Ação Católica para os seculares

Ação Católica é a cooperação de seculares no ministério apostólico para a salvação das almas.

Compete à autoridade eclesiástica ditar as normas que se devem seguir.

A Ação Católica consiste em amar a Deus e fazer o possível para que os outros também o amem, dever a que estamos todos obrigados. As forças unidas têm muito mais eficácia do que separadas; por isso, onde está estabelecida oficialmente a Ação Católica, nela se devem inscrever todos os que sentem em seu coração um pouco de amor de Deus.

Os modos de efetuar a Ação católica são: bons conselhos, bom exemplo e oração.

a Ação Católica se inspirava nas encíclicas sociais do papa Leão XIII (1878-1903)

Sobre a Ação Católica no Brasil

(Fonte: wikipédia)

A Ação Católica é o nome dado ao conjunto de movimentos criados pela Igreja Católica no século XX, visando ampliar sua influência na sociedade, através da inclusão de setores específicos do laicado e do fortalecimento da fé religiosa, com base na Doutrina Social da Igreja.

Em 1938, o papa Pio XI criou uma direção central para a Ação Católica. Em 1960 o papa João XXIII criou uma comissão preparatória para o apostolado dos laicos.

A Ação Católica Brasileira (ACB) foi um movimento controlado pela hierarquia da Igreja e fundado pelo cardeal Leme em 1935, que tinha naquela época o objetivo de formar leigos para colaborar com a missão da Igreja: “salvar as almas pela cristianização dos indivíduos, da família e da sociedade”, missão da época de sua fundação.

Era dirigida por Alceu Amoroso Lima (Trystão de Athaide),  com a participação de outros intelectuais católicos, muitos dos quais ligados ao Integralismo e filiados à Ação Integralista Brasileira(AIB). Com a instauração do Estado Novo, em 1937, a AIB foi extinta, assim como todos os partidos políticos, pelo então presidente Getúlio Vargas.

No pós-guerra, com a derrota do Fascismo, a liberação da Europa e a crescente influência de pensadores católicos humanistas – como Emmanuel Mounier, Teilhard de Chardin e Jacques Maritain, – além da presença no Brasil, na década de 1950, do Padre Louis Joseph Lebret (1897-1966), dominicano francês ligado ao movimento Economia e Humanismo, o pensamento social católico brasileiro sofreu grandes transformações.

No início da anos 1960, já sob o pontificado de João XXIII, o Concílio Vaticano II, suscitou uma cisão ideológica da Igreja no Brasil, em uma corrente mais à esquerda, liderada por Dom Hélder Câmara, e outra à direita, ligada a Dom Jaime de Barros Ortega e Dom Vicente Scherer.

A Ação Católica contava então com cinco organizações destinadas aos mais jovens: a Juventude Agrária Católica (JAC), formada por jovens do campo, a Juventude Estudantil Católica (JEC), formada por jovens estudantes do ensino médio (secundaristas), a Juventude Operária Católica (JOC), que atuava no meio operário, a Juventude Universitária Católica (JUC), constituída por estudantes de nível superior e a Juventude Independente Católica (JIC), formada por jovens que não fossem abrangidos pelas organizações anteriores; as mais conhecidas são a JEC, JOC e JUC. O crescente envolvimento do movimento estudantil na discussão dos problemas nacionais e das chamadas “reformas de base”, tais como a reforma agrária, acabou por engendrar a criação de uma organização política desvinculada da Igreja – a Ação Popular, constituída por antigos membros da JUC.

Posteriormente, em 1971, no auge da ditadura militar, a Ação Popular (AP) adere à luta armada, passando a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil.

***

Trocando em miúdos: ACABOU-SE A AÇÃO CATÓLICA, visto que seus ideais iniciais degeneraram. Mas ficam os ideais católicos para proveito dos leitores:  cooperação de seculares no ministério apostólico para a SALVAÇÃO DAS ALMAS.

Sobre Bruno Luís Santana

Ego Catolicus Romanus sum.
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5 respostas para Ação Católica para os seculares

  1. Candido disse:

    Da Ação Católica em São Paulo foi presidente o conhecido (e muito criticado, como muito aplaudido) professor Plínio Corrêa de Oliveira, que no auge desse movimento percebeu os germens do modernismo que nele se aninhavam. Escreveu então o livro Em Defesa da Ação Católica, mostrando os erros que então se propalavam a partir de um núcleo animado por clérigos belgas. Esse livro, que o prof. Plínio qualificou de kamikase – pois sabia bem que o arruinaria perante a crescente avalanche modernista-progressista – foi entretanto elogiado por Pio XII, através de carta do então secretário de estado do Vaticano, Mons. Montini, futuro Paulo VI. Um trecho bem significativo desse livro, trecho esse que foi destacado como um artigo pela revista Catolicismo (“Nosso Senhor é por excelência modelo de bondade, mas também de combatividade”) nos dá uma idéia mais exata do caráter do verdadeiro católico. Pois hoje louva-se apenas o aspecto do “amor”, esquecendo da combatividade contra o mal e da aversão que devemos ter contra este. Havendo interesse da parte deste blog, posso postá-lo aqui.
    Em Jesus e Maria,
    Candido

  2. Candido disse:

    Prezado Bruno:
    Segue o artigo ao qual fiz referência no comentário anterior, de 26 de julho. Embora um pouco longo, vale muito a pena. Sobre o livro Em Defesa da ação Católica, você pode encontrá-lo na íntegra na seguinte página da internet: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/EmDefesadaAçãoCatólica_R_04_2011.doc
    Candido

    Nosso Senhor é por excelência o modelo de bondade, mas também de combatividade

    Em sua vida, paixão e morte, o Divino Mestre deu-nos magníficas lições de misericórdia, mas além disso foi o exemplo — no grau mais alto que imaginar se possa — do increpador justiceiro na condenação ao mal. Sem dúvida, Ele pregou a misericórdia, mas não propugnou a impunidade sistemática em relação ao mal.

