Porquê me converti ao catolicismo

O que propriamente me deveria ter afastado…

Inglaterra, Beasconfield. Conhecido como jornalista, poeta, político, filósofo, orador e autor de importantes obras. Converteu-se em 1922, tornando-se defensor ardente da religião católica e da ortodoxia cristã. Já em 1908 publicou uma apologia em prosa da religião católica – “Orthodoxy” -e, em 1910 o romance simbólico “The Ball and the Cross” (A Esfera e a Cruz). Chesterton é acérrimo adversário tanto do capitalismo como do socialismo. Por ocasião do seu 60º aniversário, em Março de 1934, e em razão dos seus assinalados méritos, foi elevado pelo Papa Pio XI à dignidade de nobre da Igreja, pela concessão da Ordem de S. Gregório.

Embora eu seja católico há apenas alguns anos, reconheço no entanto que a pergunta “Por quê sou católico?” – é absolutamente diferente desta outra – “Porque me tornei católico?” – Há sempre mais razões na primeira, que se manifestam só quando um motivo inicial nos levou à execução. Tão numerosas, tão diferentes são elas, que por fim, o motivo original pode ficar suplantado, e pode aparecer quase reduzido a uma coisa secundária. Tanto no sentido real como no ritual pode a “confirmação” (que significa fortalecimento, consolidação) vir depois da conversão. Os argumentos para esta são inumeráveis, e frequentemente o convertido, mais tarde, não consegue determinar por que ordem apareceram. Mas em grande parte reduzem-se facilmente a um só.

Existe entre os homens uma curiosa espécie de agnósticos, ávidos esquadrinhadores da arte, que averiguam com sumo cuidado tudo o que em uma catedral é antigo e tudo o que nela é novo. Os católicos, ao contrário, outorgam mais importância ao fato de se a catedral foi construída para voltar a servir como o que é, quer dizer, como catedral.

Uma catedral! A ela se parece todo o edifício de minha fé; desta minha fé que é grande demais para uma descrição detalhada; e da que, com grande esforço, posso determinar as idades de suas diversas pedras. Apesar de tudo, estou seguro de que a primeira coisa que me atraiu ao catolicismo, era algo que, no fundo, deveria ter me afastado dele. Estou convencido de que vários católicos devem seus primeiros passos à Roma à amabilidade do falecido senhor Kensit(nota do editor: O sr. Kensit, pequeno livreiro da City, conhecido como protestante fanático, organizou em 1898 um bando que sistematicamente penetrava nas igrejas ritualistas e perturbava o culto divino. Morreu em 1902, de feridas recebidas num daqueles assaltos. A opinião pública em breve se voltou contra ele. Com a designação de “Imprensa Kensítica” designam-se, na Inglaterra, as publicações religiosas mais ferozmente anti-católicas, a que falta toda a razão e boa vontade.).

No primeiro caso —acredito que se tratava de Horton e Hocking— mencionavam com estremecido pavor, uma terrível blasfêmia sobre a Santíssima Virgem de um místico católico que escrevia: “Todas as criaturas devem tudo a Deus; mas a Ela, até mesmo Deus deve algum agradecimento”. Isto me sobressaltou como um som de trombeta e me disse quase em voz alta: “Que maravilhosamente dito!” Parecia como se o inimaginável fato da Encarnação pudesse com dificuldade encontrar expressão melhor e mais clara que a sugerida por aquele místico, sempre que soubesse entendê-la.

No segundo caso, alguém do jornal “Daily News” (então eu mesmo ainda era alguém do “Daily News”), como exemplo típico do “formalismo vazio” do culto católico, citou o seguinte: um bispo francês havia se dirigido a alguns soldados e operários cujo cansaço físico lhes tornava dura assistência na Missa, dizendo-lhes que Deus se contentaria apenas com sua presença, e que lhes perdoaria sem dúvida seu cansaço e sua distração. Então eu disse outra vez a mim mesmo: “Que sensata é essa gente! Se alguém corresse dez léguas para me dar uma prova de afeto, eu estaria muito agradecido, ainda que essa pessoa viesse a adormecer, logo na minha presença”.
Junto com estes dos exemplos, poderia citar ainda muitos outros procedentes daquela primeira época em que os incertos indícios de minha fé católica se nutriram quase com exclusividade de publicações anti-católicas.

