmente o nome de sua seita, e se dizem genérica e vagamente “evangélicos” – é que qualquer pessoa, por mais desprovida de conhecimentos que seja, pode ler com fruto a Escritura, porque o próprio Espírito Santo vai inspirar a ela o sentido verdadeiro do que está escrito. A Bíblia seria, então, mais fácil de ser entendida do que um romance de banca de jornal, ou que um gibi. Além disso, cada um poderia dar a interpretação que desejasse, ou que julgasse ter entendido do texto sagrado. A Sagrada Escritura não teria um significado objetivamente correto. Todas as interpretações seriam sempre certas, ainda que fossem interpretações contraditórias. É o que se chama de livre exame da Bíblia, princípio proclamado por Lutero para destruir o poder do Papa.

O resultado desse livre exame da Escritura Sagrada foi uma quase infinita multiplicação de seitas. Tal sistema instaurou uma verdadeira Babel bíblica. Hoje, há milhares de seitas “evangélicas”, cada qual dando uma interpretação diferente do texto sagrado, e todas se proclamando verdadeiras.

No fundo, cada protestante é uma “igreja”, não podendo, de fato, existir a Igreja de Cristo. O protestantismo se ergue contra o poder infalível do Papa, e, para combatê-lo, proclama a infalibilidade individual de cada “crente”.

Cada um deveria ler a Bíblia, e cada um teria um entendimento diferente da Sagrada Escritura, negando-se, assim, que haja realmente um sentido objetivamente verdadeiro e desejado por Deus. Nega-se, desse modo, que haja “uma só fé”. Deus teria feito a Bíblia como uma “Obra Aberta”: ela teria milhares de sentidos possíveis, todos possivelmente verdadeiros, mas nenhum exclusivamente verdadeiro e único.

Daí o slogan protestante: “Leia a Bíblia”.

Ora, curioso é que a própria Bíblia não contenha nenhum texto que diga: “Leia a Bíblia”. Isso é bem natural, porque ninguém pode dar testemunho de si mesmo (Jo.V, 31). Nem nos dez mandamentos, dados por Deus a Moisés, nem nas palavras de Cristo se acha a recomendação de que os cristãos devessem ler a Bíblia.

Por que essa omissão? De onde, então, tiram os protestantes, de todas as seitas e matizes, essa lei – ou recomendação – de que todos devem ler a Sagrada Escritura?

O pai do protestantismo: Martinho Lutero, o inventor da doutrina que só a Bíblia basta para que o Espírito Santo ilumine o crente e o guie sem necessidade de nada nem ninguém (como se Deus quisesse que os homens viessem a ele de forma egoista e solitária).

Se fosse a leitura da Bíblia necessária para a nossa salvação, certamente Nosso Senhor Jesus Cristo teria dito aos Apóstolos que a lessem, e que ordenassem a todos sua leitura. Cristo teria ainda ordenado que se distribuíssem Bíblias a todos. Nesse caso, Ele talvez tivesse dito: “Ide e imprimi” em vez de “Ide, pois, e ensinai a todas as gentes…” (Mt. XXVIII, 19). Ele não ordenou: “Leiam a Bíblia” e nem “Distribuam Bíblias a todos os povos”. Nem mesmo afirmou: “Recomendem que todos os homens leiam a Bíblia”.

E por que jamais disse isso? Evidentemente, os livros – mesmo os sagrados – são escritos para serem lidos. Portanto, Deus fez as Sagradas Escrituras para serem lidas. Mas lidas por quem? Por todos?

É claro que não. Se nem todos têm competência para entender o que está nos livros comuns, e menos ainda nos livros especializados e científicos, muito menos ainda terão para compreender os livros da Escritura Sagrada, que são profundíssimos. Um leitor despreparado, ou sem conhecimento conveniente, não vai entender o texto, ou vai entendê-lo erradamente, ficando num estado pior do que o de ignorância. Porque pior que não saber, é entender errado.

Por isso, Deus disse no Livro dos Provérbios: “assim como um espinheiro está na mão de um bêbado, assim está a parábola na boca do ignorante” (Prov. XXVI, 7).

Os livros sagrados devem, então, ser lidos só por alguns? Por quem? Quem teria a missão de ler a Escritura e explicá-la aos sábios e ao povo mais simples?

Antes de responder a essa questão, para efeito didático, vejamos algumas citações que facilitarão a compreensão da resposta.

II – A palavra de Deus exige elucidação, porque “a letra mata”

Das palavras dos Provérbios, que citamos em epígrafe, se depreende que Deus “encobre” sua palavra. Encobre, isto é, em latim “cela”, oculta, vela suas palavras. Ora, se Deus visa salvar-nos por meio da Revelação, por que ocultar, encobrir o que Ele quer nos comunicar?

Parece haver nisso uma contradição, porque o que se quer conhecido não deve ser ocultado. Entretanto, Deus como que cobriu com um véu suas palavras, envolvendo-as em mistério.

Também os Apóstolos ficaram intrigados pelo fato de que Jesus só falava ao povo em parábolas e comparações, e perguntaram ao Divino Mestre: “Por que razão lhes falas por meio de parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: “Porque a vós é concedido conhecer os mistérios de Reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. (…) Por isso lhes falo em parábolas, porque, vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem, nem entendem” ( Mt, XIII, 10 e 13).

Cristo, Nosso Senhor e nosso Redentor, nos mostra que a palavra de Deus, embora deva, em princípio, ser comunicada a todos, nem a todos deve ser comunicada a qualquer hora. Alguns, por seus pecados e dureza de coração, não devem recebê-la senão veladamente, pela parábola, para que não a profanem, e nem lhes seja ela uma causa de acréscimo de culpa. Por isso, também, é que Jesus nos disse: ” Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mt, VII, 2).

Há, pois, pessoas que, por seus pecados, estão reduzidas a tal estado, que a revelação, em vez de lhes fazer bem, lhes será ocasião de novas culpas. Nesses casos – nos quais se prevê antes um desprezo pelo que Deus revelou do que um acatamento pelo seu ensinamento – cabe muitas vezes evitar comunicar o que é santo.

Portanto, nem a todos convém falar, a qualquer hora, das coisas de Deus, nem dar-lhes nas mãos a Escritura Sagrada, quando é previsível que irão debochar dela, ou deturpá-la. Quando se presume que isso será o mais provável, deve-se salvar a pérola preciosa e não dá-la aos porcos. Ou, pelo menos, esperar o tempo mais oportuno para falar. Porque… ” há tempo de calar e tempo de falar” ( Ecles. III, 7).

Por essas razões, é que a sabedoria de Deus muitas vezes encobre suas palavras. E a glória dos mestres autorizados consiste em investigar o discurso de Deus, por meio da exegese de suas parábolas. O próprio Cristo nos deu exemplo de como se deve fazer essa investigação, ao explicar aos Apóstolos a parábola do semeador (Mt. XIII, 18-23).

A Sagrada Escritura foi, pois, dada para ser lida especialmente por alguns que tenham autoridade ou sabedoria, e que, depois, devem ensiná-la ao povo mais simples, que a deve ouvir.

Por isso, está dito no Eclesiástico: “O sábio investigará a sabedoria de todos os antigos, e fará o seu estudo nos profetas. Conservará no seu coração as instruções dos homens célebres, e penetrará também nas subtilezas das parábolas. Indagará o sentido oculto dos provérbios, e ocupar-se-á dos enigmas das parábolas (Sir.XXXIX, 1-3).

Não assim os iniciantes, não assim… Pois que está dito por Deus: “Eles [os operários, que fazem trabalhos com as mãos] não se assentarão na cadeira do juiz, e não entenderão as leis da justiça; não ensinarão as regras da moral nem do direito, e não se acharão ocupados na inteligência das parábolas” ( Sir. XXXVIII, 38).

Para os protestantes – sempre igualitários – todos os homens são suficientemente sábios para ler e, principalmente, para interpretar a Escritura, indo, assim, contra o que diz a própria Escritura Sagrada.

Mas Jeremias os contesta dizendo: “Como dizeis vós: Somos sábios, e a lei do Senhor está conosco? Verdadeiramente o estilete mentiroso dos escribas gravou a mentira. Os sábios estão confundidos, aterrados e presos, porque rejeitaram a palavra do Senhor e nenhuma sabedoria há neles” (Jer. VIII, 8).

Voltaremos a esse verso misterioso sobre o estilete mentiroso dos escribas que gravou a mentira….