    Plinio Corrêa de Oliveira

    Formamos o propósito de reservar para análise dos textos do Novo Testamento um capítulo especial [no livro “Em Defesa da Ação Católica”] mais amplo, em que cuidaríamos particularmente da posição em que perante eles se encontram as doutrinas que defendemos.

    É óbvia a vantagem de um estudo especial neste sentido. Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força –– luta pelo bem, é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria “do meigo Rabi da Galiléia”, de que nos falava Renan, do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, do que do Homem-Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.

    Costuma-se afirmar, dentro desta ordem de idéias, que o Novo Testamento instituiu um regime tão suave nas relações entre Deus e o homem, ou entre o homem e o seu próximo, que todo o sentido de luta e de severidade teria desaparecido da Religião. Tornar-se-iam assim obsoletas as advertências e ameaças do Antigo Testamento, e o homem teria ficado emancipado de qualquer obrigação de temor de Deus ou de luta contra os adversários da Igreja.

    Sem contestar que realmente na lei da graça tenha havido uma efusão muito mais abundante da misericórdia divina, queremos demonstrar que se dá às vezes a este fato gratíssimo um alcance maior do que na realidade ele tem. Não há, graças a Deus, católico algum que, por pouco que seja instruído dos Santos Evangelhos, não se lembre do fato narrado por São Lucas, que exprime de modo admirável o reinado da misericórdia, mais amplo, mais constante e mais brilhante no Novo Testamento do que no Antigo. O Salvador fora objeto de uma afronta em uma cidade da Samaria. “Vendo isto, os seus discípulos Tiago e João disseram: Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do céu, que os consuma [aos habitantes da cidade]? Ele, porém, voltando-se para eles, repreendeu-os dizendo: Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do homem não veio para perder as almas, mas para as salvar. E foram para outra povoação” (9, 50-56).
    Misericórdia não significa impunidade sistemática do mal

    Que admirável lição de benignidade! E com que consoladora e grande freqüência Nosso Senhor repetiu lições como esta! Tenhamo-las gravadas bem fundo em nossos corações, mas aí as gravemos de modo tal que reste lugar para outras lições não menos importantes do Divino Mestre. Ele pregou certamente a misericórdia, mas não pregou a impunidade sistemática do mal. No Santo Evangelho, se Ele nos aparece muitas vezes perdoando, aparece-nos também mais de uma vez punindo ou ameaçando. Aprendamos com Ele que há circunstâncias em que é preciso perdoar, e em que seria menos perfeito punir; e também circunstâncias em que é preciso punir, e seria menos perfeito perdoar.

    Não incidamos em um unilateralismo de que o adorável exemplo do Salvador é uma condenação expressa, já que Ele soube fazer, ora uma, ora outra coisa. Não nos esqueçamos jamais do memorável fato que São Lucas narra no texto acima. E também não nos esqueçamos deste outro, simétrico ao primeiro, e que constitui uma lição de severidade que se ajusta harmonicamente à da benignidade divina, num todo perfeito; ouçamos o que de Corozain e Betsaida disse o Senhor, e aprendamos com Ele não só a divina arte de perdoar, mas a arte não menos divina de ameaçar e de punir: “Ai de ti, Corozain, ai de ti Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza. Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje. Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma, do que para ti” (Mat., 11, 21-23).

    Note-se bem: o mesmo Mestre, que não quis mandar o raio sobre o vilarejo de que acima falamos, profetizou para Corozain e Betsaida desgraças ainda maiores que as de Sodoma! Não arranquemos ao Santo Evangelho página alguma, e encontremos elemento de edificação e de imitação nas páginas sombrias como nas luminosas, pois que tanto umas quanto outras são salutaríssimos dons de Deus.

    Se a misericórdia ampliou no Novo Testamento a efusão das graças, a justiça por outro lado encontra, na rejeição de graças maiores, crimes maiores a punir. Entrelaçadas intimamente, ambas as virtudes continuam a se apoiar reciprocamente no governo do mundo por Deus. Não é exato, pois, que no Novo Testamento só haja lugar para o perdão, e não para o castigo.

    Os pecadores antes e depois de Cristo

    Mesmo depois da Redenção, continuou a existir o pecado original com o triste cortejo de suas conseqüências na vontade e na inteligência do homem. Por outro lado os homens continuaram sujeitos às tentações do demônio. E tudo isto fez com que não desaparecesse da Terra o pecado, pelo que a Igreja continuou a navegar num mar agitado, no qual a obstinação e a malícia dos pecadores erguem contra ela obstáculos que a todo momento ela deve romper. Basta um lance de olhos, ainda que superficial, na História da Igreja, para dar a esta verdade uma evidência cruel. Mais ainda. A graça santifica os que a aceitam, mas a rejeição da graça fará um homem pior do que ele era antes de a receber. É neste sentido que o Apóstolo escreve que os pagãos convertidos ao Cristianismo e depois arrastados pelas heresias se tornam piores do que eram antes de ser cristãos. O maior criminoso da História não foi certamente o pagão que condenou Jesus Cristo à morte, nem mesmo o sumo sacerdote que dirigiu a trama dos acontecimentos que culminaram com a crucifixão, mas o apóstolo infiel que por trinta dinheiros vendeu seu Mestre. “Quanto maior a altura, maior o tombo”, diz um ditado de nossa sabedoria popular. Que profunda e dolorosa consonância com os ensinamentos da Teologia tem esta asserção!