Tenho uma clara lembrança do que veio em seguida a estes indícios. É algo do qual me dou tanto mais conta quanto mais desejaria que não tivesse ocorrido. Comecei a marchar para o catolicismo muito antes de conhecer àquelas duas pessoas excelentíssimas a quem, a este respeito, devo e agradeço tanto: ao reverendo Padre John O’Connor de Bradford e ao senhor Hilaire Belloc; mas o fiz sob a influência de meu acostumado liberalismo político; o fiz até na toca do “Daily News”.

Este primeiro empurrão, depois de dever-se a Deus, deve-se à história e à atitude do povo irlandês, apesar de que não haja em mim uma só gota de sangue irlandês.

Estive apenas duas vezes na Irlanda e não tenho nem interesses ali nem sei grande coisa do país. Mas isso não me impediu de reconhecer que a união existente entre os diferentes partidos da Irlanda deve-se no fundo a uma realidade religiosa, e que é por esta realidade que todo meu interesse se concentrava nesse aspecto da política liberal.

Fui descobrindo cada vez com maior nitidez, conhecendo pela história e por minhas próprias experiências, como, durante longo tempo se perseguiu por motivos inexplicáveis a um povo cristão, e continua odiando-lhe. Reconheci então que não podia ser de outra maneira, porque esses cristãos eram profundos e incômodos como aqueles que Nero jogou aos leões.

Creio que estas minhas revelações pessoais evidenciam com claridade a razão de meu catolicismo, razão que logo foi se fortificando. Poderia acrescentar agora como continuei reconhecendo depois, que a todos os grandes impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a todos aqueles seres que desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo experimentavam a sensação de estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se libertar. Na Prússia há tão pouca perspectiva para o prussianismo, como em Manchester para o individualismo manchesteriano.

Todo mundo sabe que a um velho povoado agrário, arraigado na fé e nas tradições de seus antepassados, espera-lhe um futuro maior ou pelo menos mais simples e mais direto que aos povos que não têm por base a tradição e a fé. Se este conceito se aplicasse a uma autobiografia, seria muito mais fácil escrevê-la do que se fosse esquadrinhar suas diversas evoluções, mas o sistema seria egoísta.

Eu prefiro escolher outro método para explicar breve, mas completamente o conteúdo essencial de minha convicção: não é por falta de material que atuo assim, mas pela dificuldade em escolher o mais apropriado entre todo esse material numeroso. Entretanto tratarei de insinuar um ou dois pontos que me causaram uma especial impressão.

Há no mundo milhares de modos de misticismo capazes de enlouquecer o homem. Mas há uma só maneira entre todas de colocar o homem em um estado normal. É certo que a humanidade jamais pôde viver um longo tempo sem misticismo. Até os primeiros sons agudos da voz gelada de Voltaire encontraram eco em Cagliostro.

Agora a superstição e a credulidade voltaram a expandir-se com tanta vertiginosa rapidez, que dentro de pouco o católico e o agnóstico se encontrarão lado a lado. Os católicos serão os únicos que, com razão, poderão chamar-se racionalistas. O próprio culto idolátrico pelo mistério começou com a decadência da Roma pagã apesar dos “intermezzos” de um Lucrécio ou de um Lucano.

Não é natural ser materialista e tampouco sê-lo dá uma impressão de naturalidade. Tampouco é natural contentar-se unicamente com a natureza. O homem, pelo contrário, é místico. Nascido como místico, morre também como místico, principalmente se em vida foi um agnóstico. Enquanto que todas as sociedades humanas consideram a inclinação ao misticismo como algo extraordinário, tenho eu que objetar, entretanto, que uma só sociedade entre elas, o catolicismo, leva em conta as coisas cotidianas. Todas as outras as deixam de lado e as menosprezam.

Um célebre autor publicou mais uma vez uma novela sobre a contraposição que existe entre o convento e a família (The Cloister and the hearth). Naquele tempo, há 50 anos, era realmente possível na Inglaterra imaginar uma contradição entre essas duas coisas. Hoje em dia, a assim chamada contradição, chega a ser quase um estreito parentesco. Aqueles que em outro tempo exigiam a gritos a anulação dos conventos, destroem hoje sem dissimulação a família. Este é um dos tantos fatos que testemunham a seguinte verdade: que na religião católica, os votos e as profissões mais altas e “menos razoáveis” —por assim dizer— são, entretanto, os que protegem as melhores coisas da vida diária.