Dissemos que a investigação da palavra de Deus exige uma certa sabedoria e uma certa autorização, e isso é dito também por São Paulo, ao prevenir que “a letra mata”: “Deus nos fez idôneos ministros do Novo Testamento, não pela letra, mas pelo espírito, porque a letra mata, mas o espírito vivifica”(II Cor. III, 6).

Portanto, é a própria Bíblia que nos previne que “a letra mata”.

Entretanto, os protestantes lêem essa palavra e confiam na letra.

Não compreendendo que “a letra mata”, os que se dizem hoje “evangélicos” passam por cima de outro texto de São Paulo que nos ensina: “Por isso Isaías diz: ‘Senhor, quem creu em nossa pregação?’ (Is. LIII,1 e LII, 7) “Logo, a Fé é pelo ouvido, e o ouvido pela palavra de Cristo” (Rom. X, 16-17).

São Paulo deduz dos termos usados por Isaías – Diz e Pregação – que a Fé vem pelo ouvido e não pela leitura, embora Isaías tivesse escrito suas palavras, e não dito, ou pronunciado. O livro de Isaías devia, então, ser ouvido pelo povo judeu, isto é, explicado por alguém idôneo, e não simplesmente ser lido por todos.

Essa explicação é confirmada noutro passo das Escrituras Sagradas, exatamente tratando da leitura de Isaías, nos Atos dos Apóstolos, quando o Diácono Felipe é enviado por Deus a falar com o eunuco da Rainha de Candace que, em viagem, lia a Sagrada Escritura: “Correndo Felipe, ouviu que lia o Profeta Isaías e disse: ‘Compreendes o que lês?’ Ele disse: ‘Como o poderei (eu compreender) se não houver alguém que me explique?” (At. VIII, 30-31).

Portanto, é a própria Bíblia quem nos diz que não é possível compreendê-la, se não houver alguém que a explique!

A Religião verdadeira tem por princípio o Verbo de Deus, isto é, a Palavra de Deus: “No princípio era o Verbo” (Jo. I, 1). Se, no plano divino, o princípio está no Verbo, no plano humano, o princípio da Fé é pelo ouvido, porque “a Fé vem pelo ouvido” (Rom. X, 16-17 ), e não pelo olho que lê. Pelo olho, vem a letra que mata” (II Cor. III,6).

Por todas essas razões, Cristo Nosso Senhor não mandou ler a Bíblia, e sim ouvir o que Ele revelou na Bíblia, repetindo cinco vezes, no Sermão da Montanha, o verbo ouvir e não o verbo ler: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás…’” (Mt. V, 21).

Ora, isso não “foi dito aos antigos”. Foi escrito.

Apesar disso ter sido escrito e não dito, Jesus Cristo, ao citar o livro de Moisés, diz ao povo: “Ouvistes” e não “lestes”. E diz “ouvistes”, porque normalmente o povo judeu ouvia a leitura da Escritura nas Sinagogas, onde era lida pelos Mestres: os Rabis e Doutores da Lei.

Por cinco vezes, no Sermão da Montanha, Cristo emprega a expressão “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, em vez de “lestes”, embora se referisse a um texto escrito (Cfr. Mt V, 21, 27, 33, 38 e 43). Essa insistência no uso do verbo ouvir e não do verbo ler é significativa. Devemos ouvir, mais do que ler a palavra de Deus, porque a Fé vem pelo ouvido, enquanto a letra mata. Cabe aos mestres idôneos e autorizados ler e explicar ao povo o que está escrito. E esse foi também o exemplo deixado por Jesus Cristo que, quando ia à Sinagoga, tomava o Rolo das Escrituras, lia um trecho e o explicava ao povo, que ouvia e não lia: “Foi a Nazaré, onde se tinha criado, e entrou na Sinagoga, segundo o seu costume, em dia de sábado e levantou-se para fazer a leitura. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías…” (Luc. IV 16-17).

O costume dos judeus era ir ouvir a leitura e a explicação das Escrituras na Sinagoga, aos sábados.

Repetidamente, na Sagrada Escritura, Cristo diz que se deve ouvir a palavra de Deus. Praticamente Ele não usa o verbo ler. Só uma vez, no Apocalipse, aparece o verbo ler, mas imediatamente seguido do verbo ouvir: “Bem aventurado aquele que lê e aquele que ouve as palavras dessa profecia, e observa as coisas que nela estão escritas, porque o tempo está próximo“(Apoc. I, 3).

E por que teria sido usado aí, no Apocalipse, o verbo ler?

Julgamos que, sendo o Apocalipse um livro profético, o mais misterioso da Sagrada Escritura, Cristo usa nele o verbo ler imediatamente seguido do verbo ouvir, porque seria extremamente difícil captar e meditar as palavras desse livro apenas ouvindo. Cristo acrescenta ainda o verbo observar ao ler, porque não basta ler e ouvir se não se observar, isto é, se não se puser em prática o que se leu ou ouviu. Esse excepcional uso do verbo ler na Escritura não muda, porém, a regra geral com relação à importância e preponderância única do verbo ouvir.

Aliás, para confirmar o que dissemos note-se que o verbo ouvir aparece sistematicamente no final de cada carta do Apocalipse. Sete vezes ali se utiliza a fórmula final: “Aquele que tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Apoc. II, 7; II, 11; II, 17; II, 29; III, 6; III, 11; III, 22).

Embora seja cansativo multiplicar as citações, é preciso repeti-las aos protestantes, pois não se está tratando com bons entendedores, para os quais meia palavra basta. Está se tratando com maus leitores, para os quais muitas letras não são suficientes.

Vejamos, então, uma primeira citação dos Evangelhos: “Todo aquele que ouve minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna.” (Jo. V,24).

Note-se: tem a vida eterna quem ouve, não quem lê. Porque que adianta ler, se não houver quem explique (Cfr At. VIII, 30-31).

E mais: “Todo aquele, pois, que ouve essas minhas palavras, e as observa, será semelhante ao homem prudente que edificou sua casa sobre a rocha” (Mt. VII, 24).

Notem-se três coisas:

1) O uso do verbo ouvir e não do verbo ler, que seria o preferido pelos “evangélicos”;

2) Não basta ouvir. É preciso ainda observar as palavras de Deus. Não basta, então, a Fé. São necessárias as obras, pelas quais se observa a palavra de Deus;

3) Quem ouve e observa as palavras de Cristo constrói sua casa sabiamente sobre a rocha, sobre a pedra, isto é, sobre Pedro.

E assim como Cristo não ordenou aos Apóstolos: “Ide e imprimi e distribuí Bíblias”, assim também não disse: “Quem vos lê, a Mim lê”. Pelo contrário, Cristo disse: “Quem vos ouve, a Mim ouve” (Lc. X, 16).

Não se pense que no Antigo Testamento fosse diferente, pois que no Livro da Sabedoria se pode encontrar a seguinte regra: “Qui audet me, non confundetur” “Aquele que me ouve, não será confundido” (Sir. XIV, 30).

No Livro do Eclesiástico (Sirac) também se pode ter a confirmação do que dizemos: “Se inclinares teu ouvido, receberás a doutrina, e se amas escutar, serás sábio” (Sir. VI, 34).

Conclui-se, então, que é também pelo ouvido – e não pela vista e pela leitura da letra – que se adquire a sabedoria. Pois, se a Fé vem pelo ouvido, como poderia a Sabedoria vir pela vista e pela leitura?

E como poderia ser de outro modo, se Cristo é essa mesma Sabedoria feita Homem?

Os protestantes gostam de se referir ao texto em que Cristo fala de seus “irmãos”, isto é, de seus parentes, dizendo: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus, e a praticam” (Jo. VIII,21); e eles interpretam literalmente a palavra “irmãos” desse texto, dizendo que Cristo teve, então, irmãos carnais. Deveriam também interpretar literalmente o resto da frase, concluindo que eles (os protestantes) não são “irmãos” de Jesus, porque eles não ouvem, mas lêem as palavras de Cristo.

Noutra ocasião disse Nosso Senhor: “Bem aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc. XI,28).

Ao contar a parábola do semeador, Cristo conclui solenemente dizendo: ” E dizia: ‘Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc. IV, 9).

Aliás, nessa parábola do semeador, no Evangelho de São Mateus, Cristo utiliza cinco vezes o verbo ouvir, e nenhuma vez o verbo ler. Se Ele quisesse que fizéssemos o que fazem os protestantes com a Bíblia, Ele bem facilmente poderia ter usado aí, pelo menos uma vez, o verbo ler. Não usou, para que – exatamente – não caíssemos no erro luterano de que é obrigatório ler a Bíblia para que nos salvemos (Cfr Mt. XIII, 18, 19, 20, 22, 23).