    Assim, a Santa Igreja tem de se defrontar no seu caminho com homens tão maus ou ainda piores do que aqueles que, vigente o Antigo Testamento, se insurgiram contra a lei de Deus. E o Santo Padre Pio XI, na Encíclica Divini Redemptoris, declara que em nossos dias não só alguns homens, mas “povos inteiros, se encontram no perigo de recair em uma barbárie pior que aquela em que jazia a maior parte do mundo ao aparecer o Divino Redentor”.

    Portanto, a defesa dos direitos da verdade e do bem exige que, com um vigor maior que nunca, se dobre a cerviz dos múltiplos inimigos da Igreja. Por isto deve o católico estar pronto a brandir com eficácia todas as armas legítimas, sempre que suas orações e sua cordura não bastarem para reduzir o adversário.

    Notemos nos textos seguintes quantos e quão admiráveis exemplos de argúcia penetrante, de combatividade infatigável, de franqueza heróica encontramos no Novo Testamento. Veremos assim que Nosso Senhor não foi um doutrinador sentimental, mas o Mestre infalível que, se de um lado soube pregar o amor com palavras e exemplos de uma insuperável e adorável doçura, soube também, pela palavra e pelo exemplo, pregar com insuperável e não menos adorável severidade o dever da vigilância, da argúcia, da luta aberta e rija contra os inimigos da Santa Igreja, que a brandura não puder desarmar.
    “Astúcia da serpente” — virtude evangélica

    Comecemos pela virtude da argúcia, ou, em outros termos, pela virtude evangélica da astúcia serpentina.

    São inúmeros os tópicos em que Nosso Senhor recomenda insistentemente a prudência, inculcando assim aos fiéis que não sejam de uma candura cega e perigosa, mas façam coexistir sua cordura com um amor vivaz e diligente dos dons de Deus; tão vivaz e tão diligente que o fiel possa discernir, por entre mil falsas roupagens, os inimigos que os querem roubar. Vejamos um texto. “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos rapaces. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a árvore má dá maus frutos. Não pode uma árvore boa dar maus frutos nem uma árvore má dar bons frutos. Toda a árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada no fogo. Vós os conheceis pois pelos seus frutos” (Mat., 7, 15 a 20).

    Este texto é um pequeno tratado de argúcia. Começa por afirmar que teremos diante de nós não só adversários de viseira erguida, mas falsos amigos, e que portanto nossos olhos se devem voltar vigilantes não só contra os lobos que de nós se aproximam com a pele à mostra, mas ainda contra as ovelhas, a fim de ver se em alguma não descobriremos, sob a lã alva, o pêlo ruivo e mal disfarçado de algum lobo astuto. Quer isto dizer, em outros termos, que o católico deve ter um espírito ágil e penetrante, sempre de atalaia contra as aparências, que só entrega sua confiança a quem mostrar, depois de exame meticuloso e arguto, que é ovelha autêntica.

    Os fiéis devem ser argutos, sobretudo os dirigentes católicos

    Mas como discernir a falsa ovelha da verdadeira? “Pelos frutos se conhecerão os falsos profetas”. Nosso Senhor afirma com isto que devemos ter o hábito de analisar atentamente as doutrinas e ações do próximo, a fim de conhecermos estes frutos segundo seu verdadeiro valor e de nos premunirmos contra eles quando maus.

    Para todos os fiéis esta obrigação é importante, pois que a repulsa às falsas doutrinas e às seduções dos amigos que nos arrastam ao mal ou que nos retêm na mediocridade é um dever. Mas para os dirigentes, aos quais incumbe, a título muito mais grave, vigiar por si e vigiar por outrem, e impedir, por sua argúcia e vigilância, que permaneçam entre os fiéis ou subam a cargos de grande responsabilidade homens eventualmente filiados a doutrinas ou seitas hostis à Igreja, este dever é muito maior. Ai dos dirigentes em que um sentido errado de candura faça amortecer o exercício contínuo da vigilância em torno de si! Perderão com sua desídia maior número de almas do que o fazem muitos adversários declarados do Catolicismo. Incumbidos de, sob a direção da Hierarquia, fazer multiplicar os talentos, não se limitariam eles entretanto a enterrar o tesouro, mas permitiriam por sua “boa fé” que ele caísse nas mãos dos ladrões. Se Nosso Senhor foi tão severo para com o servo que não fez render o talento, que faria Ele a quem estivesse dormindo enquanto entrava o ladrão?

    “Muitos virão em meu nome, e enganarão muitos”

    Mas passemos a outro texto. “Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sede pois astutos como as serpentes, e simples como as pombas. Acautelai-vos, porém, dos homens, porque vos farão comparecer nos seus tribunais, e vos acoitarão nas suas sinagogas; e sereis levados por minha causa à presença dos governadores e dos reis, como testemunhos diante deles e diante dos gentios” (Mat., 7, 16 a 18). Em geral, tem-se a impressão de que este texto é uma advertência exclusivamente aplicável aos tempos de perseguição religiosa declarada, já que ele só se refere à citação perante tribunais, governadores e reis, e à flagelação em sinagogas. À vista do que ocorre no mundo, seria o caso de perguntar se há um só país, hoje em dia, em que se possa ter a certeza de que, de um momento para outro, não se estará em tal caso.