Muitas correntes místicas abalaram o mundo; apenas uma se conservou: o santo está ao lado do homem simples; o peregrino mostra amor à família; o monge defende o matrimônio. Entre nós, o ótimo não é inimigo do bom. Entre nós, o ótimo é o melhor amigo do bom. Qualquer outra revelação visionária degenera por último numa ou noutra filosofia indigna do homem, em simplificações perturbadoras, em pessimismo, em otimismo, em fatalismo, em coisa nenhuma, em nada, em não-sentido, em absurdo.

Todas as religiões têm em si qualquer coisa de bom, mas o bom, a sua mesma realidade própria, a humildade e amor, e ardente gratidão a Deus, não se encontra nelas. Por mais que as penetremos, por mais respeito que lhes demonstremos, com maior claridade ainda reconhecemos também isto: nos mais profundo delas há algo diferente do puramente bom; há às vezes dúvidas metafísicas sobre a matéria, às vezes havia nelas a voz forte da natureza; outras, e isto no melhor dos casos, existe um medo da Lei e do Senhor.

Se exageramos tudo isto, nasce nas religiões uma deformação que pode ir até à adoração do demônio. Tais religiões só são toleráveis enquanto passivas. Enquanto permanecem inertes, podemos respeitá-las, como ao protestantismo vitoriano. Mas o entusiasmo mais ardente pela Santíssima Virgem ou a mais ousada imitação de São Francisco de Assis, serão sempre, na sua essência mais profunda, coisas meritórias e sãs; ninguém por isso negará a sua condição de homem nem desprezará o próximo; o que é bom nunca poderá ser bom demais. Esta é uma das características que me parecem únicas e universais ao mesmo tempo. Uma outra se segue.

Apenas a Igreja Católica pode salvar o homem da escravidão destruidora e rebaixante de ser filho da sua época. Bernard Shaw exprimiu há pouco o íntimo desejo de que toda a gente pudesse viver 300 anos, numa época mais feliz. Isso caracteriza o modo como os fabianos, segundo a sua expressão, só querem reformas verdadeiramente práticas e objetivas. De resto, é muito fácil, pois estou firmemente convencido de que, se Bernard Shaw tivesse vivido os últimos 300 anos, já há muito se teria convertido ao Catolicismo. Teria compreendido como o mundo se move num círculo, e como é pouco de confiar no seu pretendido progresso. Teria visto como a Igreja foi sacrificada a uma superstição bíblica, e a Bíblia por uma superstição darwinístico-anarquista, e teria sido o primeiro a combater contra isto. Seja como for, ele desejava a todos os homens uma experiência de 300 anos. Em contraste com todos os outros homens, possui o católico uma experiência de 20 séculos. Um homem que se torne católico fica, de repente, a ter a idade de 2.000 anos. Exprimindo-se de modo mais exato, quero dizer: só então é que se desenvolve e chega à plenitude da sua humanidade. Julga as coisas da maneira como elas movem a humanidade nas diferentes épocas e países – e não segundo as últimas notícias dos jornais.

Quando um homem moderno nos vem dizer que a sua religião é o espiritismo ou o socialismo, mostra que vive no mais recente mundo dos partidos. O socialismo é uma reação contra o capitalismo, contra a doentia acumulação de riqueza na própria nação. Completamente diferente seria a sua política, se ele vivesse em qualquer outra parte, possivelmente em Esparta ou no Tibete. O espiritismo não causaria tanta sensação, se não se constituísse um protesto ardente contra o materialismo espalhado por toda a parte. Nunca a verdadeira ou falsa crença nos espíritos sobressaltou o mundo como agora. o espiritismo seria impotente se o supra-sensível fosse reconhecido universalmente. Só depois de uma geração inteira haver afirmado, dogmática e definitivamente, que não pode haver espíritos, é que se deixou assustar por miserável espiritozinho. Pode dizer-se, como desculpa, que tais coisas são invenções da própria época. Desde há muito que a Igreja Católica demonstrou que não é invenção da sua época. É obra do seu Criador, e a despeito da idade, tão vigorosa ainda como na primeira juventude; até os seus inimigos renunciaram, no mais profundo da sua alma, à esperança de a verem morrer um dia.

 G. K. Chesterton

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Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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3 respostas para Porquê me converti ao catolicismo

  1. Ótimo texto,Chesterton para Beato! =D rs
    Espero que não se importe de colocá-lo no meu blog.

  2. Pingback: “Porquê me converti ao catolicismo” « Dominum vobiscum

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