Repetidamente, Cristo adverte aos judeus e a nós, dizendo: “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mc. IV, 23).

Também São Paulo prefere o verbo ouvir ao verbo ler – e poderia São Paulo ter um preferência diferente daquela de Cristo? – pois diz na I epístola a Timóteo: “… e fazendo isso, te salvarás a ti mesmo e àqueles que te ouvirem” (I Tim. IV 23).

Já São João nos diz: “Quem conhece a Deus, nos ouve, quem não é de Deus, não nos ouve. Nisso distinguireis o espírito da verdade e o espírito do erro” (I Jo. IV,6).

Claríssimo, pois. Para distinguir quem busca a verdade daquele que busca o erro, aí está a regra: quem tem o espírito do erro não quer ouvir! Mas o protestante só quer ler.

Deus ordenou a Jeremias, o Profeta, que clamasse: “Anunciai isso à casa de Jacó, e fazei-o ouvir em Judá, dizendo: Ouve, povo insensato, que não tens coração; vós que tendes olhos, não vedes; tendes ouvidos, não ouvis” (Jer. V, 20-21). Isso se aplica tão perfeitamente aos hereges que parece até ter sido dito diretamente para os que se dizem “evangélicos”, que lêem mas não entendem, e que se recusam a ouvir.

O livro de Jó expõe a mesma doutrina: “Eis que tudo isso não é senão uma parte de suas obras, e, se apenas temos ouvido um ligeiro murmúrio de sua voz, quem poderá compreender o trovão de sua grandeza” (Job. XXVI, 14).

Se as obras da criação são para nós, agora, como que um murmúrio da voz de Deus, que nos fala através delas – murmúrio, porque na criação material vemos apenas vestígios de Deus, e nelas vemos a Deus longinquamente – como poderemos compreender por nós mesmos – sem a orientação da autoridade posta por Cristo, Pedro, aquele que tem as chaves do reino dos Céus – como poderemos entender o trovão da voz de Deus na Sagrada Escritura?

III – O verbo ler na Sagrada Escritura

Vimos que, excepcionalmente, aparece na Sagrada Escritura o verbo ler junto com uma recomendação laudatória no Apocalipse (I, 3). Mas que, mesmo aí, esse verbo é imediatamente seguido do verbo ouvir e do verbo observar.

Também noutras vezes em que é usado o verbo ler, sempre ele é seguido de alguma observação restritiva.

Vimos a passagem muito notável dos Atos dos Apóstolos (VIII, 30 -31), na qual se observa que não adianta ler, se não houver quem explique o texto.

Quando os Reis magos foram até Herodes perguntar onde nascera o Rei dos judeus, ele consultou os Príncipes dos Sacerdotes e os Escribas sobre a questão. Estes disseram que “Estava escrito” (Mt, II, 5) que era em Belém. Os Príncipes dos sacerdotes e os Escribas sabiam bem o que estava escrito: que era em Belém que nasceria o Messias. Mas não se abalaram para ir até lá. Os magos, que não leram, foram adorar o Redentor em Belém. Os escribas não foram porque não adianta ler sem compreender.

Quando Cristo Deus entrou triunfante em Jerusalém as crianças o aclamaram, o que desgostou aos fariseus, que exigiram dele que fizesse calar as crianças. E Cristo, então, lhes disse, repreendendo-os: “Nunca lestes: da boca das crianças e dos meninos de peito fizestes sair um perfeito louvor?” (Mt. XXI, 16).

Com essas palavras Cristo lhes mostrava que, embora tendo lido a Sagrada Escritura, isso de nada lhes tinha valido, pois eles não inclinavam seu ouvido à Sabedoria.

São Paulo, repreendendo os Gálatas por se aterem às práticas da lei judaica, lhes diz: “Dizei-me, vós, os que quereis estar debaixo da lei, não lestes a lei?” (Gál. IV, 21). E, a seguir, lhes demonstra que eles não haviam entendido as Escrituras.

A crítica aos que entendiam mal a Escritura é repetida várias vezes nos Evangelhos, sempre utilizando a expressão “Não lestes“.

Assim, São Mateus nos conta que Jesus, respondendo aos fariseus que criticavam os discípulos de Jesus por colher espigas no sábado – o que era proibido pela letra da lei – disse-lhes: “Não lestes o que fez Davi quando teve fome, e ele e os que com ele iam?” (Mt. XII, 3). “Não lestes na lei que aos sábados os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa?” (Mt. XII, 5).

Contradizendo a leitura dos fariseus sobre o direito de repúdio da mulher, Cristo lhes disse: “Não lestes que quem criou o homem no princípio, criou-os homem e mulher…” (Mt. XIX, 4).“Jesus disse-lhes: ‘Nunca lestes nas escrituras: “A pedra que fora rejeitada, pelos que edificavam, tornou-se a pedra angular (…)?”

Em todos esses textos, o verbo ler é empregado contra os fariseus, mostrando que a simples leitura da Bíblia não lhes foi levada em mérito e sim em agravamento de culpa.

Portanto, não basta ler a Bíblia.

Quando Cristo se refere à profecia de Daniel de que um dia a “abominação da desolação” seria “posta no lugar santo”, Ele previne: “Quem lê, entenda” (Mt, XXIV, 15). Esse “entenda” imediatamente depois do verbo ler, mostra que não adiantava ler sem entender. Quantos, hoje, que nem entendem um simples artigo de jornal, pretendem entender a Sagrada Escritura! Mal lêem e pior entendem!

Noutra ocasião, quando um Doutor da Lei veio consultar a Jesus sobre o que deveria fazer para alcançar a vida eterna, Cristo lhe perguntou: “O que está escrito na Lei? E como lês tu?” (Lc. X, 26).

A interrogação “como lês tu?” mostra que a leitura depende da compreensão. Portanto, a simples leitura da Bíblia não é suficiente. Para alcançar a vida eterna duas coisas são necessárias: compreender a Revelação e fazer o que se compreendeu que Deus exige de nós. Portanto, só ler não adianta.

Os saduceus e fariseus – tais quais os protestantes, hoje – liam as escrituras e isso de nada lhes adiantou. Pelo contrário, aumentou-lhes a culpa.

Aos saduceus que vieram questionar Cristo sobre a ressurreição, citando o texto da lei do sororato, Cristo respondeu: “Errais não compreendendo as escrituras, nem o poder de Deus” (Mt. XXII, 29).

Em seguida, disse Jesus a esses mesmos saduceus: “E acerca da ressureição dos mortos, não tendes lido o que Deus disse, falando convosco: Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Ora, Ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (Mt XXII, 31).

Porque o texto estava no livro sagrado, Cristo deveria ter dito que Deus havia escrito. Em vez disso, Ele usa os verbos dizer e falar e não escrever. De novo, fica claro que ler só, não adianta: é preciso bem entender.

Os grandes leitores da Bíblia no tempo de Jesus eram os fariseus. Como os protestantes, hoje, eles eram capazes de citar capítulos e versículos dos livros sagrados que eles sabiam de memória, sem jamais bem compreender o que haviam decorado. Foram os fariseus leitores da Bíblia que não viram a luz e mataram o Filho de Deus. Diante da luz da verdade, eles não viram a luz. Eles foram “cegos ao meio dia” (Deut. XXVIII, 29). Por isso, Jesus os chamou de “cegos” (Mt XV, 14) e “guias de cegos” (Mt. XXIII, 16).

Foi acerca dos fariseus, leitores e mestres da Bíblia, que profetizou Isaías, dizendo: “Surdos, ouvi, e vós, cegos, abri os olhos para ver. Quem é cego, senão o meu servo (Israel)? E quem é surdo, senão aquele a quem enviei os meus profetas? Quem é cego como o dileto, e surdo como o servo do Senhor? Tu, que vês tantas coisas, não as observarás? Tu, que tens os ouvidos abertos, não ouvirás?” (Is. XLII 18-20). Repare-se que, nesse texto, Deus não repreende os judeus por não lerem a Bíblia. Ler, eles liam. O mal é que não entendiam. Eram leitores cegos. Como tantos outros, hoje. Estultos e cegos” (Mt. XXIII, 17).

Como castigo do orgulho com que os judeus liam os livros sagrados, sem quererem ouvir a palavra de Deus, a própria Sagrada Escritura diz: “Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de adormecimento, ele fechará os vossos olhos, cobrirá (com um véu) os vossos profetas e príncipes, que têm visões. A visão de todos eles será para vós como as palavras de um livro selado, que, quando o derem a um homem que sabe ler, e lhes digam: ‘Lê esse livro’, ele responde: ‘Não posso, porque está selado’. Dar-se-á a um homem que não sabe ler e se dirá:‘Lê ‘; ele responderá: ‘Não sei ler” (Is. XXIX, 10-13).