    De qualquer maneira, também seria errado supor que Nosso Senhor só recomenda tão grande prudência diante de perigos ostensivamente graves, e que de modo habitual pode um dirigente renunciar comodamente à astúcia da serpente e cultivar apenas a candura da pomba. Com efeito, sempre que está em jogo a salvação de uma alma, está em jogo um valor infinito, porque pela salvação de cada alma foi derramado o sangue de Jesus Cristo. Uma alma é um tesouro maior do que o sol, e a sua perda é um mal muito mais grave do que as dores físicas ou morais que possamos sofrer atados à coluna da flagelação ou no banco dos réus.

    Assim, tem o dirigente obrigação absoluta de ter olhos atentos e penetrantes como os da serpente, no discernir todas as possíveis tentativas de infiltração nas fileiras católicas, bem como qualquer risco a que a salvação das almas possa estar exposta no setor a ele confiado.

    A este propósito é muito oportuna a citação de mais um texto. “E, respondendo Jesus, disse-lhes: Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e seduzirão muitos” (Mat., 24, 4 a 5). É um erro supor que o único risco a que os ambientes católicos possam estar expostos consiste na infiltração de idéias nitidamente errôneas. Assim como o Anticristo procurará inculcar-se como o Cristo verdadeiro, as doutrinas errôneas procurarão embuçar seus princípios em aparências de verdade, revestindo-os dolosamente de uma suposta chancela da Igreja, e assim preconizar uma complacência, uma transigência, uma tolerância que constitui rampa escorregadia por onde facilmente se desliza, aos poucos e quase sem perceber, até o pecado. Há almas tíbias que têm uma verdadeira paixão de se colocar nos confins da ortodoxia, a cavalo sobre o muro que as separa da heresia, e aí sorrir para o mal sem abandonar o bem — ou, antes, sorrir para o bem sem abandonar o mal. Infelizmente cria-se com tudo isso, muitas vezes, um ambiente em que o sensus Christi desaparece por completo, e em que apenas os rótulos conservam aparência católica. Contra isto deve ser vigilante, perspicaz, sagaz, previdente, infatigavelmente minucioso em suas observações o dirigente, sempre lembrando-se de que nem tudo que certos livros ou certos conselheiros apregoam como católico o é na realidade. “Vede que ninguém vos engane: porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e enganarão muitos” (Marc., 13, 5 a 6).

    “Introduzir-se-ão entre vós lobos arrebatadores”

    Outro texto digno de nota é este: “Estando em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, vendo os milagres que fazia. Mas Jesus não se fiava neles, porque os conhecia a todos, e porque não necessitava de que lhe dessem testemunho de homem algum, pois sabia por si mesmo o que havia no [interior do] homem” (Jo., 2, 23 a 25). Mostra-nos ele claramente que, por entre as manifestações por vezes entusiásticas que a Santa Igreja possa suscitar, devemos aproveitar todos os nossos recursos para discernir o que pode haver de inconsistente ou de falho. Foi este o exemplo do Mestre. Quando necessário, não recusará Ele ao apóstolo verdadeiramente humilde e desprendido, até luzes carismáticas e sobrenaturais para discernir os verdadeiros e os falsos amigos da Igreja. Com efeito, Ele que nos deu a recomendação expressa de sermos vigilantes não nos recusará as graças necessárias para isto. “Atendei a vós mesmos e a todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos para governardes a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, se introduzirão entre vós lobos arrebatadores, que não pouparão o rebanho” (At. 20, 28 a 29).

    A fim de não alongar por demais esta exposição, citamos apenas mais alguns textos:
    O mesmo São Pedro ainda teve mais este conselho: “Vós, pois, irmãos, estando prevenidos, acautelai-vos, para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes insensatos; mas crescei na graça e no conhecimento do Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele [seja dada] glória, agora e no dia da eternidade. Amém” (Idem, 3, 17 a 18).

    E não se julgue que só um espírito naturalmente inclinado à desconfiança pode praticar sempre tal vigilância. Em São Marcos lemos: “o que eu, pois, digo a vós, digo a todos: Vigiai” (13, 37). São João aconselha com solicitude amorosa: “Filhinhos, ninguém vos seduza” (1. Jo. 3, 5 a 7).

    A idolatria da popularidade e a impopularidade do Divino Mestre

    Como dissemos em outro capítulo, a impopularidade foi o prêmio do Mestre, depois das atitudes varonis e desassombradas de que Ele nos deu exemplo. Essa impopularidade, que é para muitos a suprema desgraça, o espantalho inspirador de todas as concessões e de todas as retiradas estratégicas, a característica sinistra de todo o apostolado fracassado aos olhos do mundo, foi contra Nosso Senhor tão grande, que chegaram a acusá-Lo de malfazejo: “E os pastores fugiram, e, indo à cidade, contaram tudo, e o sucedido com os que tinham estado possessos do demônio. E logo toda a cidade saiu ao encontro de Jesus; e, quando o viram, pediram-lhe que se retirasse do seu território” (Mat., 8, 3 a 34).

    Nosso Senhor predisse como inevitável a existência de inimigos a seus fiéis de todos os séculos, neste tópico: “O irmão entregará à morte o irmão, e o pai o filho; e os filhos se levantarão contra os pais, e lhes darão morte; e vós, por causa do meu nome, sereis odiados por todos” (Mat., 10, 19 a 22). Como se vê, é o ódio levado a ponto de suscitar luta feroz contra os seguidores de Jesus.

    E as acusações contra os fiéis serão terríveis! Mas assim mesmo não deverão eles renunciar aos processos apostólicos desassombrados: “Não é o discípulo mais que o [seu] mestre, nem o servo mais que o [seu] senhor. Basta ao discípulo ser como o mestre, e ao servo como o senhor. Se eles chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos? Não os temais pois; porque nada há encoberto que se não venha a descobrir, nem oculto que se não venha a saber. O que eu vos digo nas trevas, dizei-o às claras; e o que vos é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados” (Mat., 10, 24 a 27).

    Como já dissemos, devem os fiéis prezar altamente a estima de seus semelhantes; mas desprezar seu ódio, sempre que este seja fundado em uma aversão à Verdade ou à virtude. O apóstolo deve desejar a conversão do próximo, mas não deve confundir a conversão sincera e profunda de um homem ou de um povo com os sinais de uma popularidade de superfície. Nosso Senhor fez seus milagres para converter, e não para ser popular: “Esta geração má e adúltera pede um prodígio, mas não lhe será dado outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas” (Mat., 12, 39), disse Ele, indicando com isto que os milagres inúteis à conversão não se realizariam. Com efeito, se bem que os milagres pudessem valer certa popularidade ao Salvador, era uma popularidade inútil, porque não procedia do desejo de conhecer a Verdade.

    Para ser popular, sacrificam-se até os princípios…

    Quanto apóstolo tenta, no entanto, o possível e o impossível para ser popular, e a este anelo sacrifica até os princípios! Talvez ignore que perde assim a bem-aventurança prometida pelo Senhor aos que, por amor à ortodoxia e à virtude, eram odiados pelos inimigos da Igreja: “Sereis bem-aventurados quando os homens vos amaldiçoarem, vos perseguirem, vos odiarem, vos carregarem de opróbrios e injúrias e repelirem vosso nome como infame. Alegrai-vos e exultai, porque uma grande recompensa vos está reservada no Céu”.

    Nunca sacrifiquemos, diminuamos ou arranhemos a Verdade, por maiores que sejam os rancores que com isto pesarem sobre nós. Nosso Senhor nos deu o exemplo, pregando a verdade e o bem, expondo-se por isto até a ser preso, como vemos: “Porventura não vos deu Moisés a lei, e contudo nenhum de vós observa a lei? Por que procurais matar-me? O povo respondeu, e disse: Tu estás possesso do demônio; quem procura matar-te? Jesus respondeu, e disse-lhes: Eu fiz uma só obra, e todos estais por isso maravilhados. Vós, contudo, porque Moisés vos deu a circuncisão [se bem que ela não vem de Moisés mas dos patriarcas], circuncidai-vos, mesmo em dia de sábado. Se, para não se violar a lei de Moisés, recebe um homem a circuncisão no dia de sábado, porque vos indignais comigo por que em dia de sábado curei um homem em todo o seu corpo? Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.

    “Então, alguns de Jerusalém diziam: Não é este aquele que procuram matar? E eis que ele fala publicamente, e não lhe dizem nada. Será porque os chefes do povo tenham verdadeiramente reconhecido que este é o Cristo? Nós, porém, sabemos donde este é; e o Cristo, quando vier, ninguém saberá donde ele seja. E Jesus levantava a voz no templo, ensinando e dizendo: Vós não só me conheceis, mas sabeis donde eu sou; e eu não vim de mim mesmo, mas é verdadeiro aquele que me enviou, a quem vós não conheceis. Mas eu conheço-o, porque sou dele, e ele me enviou. Procuravam pois os judeus prendê-lo; mas ninguém lhe lançou as mãos, porque não tinha ainda chegado a sua hora” (Jo, 7, 19 a 30).

    Procedimento evangélico para com os homens de má doutrina

    É este o conselho de São Tiago:
    “Não queirais pois enganar-vos, irmãos meus muito amados” (Ti, 1, 16). Sejamos sumamente precavidos, argutos, sagazes e previdentes no discernir a boa da má doutrina.

    Mas isto não basta. As doutrinas se corporificam em homens. Devemos ser argutos, sagazes, precavidos também quanto aos homens.

    Saibamos ver o inimigo, e combatê-lo com as armas da caridade e da fortaleza:
    “Ora, o Espírito diz claramente que nos últimos tempos — estes tempos que Pio XI achou tão semelhantes aos nossos — alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, que com hipocrisia propagam a mentira e têm cauterizada a consciência” (1 Tim. 4, 1-2).

    Quanto a doutrinas e doutrinadores, tanto no terreno teológico quanto no filosófico, no político, no social, no econômico e em qualquer outro campo em que a Igreja for interessada, vale este conselho: “O que vos peço é que a vossa caridade cresça mais e mais em conhecimento e em todo o discernimento, para que possais distinguir o melhor, para que sejais sinceros e irrepreensíveis para o dia de Cristo” (Fil. 1, 9-10).