Desse texto se deduz que não adianta querer ler um livro selado. Ora, a Escritura é um livro selado, e suas chaves foram dadas a Pedro. Quem não tem as chaves não pode abrir esse livro. E quem pretende saber lê-lo sem ter as chaves ou sem saber ler, está fazendo isso com o véu do adormecimento e da ilusão sobre os olhos.

Um homem que saiba ler deve ter a humildade de não pretender fazer isso sem a autorização e a aprovação daquele que tem as chaves. Só se deve ler a Bíblia com espírito de humildade, aceitando o que o Papa ligou e desligou a respeito do texto sagrado.

Os fariseus – como os protestantes, hoje – eram desses pretensiosos que julgavam saber ler, e por isso Deus os castigou com a cegueira de seu próprio orgulho, pois que davam importância à letra da Escritura, letra que mata, julgando estar em sua leitura a salvação. Por isso, Nosso Senhor Jesus Cristo os advertiu, argumentando contra eles: “Examinai as Escrituras, visto que julgais ter nelas a vida eterna; elas são as que dão testemunho de Mim; e não quereis vir a Mim, para terdes vida. (…) Moisés, em quem vós confiais, é que vos acusa. Porque se vós crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim; porque ele escreveu de Mim. Porém, se vós não dais crédito aos seus escritos, como haveis de dar crédito às minhas palavras?” (Jo. V, 39-40 e 45 a 47).

Essas frases de Jesus Cristo são extremamente importantes para o tema que estamos analisando, e nelas sublinhamos as palavras decisivas.

Em primeiro lugar, Cristo argumenta contra os fariseus dizendo que eles acreditavam – como os protestantes, hoje – que das Escrituras é que eles obteriam a vida eterna. Ora, a vida eterna só se obtém por meio de Cristo, e não da “letra que mata” (II Cor. III, 6). Não é lendo a Bíblia que se alcança a vida eterna.

Em segundo lugar, note-se que Cristo, argumentando ad hominem, diz: já que vós, fariseus, dizeis crer nas Escrituras, examinai-as e nelas vereis que elas falam de Mim.

Finalmente, repare-se que Cristo diz que os fariseus confiavam em Moisés, mas não davam crédito a seus escritos.

Portanto, é possível ler a Escritura sem crer nela. Pois é assim também que fazem os protestantes de ontem e de hoje: dizem confiar na Bíblia, mas recusam crer no que ela ensina.

Para forçar a Sagrada Escritura a concordar com eles, os fariseus deturpavam o que ela dizia, acusando Cristo de violar a Lei. O mesmo fizeram, depois, os primeiros hereges; e a mesma coisa fazem hoje; e farão no futuro, os hereges de amanhã. Por isso São Pedro escreveu, dos que lêem a Bíblia forçando interpretações falsas: “(…) os indoutos e inconstantes adulteram [as palavras de São Paulo] (como também as outras Escrituras) para a sua própria perdição” (II Pe. III,16).

Que os rabinos dos judeus liam as Escrituras nas Sinagogas e não as entendiam, porque não davam crédito a seu significado e sim apenas à letra, está registrado em várias passagens da Bíblia. Assim: “Porque os habitantes de Jerusalém e os seus chefes, não conhecendo esse [Cristo] nem as vozes dos Profetas, que cada sábado lêem, condenando – O, as cumpriram” (At. XIII, 27).

Portanto, os rabinos judeus liam as escrituras mas não as entenderam, pois não reconheceram a Cristo Redentor. O próprio Moisés, a quem os rabinos judeus diziam seguir e do qual liam com cuidado os textos, até contando as letras – as letras que matam – profetizou sobre eles ao dizer: “Eis que os filhos de Israel não me ouvem (Ex. VI, 12).

Isso é confirmado noutra passagem que diz praticamente a mesma coisa: “Porque Moisés, desde tempos antigos, tem em cada cidade homens que pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (At. XV, 21). Era lido e não era acreditado. Que adiantava, então, aos rabinos e judeus lerem a Bíblia nas suas sinagogas? Que adianta aos hereges lerem as letras da Escritura, se não as entendem, e por isso morrem, mortos pela letra?

As Escrituras Sagradas eram lidas por autoridades idôneas, muitas vezes estabelecidas diretamente por Deus, as quais o povo devia ouvir, atendendo ao que era lido e explanado. Isso pode ser confirmado por inúmeros textos da Bíblia. Citaremos, com risco de sermos monótonos, alguns deles.

Em primeiro lugar, cabia aos sacerdotes e anciãos ler a lei, para ensiná-la ao povo, que devia ouvir e não ler: “Escreveu, pois, Moisés, esta lei, e a entregou aos sacerdotes filhos de Levi, que levavam a arca da Aliança do Senhor, e a todos os anciãos de Israel. E ordenou-lhes, dizendo: “todos os sete anos, no ano da remissão, na solenidade dos tabernáculos, quando todos os filhos de Israel se juntarem para aparecer diante do Senhor, teu Deus, no lugar que o Senhor tiver escolhido, lerás as palavras desta lei diante de todo o povo, o qual OUVIRÁ, estando congregado todo o povo num mesmo lugar, tanto homens como mulheres, meninos e estrangeiros, que estão dentro de tuas portas, para que, OUVINDO, aprendam e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram todas as palavras desta lei; e para que também seus filhos, que agora ignoram, as possam ouvir, e temam o Senhor seu Deus durante todos os dias que viverem na terra, da qual, passado o Jordão, ides tomar posse” (Deut. XXXI, 9 – 13).

A passagem é claríssima. Não é o povo que deve ler. O povo comum deve ouvir. É o contrário do que querem os hereges protestantes: querem eles mesmo ler, embora não sejam idôneos nem capazes.

No mesmo livro do Deuteronômio, há outra passagem que dá direito e obrigação também ao Rei, para ler a Escritura: “Depois que [o Rei] se tiver sentado no trono de seu reino, escreverá para si num livro o Deuteronômio desta lei, recebendo o exemplar dos sacerdotes, da tribo de Levi. Te-lo-á consigo e o lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, seu Deus, e a guardar as suas palavras e cerimônias que estão prescritas na lei” (Deut. XVII, 18-19).

O rei – e não qualquer um – tem direito e obrigação de ler a lei, depois de recebê-la dos sacerdotes.

Já no Exôdo, Moisés fez o mesmo: leu a lei para o povo que ouvia: “E tomando o livro da Aliança [Moisés] o leu na presença do povo, o qual disse: ‘Faremos tudo o que o Senhor disse [e não escreveu] e seremos obedientes (Ex. XXIV, 7).

Josué, quando recebeu a autoridade sobre o povo, seguiu o mesmo costume: ele lia a lei. O povo a ouvia: “E primeiramente Josué abençoou o povo de Israel. Depois disso, leu todas as palavras da benção e da maldição e tudo o que estava escrito no livro da lei” (Jos. VIII, 34). Josué leu porque era a autoridade idônea. O povo apenas ouviu.

Quando foi encontrado o livro da lei, no tempo do Rei Josias, ele reuniu o povo na casa do Senhor, “e, estando eles [membros do povo] a ouvir na casa do Senhor, o Rei leu todas as palavras do livro” (II Cr. XXXIV, 30).

Que era direito e dever dos Reis e Sacerdotes ler a lei ao povo que ouvia, se constata na manutenção desse costume através dos tempos. Também Esdras agiu assim: “O Sacerdote Esdras levou, pois, a lei para diante da multidão dos homens e das mulheres. e de todos os que a podiam entender, no primeiro dia do sétimo mês. Leu naquele livro claramente, no meio da praça que fica diante da porta das águas, desde manhã até o meio dia, na presença dos homens, das mulheres e dos sábios. Todo o povo tinha os ouvidos atentos” (II Esd. VIII, 2-3).

No Eclesiástico (Sabedoria de Sirac) se pode encontrar a seguinte lição: “Inclina o teu ouvido e recebe a palavra da Sabedoria” (Sir. II 2). E ainda: “Se me ouvires, receberás a instrução, e se fores amigo de ouvir serás sábio” (Sir. VI, 34). E mais: “Apliquei um pouco o meu ouvido e logo a recebi [a sabedoria]” ( Sir. LI, 21).

Não é, portanto, a mera leitura da Bíblia que traz a sabedoria.