    Com efeito, nesta tristíssima época de ruína e de corrupção não seria explicável que não existissem, como no tempo dos Apóstolos, “falsos apóstolos, operários fingidos” que se infiltram nas fileiras dos filhos da luz e se transformam em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, visto que o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é pois muito que os seus ministros se transformem em ministros de justiça; mas o seu fim será segundo as suas obras” (2 Cor. 11, 13-15).

    Ter a astúcia da serpente para seguir o Santo Evangelho

    Contra estes ministros, que outra arma há senão a argúcia necessária para saber pelos atos, pelas doutrinas, distinguir entre os filhos da luz e os das trevas?
    Contra os pregadores de doutrinas errôneas, mais doces, mais fáceis, e por isto mesmo mais enganosas, a vigilância não deve ser apenas penetrante, mas ininterrupta:

    “Rogo-vos, irmãos, que não percais de vista aqueles que causem dissensões e escândalos contra a doutrina que aprendestes, e apartai-vos deles. Porque estes tais não servem a Cristo Senhor Nosso, mas ao seu ventre; e, com palavras doces e com adulações, enganam os corações dos simples. Porquanto a vossa obediência em toda parte se tornou notória. Alegro-me pois em vós. Mas quero que sejais sábios no bem e simples no mal. E o Deus de paz esmague logo a Satanás debaixo de vossos pés. A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco” (Rom. 16, 17-20).

    “Sábios no bem e simples no mal!”. Quantos há que só pregam ingenuidade e candura no serviço do bem, mas possuem uma terrível sabedoria para propagar o mal!
    Esta sabedoria serpentinamente astuciosa, para o bem, é uma virtude absolutamente tão evangélica quanto a inocência da pomba: “E digo-vos isto para que ninguém vos engane com discursos sutis” (Col. 2, 4).

    “Vede que ninguém vos engane por meio de filosofia inútil e enganadora, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo” (Col. 2, 8).
    “Ninguém vos seduza afetando humildade e culto dos anjos, divagando por coisas que nunca viu, inchado em vão com seus pensamentos carnais” (Col, 2, 18).

    A Igreja é militante e nós somos seus soldados. Serão necessários ainda mais textos a fim de provar que devemos ser, não soldados quaisquer, mas soldados vigilantes? A experiência demonstra que de nada valem as melhores virtudes militares sem a vigilância. Baste isto para persuadir que cada um deve, como “miles Christi”, desenvolver em alto grau não só a inocência da pomba, mas a astúcia da serpente, se quiser seguir na íntegra o Santo Evangelho.

    A “tática do terreno comum” — paciência não é imbecilidade

    A famosa “tática do terreno comum” consiste em evitar constantemente qualquer tema que possa constituir motivo de desavença entre católicos e não católicos, e pôr em evidência tão somente o que possa haver de comum entre uns e outros.
    Jamais uma separação de campos, um esclarecimento de ambigüidades, uma definição de atitudes. Enquanto um indivíduo for ou se disser católico, por mais que seus gestos ou palavras difiram de suas idéias, sua vida destoe de sua crença e sua própria sinceridade possa ser posta em dúvida, jamais contra ele se deverá tomar uma atitude enérgica, sob pretexto de que é preciso não “romper o arbusto partido nem extinguir a mecha que ainda fumega”. Como se deve proceder neste delicado assunto, di-lo entretanto, e eloqüentemente, o texto seguinte, que prova que uma justa paciência jamais deve atingir os limites da imprudência e da imbecilidade:

    “Toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo. Eu, na verdade, batizo-vos com água para [vos levar à] penitência, mas o que há de vir depois de mim é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de lhe carregar o calçado; ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo. Ele tem a pá na sua mão, e limpará bem a sua eira, e recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará as palhas num fogo inextinguível” (Mat., 3, 10 a 12).

    Quanto a ocultar os motivos de desacordo que nos separam daqueles que são apenas imperfeitamente nossos, o Divino Mestre não procedeu assim nas numerosas circunstâncias que abaixo examinaremos.

    Os fariseus levavam uma vida de piedade, ao menos na aparência, e Nosso Senhor, longe de ocultar o quanto esta aparência era insuficiente, por receio de os irritar e de os distanciar ainda mais de si, investiu claramente contra eles, dizendo-lhes:

    “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrara no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse entrará no reino dos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome fizemos muitos milagres? E então eu lhes direi bem alto: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que obrais a iniqüidade” (Mat., 7, 21 a 23).

    Admirável lição de energia e de combatividade do Divino Mestre
    Poderia irritar esta linguagem? Poderia ela suscitar contra o Salvador o ódio dos fariseus, em lugar de os converter? Pouco importa. As acomodações fáceis, se bem que ilusórias, não podiam ser praticadas pelo Mestre, que preferiu para si, e para seus discípulos de todos os séculos, a luta declarada:

    “Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, e a filha da sua mãe, e a nora da sua sogra. E os inimigos do homem [serão] os seus próprios domésticos. O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. E o que não toma a sua cruz e [não] me segue, não é digno de mim. O que se prende à sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida por meu amor, achá-la-á” (Mat., 10, 32 a 39).

    Como muita gente de nossos dias, com a qual espíritos acomodatícios e pacifistas preferem contemporizar perpetuamente, também os fariseus tinham “algo de bom”. Entretanto, não foram eles tratados segundo as agradáveis práticas da tática do terreno comum. Numa lógica impecável os fustigou o Mestre com as seguintes palavras:

    “Ou dizei que a árvore é boa e o seu fruto bom; ou dizei que a árvore é má, e o seu fruto mau; pois que pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras, como podeis dizer coisas boas, vós que sois maus? Porque a boca fala da abundância do coração. O homem bom tira boas coisas do bom tesouro [do seu coração]; e o mau homem tira más coisas do mau tesouro” (Mat., 12, 33 e 35).

    Quando a experiência demonstrou que os fariseus rejeitaram a imensa e adorável graça contida nas palavras fulminantes do Salvador, e ainda mais se revoltaram contra este, o Mestre nem por isto mudou de tática: “Então, aproximando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo estas palavras, se escandalizaram? Mas ele, respondendo, disse: Toda a planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada pela raiz. Deixai-os; são cegos e guias de cegos; e se um cego guia outro cego, ambos caem na fossa. E Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parábola. E Jesus respondeu: Também vós estais ainda sem inteligência?” (Mat., 15, 12 a 16).

    Com isto demonstrou Ele que o receio de desgostar e de revoltar os faltosos contra a Igreja não pode ser o único móvel de nossos processos de apostolado. E, no entanto, quantos são hoje em dia os que estão como São Pedro e os apóstolos, “sem inteligência”, e não entendem a admirável lição de energia e de combatividade que o Mestre Divino nos deu!

    Nosso Senhor increpa os hipócritas violentamente

    Qual de nossos românticos liberais seria capaz de dizer aos modernos perseguidores da Igreja estas palavras:

    “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! que pagais a dízima da hortelã e do endro e do cominho, e desprezastes os pontos mais graves da lei, a justiça, e a misericórdia e a fé. São estas coisas que era preciso praticar, sem omitir as outras. Condutores cegos, que filtrais um mosquito e engolis um camelo!

    “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque limpais o que está por fora do copo e do prato; e por dentro estais cheios de rapinas e de imundície. Fariseu cego, purifica primeiro o que está dentro do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo.

    “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros branqueados, que por fora parecem formosos aos homens, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos, e de toda podridão. Assim também vós por fora pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniqüidade.

    Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se nós tivéssemos vivido nos dias de nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas. Assim dais testemunho contra vós mesmos, de que sois filhos daqueles que mataram os profetas. Acabai pois de encher as medidas de vossos pais.

    Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, e sábios, e escribas, e matareis e crucificareis uns, e açoitareis outros nas vossas sinagogas, e os perseguireis de cidade em cidade; para que caia sobre vós todo o sangue justo que se tem derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que vós matastes entre o templo e o altar. Em verdade vos digo que tudo isto virá sobre esta geração” (Mat., 23, 23 a 36).

    Um abismo mais fundo do que antes da Redenção.

    No entanto, freqüentemente não são eles menos maus que os fariseus, já que nem sequer são bons em sua doutrina, em geral escandalosos públicos e depravados que, à corrupção dos fariseus, somam o enorme pecado do mau exemplo e do orgulho de serem maus. Voltamos a dizer que é um erro imaginar-se que já não há hoje pessoas tão más como as que existiam nos tempos de Nosso Senhor, já que Pio XI nos considerou à beira de um abismo mais profundo do que aquele em que o mundo jazia antes da Redenção. Entretanto, como são numerosas as pessoas que receariam tolamente pecar contra a caridade, se dirigissem aos adversários da Igreja uma apóstrofe tão veemente!
    Dos fariseus, disse Nosso Senhor: “Com razão Isaías profetizou de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Marc., 7, 8).

    Como imitaríamos bem o Divino Mestre, se dos materialistas corruptos dos nossos dias disséssemos: “Blasfemais contra Deus com vossos lábios, e vosso coração está longe dele”.

    Nosso Senhor previu bem que este processo irritaria sempre certos inimigos contra a Igreja: “Então o irmão entregará à morte o seu irmão, e o pai o filho; e os filhos levantar-se-ão contra os pais, e lhes darão a morte. E sereis odiados de todos por causa do meu nome. Mas o que perseverar até o fim [da sua vida], esse será salvo” (Marc., 13, 12 a 13).

    Mas a mais alta forma de caridade consiste precisamente em fazer o bem, por meio de conselhos claros –– e, se necessário for, heroicamente agudos –– àqueles mesmos que talvez nos paguem este bem arrastando-nos à morte.

    Por isto, disse Nosso Senhor aos que mais tarde O matariam, mas então O aplaudiam: “Em verdade, em verdade vos digo: vós buscais-me, não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados” (Jo, 7, 26).

    É um erro ocultar sistematicamente ao pecador seu verdadeiro estado. São João, por exemplo, não hesitou em dizer: — “Aquele que comete pecado é filho do demônio” (1, 3, 8). E por isto foi o Apóstolo do amor muito categórico, escrevendo: “Todo o que se aparta e não permanece na doutrina de Cristo não tem [união com] Deus; o que permanece na doutrina, este tem [união íntima com] o Padre e o Filho. Se alguém vem a vós, e não traz esta doutrina, não o recebais em vossa casa nem o saudeis. Porque quem o saúda participa [em certo modo] das suas obras más” (2Jo., 9 a 11).
    O procedimento do Salvador, muito diverso da orientação atual

    Em suma, a chamada “tática do terreno comum”, quando empregada não a título excepcional, mas de modo freqüente e habitual, é a canonização do respeito humano; e levando o fiel a dissimular sua Fé, é a violação declarada destas palavras do adorável Mestre: “Vós sois o sal da terra. E se o sal perder a sua força, com que será ele salgado? Para nada mais serve, senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte; nem acendem uma lucerna e a põem debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que eles vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos Céus” (Mat., 5, 13 a 16).