Isaías não ensina diferentemente: “O Senhor deu-me uma língua erudita, para eu saber sustentar com a palavra o que está cansado; Ele me chama pela manhã, pela manhã chama aos meus ouvidos, para que eu o ouça como a um mestre” (Is. L, 4-5). “Ouvi-me com atenção, e comei o bom alimento e a vossa alma se deleitará com manjares substanciosos. Inclinai o vosso ouvido e vinde a mim. Ouvi e vossa alma viverá” (Is. LV, 2-3).

Repetimos: não está dito: “Lêde e vossa alma viverá”. E sim: “Ouvi e vossa alma viverá”.

Para o profeta Jeremias, Deus disse: “Vai e grita aos ouvidos de Jerusalém” (Jer. II,2). Deus não mandou que Jeremias mandasse o povo ler a profecia, nem que pusesse diante dos olhos a letra que mata, mas que gritasse aos ouvidos do povo a sua palavra. Por isso, logo depois, Jeremias recomenda: “Ouvi as palavras do Senhor” (Jer. II, 4).

E ainda em outra passagem, Deus reitera ao profeta: “E o Senhor me disse: Prega em alta voz todas estas palavras, nas cidades de Judá e fora de Jerusalém, dizendo: ‘Ouvi as palavras desta aliança e observai-as’. Ouvi a minha voz”. “E não a ouviram, nem prestaram ouvidos, mas cada um seguiu a depravação do seu coração maligno. “E o Senhor me disse: ‘Uma conjuração se descobriu entre os varões de Judá e entre os moradores de Jerusalém. Tornaram às suas antigas maldades de seus pais, que não quiseram ouvir as minhas palavras” ( Jer. XI, 6-9).

E mais: “Porém, não ouviram, nem inclinaram o seu ouvido, mas endureceram a sua cerviz, para não me ouvirem, nem receberem a instrução. Apesar disso, se me ouvirdes…” (Jer. XVII, 23-24). “… e vossos pais não me ouviram, nem inclinaram o seu ouvido ( Jer. XXXIV,14). “Não ouviram, nem inclinaram o seu ouvido para se converterem de suas maldades e para não sacrificarem a deuses estranhos” (Jer. XLIV, 5).

Nos Atos dos Apóstolos está dito: “Vai a esse povo e dize-lhes: ‘Com o ouvido ouvireis e não entendereis, e, vendo, vereis e não distinguireis. Porque o coração desse povo tornou-se insensível, e são duros dos ouvidos, e fecharam os seus olhos para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos e entendam com o coração, e se convertam, e Eu os sare” (Atos, XXVIII, 26-28).

Como o protestante lê que “O ouvido do sábio busca a doutrina” (Prov. XVIII, 15), e continua apenas lendo?

E como continua apenas lendo, se está dito que “o ouvido virtuoso ouvirá a Sabedoria” (Sir. III, 31), e não que “lerá” a sabedoria?

Dirão: “Esses são livros que não aceitamos como inspirados”. Confessarão, assim, que são eles que determinam o que foi inspirado ou não; que é sua opinião que vale, e não o que ensina a Igreja.

Mesmo assim, por que não compreendem que os Salmos, que eles aceitam como inspirados, dizem a mesma doutrina? Nos salmos se pode encontrar esta palavra: “Escuta, ó filho, vê e inclina o teu ouvido” (Sl. XLIV, 5).

E mais: “Ouvi todos isso, ó nações, estai atentos vós todos os que povoais a terra” (Sl XLVIII,2). “A minha boca falará a sabedoria e a meditação de meu coração é sensata. Inclinarei à parábola o meu ouvido…” (Sl. XLVIII 4-5).

Também o salmo LXXVII, 20 repete a mesma lição: “Escuta – não diz lê – a minha lei, povo meu. Inclina os teus ouvidos às palavras de minha boca”. A lei estava escrita; entretanto, Deus manda não que se leia, mas que se ouça.

É monótono repetir tantas vezes a mesma coisa, mas a teimosia exige a repetição. Por isso, foi também que Deus insistiu tanto no uso do verbo ouvir e não do verbo ler.

Tendo demonstrando que os Salmos ensinam a mesma coisa que os Provérbios, citaremos mais uma passagem desse livro: “Filho meu, ouve meus discursos e inclina o teu ouvido às minhas palavras” (Prov. IV, 20). “Inclina o teu ouvido, e ouve as palavras da sabedoria, e aplica o coração às minhas palavras” (Prov. XXII, 17).

E mais uma vez: “Meu filho, atende à minha sabedoria, e inclina o teu ouvido à minha prudência” (Prov. V, 1). O ensinamento é constante e invariável: deve-se ouvir. O ensinamento que se repete não é: deve-se ler. Só os protestantes insistem em não ouvir. Eles só pensam que sabem, e que devem ler. Que todos sabem, e que todos devem ler. E exigem que se leia, não que se ouça. A recomendação deles, portanto, é contrária à de Deus.

Às palavras sábias e inspiradas que até aqui reproduzimos, o protestante poderia responder: “Não ouvi a voz dos que ensinavam, nem dei ouvidos aos mestres” (Prov. V, 13). Nosso Senhor Jesus Cristo os previne, com as palavras do evangelho de São João, de que são seus discípulos os que ouvem a voz do pastor, daquele que foi posto pelo porteiro, pois ninguém pode se dar a si mesmo o título de pastor. Deve e só pode recebê-lo do porteiro. E o porteiro tem que ter as chaves da porta, para abrir e fechar. E as chaves foram dadas a Pedro. Portanto, quem não reconhece a voz do pastor autorizado pelo porteiro, não pode se salvar: “Mas o que entra pela porta é pastor das ovelhas. A este o porteiro abre e as ovelhas ouvem a sua voz, ele as chamará pelo nome e as tirará para fora” (Jo. X, 2).

Inúmeros outros textos poderiam ser citados comprovando, todos, esta mesma lição: nem todos devem ler a Sagrada Escritura. Todos somos obrigados a ouvir o que Deus nos ensinou por ela. E quem Deus encarregou de ensinar a Revelação? Cristo deu a Pedro as chaves do Reino dos Céus (Cfr. Mt. XVI,13-20). É pois o papa, sucessor de Pedro, quem tem o munus de ensinar o que está contido na Revelação.

É o que diz Leão XIII, na encíclica Providentissimus Deus: “É preciso observar que, se os escritos antigos são mais ou menos difíceis de serem entendidos, para entender a Bíblia há, em acréscimo, ainda outras razões particulares. Porque a linguagem bíblica é usada, sob inspiração do Espírito Santo, para expressar muitas coisas que estão além do poder e do alcance da razão; noutras palavras, os mistérios divinos e tudo o que está relacionado com eles. Há, muitas vezes, em algumas passagens uma plena e escondida profundidade de significado, que a letra expressa com dificuldade e que as leis da interpretação gramatical dificilmente garantem. Mais ainda, o próprio sentido literal freqüentemente admite outros sentidos, adaptados para ilustrar o dogma ou para confirmar a moral. Porque, é preciso reconhecer que a Sagrada Escritura está envolta em uma certa obscuridade religiosa, e que nem toda pessoa pode penetrar em seu interior sem um guia: Deus assim dispondo, como ensinavam comumente os Santos Padres, para que os homens pudessem investigar as Escrituras com mais ardor e seriedade, e para que, o que fosse atingido com mais dificuldade calasse mais profundamente na mente e no coração; e, mais que tudo, para que eles pudessem compreender que Deus entregou as Sagradas Escrituras para a Igreja, e que lendo e fazendo uso de sua palavra, eles deveriam seguir a Igreja como sua Guia e sua Mestra.

A necessidade de haver uma Guia e Mestra para compreender a Sagrada Escritura decorre, então, do próprio modo como Deus a fez redigir.

E por que Deus não fez os homens com capacidade de lerem e entenderem a Sagrada Escritura sem necessitar de outro homem como mestre e guia? Por que quer Deus que o homem aprenda pela boca de outro e receba a Fé pelo ouvido? Não poderia Deus ter feito como os protestantes pensam que Ele fez, inspirando cada um para que lesse a Escritura e dando ao leitor a compreensão de seu sentido objetivo por inspiração divina direta?

Deus não fez assim porque Ele quer salvar os homens por meio de homens. Por isso, Ele escolheu Apóstolos e Discípulos e lhes ordenou: “Ide, pois, e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mat. XXVIII, 19).

Deus quis que alguns homens fossem meio de salvação para outros para que os homens se amassem mutuamente, visto que ensinar a verdade a um homem é praticar um ato de sumo amor por ele.

A posição protestante, que não admite nenhum homem como intermediário como meio de ensinar a verdade, é contrária ao que revela a própria Bíblia, que nos mostra que Deus incumbiu alguns de ensinarem outros, e que a Fé vem pelo ouvido. A recusa de ter qualquer mestre é reveladora de um profundo orgulho. E é uma atitude tão contrária à realidade que os mesmos que não admitem que um homem ensine outro, vão de porta em porta ensinando a outros que devem ler a Bíblia. E, depois, lêem na Bíblia que “A letra mata” (II Cor. III, 6).

(fonte: Montfort)

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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13 respostas para Leia a Bíblia?

  1. Ah! Em meus tenros anos de adolescência, aprendendo, com a Montfort, a combater os hereges.

    • A Montfort teve um papel muito importante na minha vida católica, foi uma etapa que passou, mas tive minhas boas razões para me afastar dela, e agora vejo que, quanto mais passa o tempo, mais divergências temos.
      Mesmo assim, quero acreditar que eles, apesar de tantos pesares, no fundo querem fazer bem à Igreja, e presumo que não se irritarão se, vez por outra eu recapitular alguns de seus bons trabalhos – que não deixaram de ficar bons por causa de minhas rixas pessoais com eles – ao menos em vários de seus artigos e cartas, especialmente os de teor doutrinário, certos trabalhos merecem que se tire o chapéu.

      • Soube de algumas pessoas que se afastaram da Montfort por causa das relações pessoais. Então, se for assim, prefiro não conhecer ninguém pessoalmente, e ficar apenas com o legado na mente da catolicidade deles, de seus bons trabalhos, tão edificantes, e do altruísmo heroico em ser um católico militante, que o professor Orlando – ah! de tão querida memória – nos passava.

      • Você tem muita sorte de não ter conhecido o lado podre, pois então, desejo que você permaneça só com o lado bom. Só entendi o ódio que muitos tem pela associação depois que eu mesmo sofri na pele o efeito o que é ser destruido como indivíduo. O que uma língua dolosa não destroça… Fique como está, permaneça com boas recordações. É melhor assim.

  2. Bruno, Salve Maria!

    Venho até aqui para dizer que seu comentário no Fratres (“Caros católicos estarrecidos do Fratres”) está ótimo, muito lúcido. Gostaria de saber se posso publicá-lo em meu blog. É este: http://borboletasaoluar.blogspot.com/

    A Paz!

  3. Darildo de S. Fernandes disse:

    Caro Bruno, a paz, pela primeira vez visito o seu blog muito bom, precisamos de blogs que tragam doutrina de fato Católica, com relação ao post os protestantes de fato não conseguem entender as escrituras se entendessem não seriam protestantes, mas é mais fácil fundar seitas do que se converter.

  4. Os protestantes brasileiros são de um nível muito baixo, em termos de conhecimento. A maioria dos que estão nas seitas só estão porque a neo-igreja que criaram e que fazem descer goela abaixo da população é tão ruim e insossa, que qualquer pastor, convicto em seus erros, é mais convincente do que os atuais padres, salvo raríssimas exceções.

  5. Bel disse:

    O assédio das seitas evangélicas aos Católicos que não estudam a doutrina da Santa Igreja

    O contexto abaixo destina-se aos católicos para que estejam preparados para os ataques constantes de maus protestantes aos dogmas e confissões de fé da Santa Igreja. Lembramos que nem todos os protestantes observam o catolicismo com hostilidade e não poucos fiéis e pregadores realizam boas obras e assumem compromissos sólidos com a palavra de DEUS. Abaixo, conforme já disse, apresento uma espécie de sugestões que visam afugentar membros de denominações que se dizem protestantes, as quais insistem em polêmicas e que visam atacar dogmas de fé e preceitos católicos. Reconheço que é direito de todo e qualquer cidadão exercer livremente sua fé e até mesmo propaga-la, desde que tal empenho não venha demandar qualquer ato de violência ou grave ameaça. Repudio toda e qualquer forma de discriminação religiosa.

    A abordagem de um protestante a um católico desinformado sobre a Santa Igreja inicia-se geralmente da seguinte maneira:
    Protestante: “Posso falar um minutinho com o senhor ?”
    Católico: “Sim”
    Protestante: “O Senhor crê em DEUS ?”
    Católico: “Sim”
    Protestante: “O senhor crê na Bíblia ?”
    Católico: “Sim”
    Protestante: “O senhor concorda que a Bíblia é a verdade ?” Nesse ponto o católico será doutrinado e muitas vezes convencido. A resposta do católico a pergunta do protestante, naturalmente, é sim. Lógico que o católico crê na Bíblia. Então o protestante diz, por exemplo: “O senhor diz crer na bíblia. Portanto, o senhor concorda que tudo aquilo que está fora da Bíblia não deve merecer crédito ?” Resposta de um católico sem instrução: “Sim. O que está fora da Bíblia tem que ser rejeitado.” O católico está pronto para questionar a fé católica e o magistério da Santa Igreja.
    Prossegue o protestante: “O senhor poderia me mostrar pela Bíblia onde está escrito que Maria é medianeira ?” Ou então: “O senhor poderia me mostrar na Bíblia onde está escrito que Maria foi assunta ao céu ?”

    O católico não instruído e que concordou com o protestante começa a se enrolar. A resposta católica à pergunta protestante deveria ser: Católico: “Creio sim na Bíblia. Creio tanto que sigo o magistério da Igreja, coluna e sustentáculo da verdade. E dessa forma, não questiono seus dogmas e confissões de fé. Não duvido, não divido e não careço de provas. Creio de todo o meu coração.”E o católico deveria perguntar ao protestante: “Onde está na sua Bíblia que própria Bíblia é a única fonte de revelação ?”

    Infelizmente, grande parte dos católicos desconhece que o depósito integral da fé católica constitui-se de Sagradas Escrituras,Tradição Apostólica e o Magistério da Igreja. Por isso o católico acaba por aceitar os argumentos protestantes. Não estamos obrigados a provar nada pela Bíblia. São os protestantes que estão obrigados. Foram eles que acataram as heresias de Lutero homem.

    O fato é que sempre que se parte de premissas falsas, chega-se a conclusões igualmente falsas. A Bíblia não se auto define como única fonte de revelação. Este é um questionamento que o protestante não faz a si mesmo. Quem lhe dá certeza de que a Bíblia é a única fonte de revelação se ela nada fala a respeito de si própria como tal ? Em verdade, o protestante copia a doutrina de Lutero. Lutero homem, portanto, falho.

    Outra pergunta que um católico poderia fazer ao protestante é: “Onde está na sua Bíblia a relação dos livros inspirados ?” Ora, se a Bíblia nada fala a respeito dos livros inspirados, só é possível ao protestante crer na Bíblia se vier aceitar a autoridade católica, já que foi a Santa Igreja que compilou e definiu todos os textos e livros. O que Lutero homem, adúltero e bêbado fez, foi retirar livros e distorcer tantos outros. Eis a Bíblia protestante !

    Como o protestante pode ter certeza se os livros que consulta são aqueles que foram inspirados se a Bíblia nada fala a respeito dos livros inspirados ? Para provar que sua Bíblia é a Bíblia correta, o protestante necessariamente terá que sair da Bíblia e crer em homens. Na prática, quando o protestante “provar” que a sua Bíblia é a Bíblia correta, estará em verdade dizendo que nem tudo está na Bíblia, pois a sua “veracidade” só poderá ser demonstrada fora da Bíblia que nada diz respeito sobre ser única fonte de revelação ou sobre os livros inspirados.

    O protestantismo é contraditório em si mesmo. Algumas sugestões práticas podem ajudar aos católicos a inibirem o proselitismo protestante. Vejamos alguns exemplos:

    Sabemos que a Bíblia não é contraditória em ponto algum e portanto, não seria possível que a mesma se auto definisse como única fonte de revelação e ao mesmo tempo instruísse os cristãos a seguirem o magistério da Igreja. Faça como eles. Peça o texto bíblico que define a Bíblia como única fonte de revelação. Certamente eles não encontrarão o texto e então o católico poderá dizer-lhe: “A Igreja e somente a Igreja é coluna e sustentáculo da verdade. Sem a Igreja a verdade não se sustenta.”
    Quando um protestante disser, por exemplo, que crianças não devem ser batizadas, pergunte onde está escrito na Bíblia que não se deve batizar crianças e que todos só devem ser batizados quando tiverem “entendimento” ou quando decidirem levantar o dedo e “aceitar Jesus” em algum templo protestante? Pergunte logo a seguir por que ele não recita o pai nosso que está na bíblia e que Jesus professou ? E peça sempre os textos bíblicos.

    Quando o protestante começar a citar dogmas católicos que ele julga que não encontram referências bíblicas, pergunte outra vez: “você crê na bíblia ? “ Pergunte ainda: “você crê de fato que a bíblia é 100% verdadeira ? “ Ele responderá sim. Não terá outra saída. Então diga: “A Igreja é coluna e sustentáculo da verdade”. Conclua: “Eu sigo o magistério da Igreja.” E pergunte: “você faz o mesmo ou crê em sua interpretação pessoal ? “ E logo a seguir afirme. “A Bíblia ensina que interpretação alguma é de caráter individual.” Se ele disser que segue o magistério da Igreja, pergunte de que Igreja ele está falando se nenhuma das igrejas protestantes existiam quando da compilação que deu origem a Bíblia.

    O protestante poderá alegar que pertence à Igreja Invisível. Eles utilizam muito tal expressão para justificarem sua rebeldia contra a Santa Igreja. Aproveite e pergunte onde está na Bíblia que existe uma igreja invisível ? Peça o texto bíblico que fala claramente sobre a Igreja invisível. Nós é que podemos falar em Igreja invisível. A Igreja nos ensina que igreja é muito mais do que construções.

    Eles confundem examinar com interpretar.

    Em algum momento ele dirá que a palavra de Deus manda examinar as escrituras. Eles confundem examinar com interpretar. Você pergunta mais uma vez: “O senhor já leu na bíblia que nenhuma interpretação é de caráter individual ? “Quando não possuem respostas eles fazem duas outras perguntas fora do contexto inicial. Fique atento. Só se deve passar para outro tema havendo a conclusão do tema anterior.

    Ele tentará dizer: “a bíblia manda ir a todo lugar e pregar.” Então lhe diga: “Ora, se a cada protestante pode ler a Bíblia e interpreta-la, ao invés de dízimos, por que não a impressão de Bíblias para todos ? “ E acrescente também: “Se você é inspirado pelo Espírito Santo quando lê a Bíblia, basta você entregar uma Bíblia para o seu irmão que ainda não crê que o próprio Espírito Santo irá iluminá-lo e orienta-lo também”.

    O protestante poderá então dizer que a fé vem pelo ouvir. Então diga que se a fé vem pelo ouvir, e de fato vem, é melhor escutar o que a Santa Igreja ensina do que confronta-la a partir de um leitura meramente privada. E se todos que são protestantes já estão salvos pelo Sola Fide (basta crer), por que eles continuam pregando para quem já está salvo a partir de cultos e reuniões que celebram?

    Pergunte, por exemplo, onde está escrito que Lutero é santo ? Ele dirá que Lutero não é santo ou que não existe amparo bíblico para considera-lo como tal. Então emende: “Lutero não é santo ? Você está me dizendo que ele é pecador como eu ou você ?” Eles gostam de jogar com palavras e estão prontos para usar tudo que você disser contra você mesmo. Ele terá que dizer que Lutero era pecador. Então pergunte por que ele segue a teoria de Lutero sobre o Sola Scritpura (Só a Bíblia) se sabe que Lutero era pecador ?

    Antes que ele responda, pergunte se ele já leu na bíblia: “maldito o homem que confia em outro homem” ? Se você fosse protestante debochado diria que se ele permanecer confiando em outro homem, no caso Lutero, estará afrontando a bíblia e andando fora da Palavra. Essas são expressões que eles gostam. Mas não use de escárnio. Isto não nos fica bem. Se você fosse protestante ainda poderia dizer-lhe para olhar somente para Jesus. Eles sempre dizem isso para nós. Por certo ele ficaria irritado e já não seguiria a doutrinação mental que recebeu. Mas nesta hipótese, usando deboche e presunção, que méritos teríamos ?

    Concentremo-nos nos ensinamentos da Santa Igreja e deixemos de lado os chavões comuns aos protestantes. Talvez nem seja necessário esse grande número de questionamentos que apontei para um católico se ver livre do assédio de um mau protestante. Talvez você não tenha experiência ou eloquência para sustentar um debate tão prolongado e tão cheio de nuances.

    Alguns doutrinadores protestantes dizem que eles não devem insistir com alguém resistente. Segundo um destes doutrinadores, se um não quer, tem 8 ou 9 que são frágeis e, portanto não se deve perder tempo com aqueles que oferecem resistência. Você só não pode esperar que ele facilmente concorde com você e se converta. O objetivo é dispersá-lo.
    A conversão de um protestante ao catolicismo raramente se dá por exercício intelectual. O protestante é filho de Lutero. E quando falamos filho e não seguidor, é porque até mesmo Lutero é seguido apenas parcialmente. Apenas quando lhes interessa, em especial no Sola Scriptura para afrontar o catolicismo. Portanto, sendo filhos de Lutero, são necessariamente auto suficientes e apologistas de suas próprias doutrinas particulares. Cada protestante é uma espécie de dono da Bíblia. Professor, mestre, teólogo, rei, sacerdote, profeta e sempre julgará conhecer mais de catolicismo do que o próprio católico.
    Se consideram superiores ao Papa e mesmo ao Magistério da Igreja de 2000 anos. Não aceitam nem mesmo os seus pares, razão pela qual fundam milhares de denominações. Se chamado atenção, o protestante muda de denominação, faz beicinho, nega fala, rompe relacionamentos, sai de casa, larga família, deixa a denominação e vai para outra, quando não funda a sua própria seita.

    Mesmo apontando alguns de seus pares como hereges, estes mesmos, quando o adversário é o catolicismo ou quando a questão é meramente estatística, rapidamente voltam a ser irmãos em Cristo e todos estão salvos e todos são bênçãos. É comum ouvir um crente dizendo: “Já somamos 20% da população brasileira.” É como se este crente conhecesse todos os demais crentes, todas as denominações e ao mesmo tempo fosse possível a todos pregarem o Cristo verdadeiro ao mesmo tempo que cada um prega um Cristo diferente do outro. O MAU protestante é um divisor por excelência. Por onde passa divide, questiona e jamais agrega. Só protesta e nada atesta. O protestante é ávido por falar e nunca está pronto para ouvir. Tudo quer ensinar e nada quer aprender. E como sabemos, quem sabe de tudo não carece de instrução.
    Nós católicos, por nada sabermos é que seguimos o magistério da Igreja. Por isso nenhum de nós tem seguidores, mas todos seguimos a voz do pastor. Eles costumam dizer que “tomaram posição diante de DEUS.” Eles gostam desse chavão, entre tantos que criaram. Judas também tomou posição diante de DEUS. O Resultado todos já conhecem. Estivemos muito tempo adormecidos e a nossa mansidão aprendida na Igreja foi tratada como covardia pelos nossos “juízes”. Está na hora de reagirmos com sabedoria, rejeitando sempre qualquer tipo de violência, difamação, ofensas e preconceitos, mas jamais esquecendo que devemos combater a heresia, até mesmo por amor ao próximo, e, sempre, sempre, sempre, defender a Santa Igreja e a honra e dignidade da Santíssima Virgem.Combatamos o bom combate e não recusemos a perseguição.
    Conclusão: Lembrem-se católicos que não estamos obrigados a responder ou provar nada pelo Sola Scriptura(Só a Bíblia). Nós seguimos o magistério da Igreja. Seguimos a Bíblia e a Tradição. É o protestante que está obrigado pelo princípio criado por Lutero homem.

    Nossa fé pode ser explicada pela tradição e pelo Magistério da Igreja. A fé protestante não pode ser explicada pela Bíblia. Este é o “pulo do gato” do protestante. Imaginem que eu cobre de um ateu a guarda do domingo.. Seria estúpido da minha parte, sabendo que ele não é cristão, fazer-lhe tal cobrança. Agora imaginem que eu faça esta mesma cobrança, sendo que eu mesmo não guardo o domingo. Pois é. O protestante que escolheu para si o critério antibíblico “Só a Bíblia”, estabelece para nós o mesmo critério. Critério para o qual não estamos obrigados. E ele mesmo, que criou para si e para os demais o critério “Só a Bíblia”, é o primeiro a ignorá-lo quando, entre muitas situações, não observa a proibição da interpretação privada e a consagração da igreja como coluna e sustentáculo da verdade.

    Poderíamos citar uma série de inobservâncias às disposições bíblicas cometidas pelos protestantes. Mas nem precisamos. Se um protestante não é igual ao outro em matéria de fé e doutrina, e, se todos utilizam a mesma Bíblia, é óbvio que, não havendo concordância, tem alguém andando fora da Bíblia. Não estamos dizendo que católicos são melhores do que protestantes ou que podemos julgar a fé que reside no coração de cada ser humano. Estamos apenas defendendo a fé católica contra os ignorantes e os maus.

    Reconhecemos até mesmo que é direito de qualquer homem ou mulher permanecer no erro doutrinário se assim desejarem. Respeito o direito de qualquer homem ou mulher aderirem à fé, crença ou religião que mais lhe agradam.

    V.De Carvalho com a colaboração de A.Silva – Livre divulgação mencionando-se os autores

    • Agradeço pelo texto enviado, e pela intenção de enriquecer ainda mais a reflexão acerca da contradição intrínseca do protestantismo, o que denuncia como ele é falso de princípio.
      Mas houve um deslize no início do texto que atribuo certamente à ignorância dos autores;

      1 – foi dito: “Lembramos que nem todos os protestantes observam o catolicismo com hostilidade e não poucos fiéis e pregadores realizam boas obras e assumem compromissos sólidos com a palavra de DEUS”.
      É preciso esclarecer que a indiferença que determinados protestantes têm para com o catolicismo, assim como a boa intenção pessoal de cada um deles pode ATENUAR o estado deplorável em que se encontram, mas objetivamente falando, estão perigosamente expostos ao pecado mortal, especialmente se conhecem a Religião Verdadeira e se recusam a aderir a ela. Desta forma, caso tenham alguma culpa ou em um dado momento, por obediência à seita, violem algum mandamento da Lei natural, caem em pecado, e sendo assim suas boas obras perdem todo o mérito ou prêmio, servindo apenas para aumentar neles a graça da conversão, mas não contribuindo para auferir nenhum tipo de mérito diante de Deus. Fundamento o que digo em um próprio livro de catecismo católico que por sinal já transcrevi para este blog, confira o link abaixo.

      https://regisaeculorumimmortali.wordpress.com/2010/12/05/merito-das-boas-obras-i/

      Outra coisa ainda mais grave dita pelo articulista é a que se segue: “Reconheço que é direito de todo e qualquer cidadão exercer livremente sua fé e até mesmo propaga-la, desde que tal empenho não venha demandar qualquer ato de violência ou grave ameaça. Repudio toda e qualquer forma de discriminação religiosa.

      Antes de tudo, pessoalmente creio que o articulista o fez por ignorância. Mas da forma como foi dita, o articulista cai diretamente no indiferentismo religioso, tese CONDENADA pela Igreja, especialmente pelos papas Gregório XVI e Pio IX.
      Em primeiro lugar, antes que se questione se a doutrina da Igreja a respeito da Liberdade religiosa evoluiu, devo dizer que não. A doutrina da Igreja com o passar dos tempos pode se desenvolver (no sentido de ser mais completamente entendida), mas não se contradiz. O que é verdade independe de tempo ou de espaço. O que é bom sempre foi e sempre será bom.
      E neste sentido, admitir o falso direito da liberdade religiosa (colocar a verdadeira fé no mesmo nível das religiões falsas, para que o indivíduo saia escolhendo o que bem entende, como se estivesse num supermercado) é contra a fé, e condenado várias vezes pelo Magistério Ordinário da Igreja.

      Peço que leia o tópico abaixo, para encontrar algumas demonstrações das condenações papais neste sentido. E existem outras condenações do mesmo assunto que eu nem quis citar, para não prolongar demais o texto.

      https://regisaeculorumimmortali.wordpress.com/2014/03/16/consciencia-individual/

      A razão principal é que as religiões falsas não têm sequer o direito de existir, e quanto mais de se propagar, como o articulista defendeu. Elas não têm este direito, porque exatamente por serem falsas prejudicam a verdadeira Fé, não têm eficácia e são contrárias à vontade de Deus. São no mínimo obras humanas, que, seguidas ao pé da letra, podem conduzir à perdição eterna, visto que o próprio articulista demonstrou que elas têm um vértice contraditório de essência, e é exatamente no que elas têm de falso que constituem uma pedra de tropeço para quem deseja salvar a alma.

      Trata-se então de uma ditadura católica? Não disse tal coisa.
      A Igreja Católica enquanto Corpo Místico de Cristo, enquanto fundada pelo próprio Cristo sobre Pedro, e enquanto coluna e sustentáculo da Verdade, é a única religião que deve ser incentivada e auxiliada de todas as maneiras, para proveito das almas. No entanto as religiões falsas existem, e a postura católica jamais consistiu em obrigar os não-católicos a aderir ao catolicismo sob coação, mesmo porque se por se verem forçados, os homens aderirem falsamente à Igreja, todos os que o forçaram serão culpados diante de Deus de forçarem que se cometa SACRILÉGIO com o santo batismo, que é um Sacramento da Igreja!
      Portanto, a Igreja reconhece que, em relação aos não-católicos, deve-se admitir a TOLERÂNCIA RELIGIOSA, e não a LIBERDADE. Quem já está na falsa religião não deve ser forçado a aderir à verdadeira. Seu culto pode ser tolerado, sua existência não deve ser ameaçada simplesmente por este não ser da Verdadeira Fé. Mas exatamente por se tratar de uma falsa religião, ela não têm direitos. Não têm o direito de fazer proselitismo, aliciando pessoas para seu movimento, não têm direito de fazer nenhum tipo de propaganda, deve-se manter discreta, inclusive na própria forma de construção de seus templos, afim de não confundir os católicos, e deve ser favorecida o menos possível. São Luís, rei de França, para ajudar na salvação de seus súditos, favoreceu o menos que pôde aos integrantes das falsas religiões, contudo sem pressioná-los de uma forma aviltante ou que lhes jogasse no catolicismo por sentirem-se perseguidos. Na Idade Média, reconhecendo que não podiam ameaçar a integridade dos não-católicos (por exemplo, os judeus), em alguns lugares como na Espanha, os mesmos eram obrigados a ouvir algumas pregações católicas por ano, o que a sociedade fazia na esperança de que os mesmos, abandonando a dureza de seus corações, se persuadíssem que laboravam em erro. No nosso próprio país, até os dias do Império, os imigrantes que povoaram o sul, não eram coagidos a se tornarem católicos, seu culto era tolerado, mas não podiam sair pregando fora de seus ambientes, nem aliciar pessoas, nem construir igrejas com formato de templos religiosos, para evitar confusão entre os católicos.

      A Liberdade de Culto já foi condenada inúmeras vezes pela Igreja; a tolerância sempre foi admitida. Depois do Concílio Vaticano II, admitiu-se a igualdade religiosa através de vários documentos que CONTRADIZEM a doutrina oficial e imutável da Igreja. Caso deseje, posso demonstrar-lhe com mais profundidade as razões baseadas na Doutrina Católica e no Magistério dos papas a respeito.

  6. Bel disse:

    Agradeço o espaço. Não polemizo com quem me cede espaço. Deve ser dele sempre a última palavra.
    Trabalho duro para retirar das seitas as pessoas que deixaram a Santa Igreja.
    E trabalho duro para defender a Igreja, o Papa Francisco dos ataques dos malafaias e macedos da vida e trabalho duro, e, especialmente, para defender a honra da Santíssima MÃE DE DEUS.

    Não acho que todos os caminhos levam a DEUS.
    Nem acho que todas as religiões são boas ou que servem.
    Aos meus filhos impus o batismo.
    Porque se posso escolher seus nomes, seus times de futebol, seus médicos e o que comem, bebem ou vestem, também posso escolher a verdadeira religião que só existe na Igreja Católica.

    O catecismo também ensina: “Os que hoje em dia nascem em comunidades que surgiram de tais rupturas e estão imbuídos da fé em Cristo não podem ser argüidos de pecado de separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor… Justificados pela fé recebida no batismo, estão incorporados em Cristo, e por isso com razão são chamados com o nome de cristãos, e merecidamente reconhecidos pelos filhos da igreja católica como irmãos no Senhor” (Un. Redintegratio,3), (Catecismo nº. 818).”

    “Muitos elementos de santificação e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja Católica: a palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons do Espírito Santo” (UR, 3).”

    “O Espírito Santo de Cristo serve-se dessas igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação cuja força vem da plenitude da graça e da verdade que Cristo confiou à Igreja Católica”. Todos esses bens provêm de Cristo e levam a Ele e impelem à “unidade católica” (Lúmen Gentium, 8).

    De qualquer forma, agradeço o conselho e irei procurar ser mais seletiva com os textos e também mais prudente com as palavras.

    Abraços.

    A paz de Cristo.

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