    Quanto ao conselho que se dá em certos círculos, de ocultar aos estagiários a aspereza da vida espiritual e as lutas interiores daí decorrentes, como é diverso o procedimento do Salvador que, às almas que desejava atrair, dizia esta verdade terrível: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência, e os violentos arrebatam-no” (Mat., 11, 12). E declarava também: “Se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor te é entrar na vida [eterna] maneta do que, tendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo inextinguível, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. E se o teu pé te escandaliza, corta-o; melhor te é entrar na vida eterna coxo do que, tendo dois pés, ser lançado no inferno num fogo inextinguível, onde o verme não morre e o fogo não se apaga. E se o teu olho te escandaliza, lança-o fora; melhor te é entrar no reino de Deus sem um olho do que, tendo dois, ser lançado no fogo do inferno, onde o verme não morre e o fogo não se apaga” (Marc., 9, 42 a 47).

    “Seja vossa palavra: sim, sim; não, não”

    Mas, poder-se-á objetar, esta linguagem não repele as almas? As almas duras, frias, tíbias, sim. Mas se Nosso Senhor não quis ter entre os seus tais almas, e usou uma linguagem apta a desviar de si esses elementos inúteis, queremos nós ser mais sábios, mais brandos e mais compassivos do que o Homem-Deus, e chamar a nós os que Ele não quis?

    Os apóstolos compreenderam e seguiram o exemplo do Mestre.

    Há em nossos dias muitos espíritos tão contentáveis, que consideram católicos apostólicos romanos dos mais autênticos, e dignos de confiança, a quaisquer políticos que falem em Deus em um ou outro discurso. É a tática de só ver o que nos une, e não o que nos separa. Quem diria a um desses vagos “deístas”, em certos círculos liberais, estas terríveis palavras de São Tiago: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem; também os demônios o crêem e temem” (Tg 2, 19)? É esta, entretanto, a conduta do cristão, cujo espírito santamente altivo não tolera subterfúgios nem sinuosidades em matéria de profissão de Fé. Como devemos fazer apostolado? Com as armas da franqueza: “Mas seja vossa palavra: sim, sim; não, não; para que não caiais em condenação” (Tg 5,12).

    Não se pode ocultar a luz de Cristo que deve iluminar o mundo

    Sem que declaremos por palavras e atos nossa Fé, não estaremos fazendo apostolado, pois que estaremos ocultando a luz de Cristo que brilha em nós, e que de nosso interior deve transbordar para iluminar o mundo: “A fim de serdes irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, sem culpa no meio de uma nação corrompida, onde vós brilhais como astros do mundo” (Fil. 2, 15).
    De nada fujamos, de nada nos envergonhemos: “Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, e de caridade, e de temperança. Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro, mas participa comigo dos trabalhos do Evangelho, segundo a virtude de Deus” (2 Tim. 1, 7- 8).
    Nesta atitude há causas de atritos? Pouco importa. Devemos viver “lutando unânimes pela fé do Evangelho; e em nada tenhamos medo dos adversários, o que para eles é sinal de perdição, e para vós de salvação, e isto vem de Deus” (Fil. 1, 27-28).

    Qualquer caridade que pretenda exercer-se em detrimento dessa regra é falsa: “O amor seja sem fingimento. Aborrecei o mal, aderi ao bem” (1 Rom. 12, 9).
    Mais uma vez insistimos: se houver quem fuja diante da austeridade da Igreja, fuja, porque não é do número dos eleitos.

    “Porque Cristo não me enviou a batizar, mas a pregar o Evangelho, não com a sabedoria das palavras, para que não se torne inútil a cruz de Cristo. Porque a palavra da cruz é uma loucura para os que se perdem; mas, para os que se salvam, isto é, para nós, é a virtude de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes. Onde está o sábio? Onde o doutor? Onde o indagador deste século? Porventura não convenceu Deus de loucura a sabedoria deste mundo? Porque, como ante a sabedoria de Deus não conheceu o mundo a Deus pela sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes por meio da loucura da pregação. Porque os judeus exigem milagres, e os gregos procuram a sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas, para os que são chamados [à salvação] quer dos judeus, quer dos gregos, é Cristo virtude de Deus e sabedoria de Deus” (1 Cor. 1, 17-24).

    “A espada do espírito, que é a palavra de Deus”

    É duro agir sempre assim. Mas um ânimo varonil, sustentado pela graça, tudo pode: “Vigiai, permanecei firmes na fé, portai-vos varonilmente” (1 Cor. 16, 13).

    Por outro lado, os que não querem lutar devem renunciar à vida de católicos, que é uma luta sem cessar, como adverte minuciosa e insistentemente o Apóstolo: “De resto, irmãos, fortalecei-vos no Senhor e no poder da sua virtude. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Porque nós não temos que lutar [somente] contra a carne e o sangue, mas sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos [espalhados] pelos ares. Portanto, tomai a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e ficar de pé depois de ter vencido tudo. Estai pois firmes, tendo cingido os vossos rins com a verdade e vestido a couraça da justiça, e tendo os pés calçados para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito, que é a palavra de Deus; orando continuamente em espírito com toda a sorte de orações e súplicas, e vigiando nisto mesmo com toda a perseverança, rogando por todos os santos e por mim, para que me seja dado abrir a minha boca e pregar com liberdade o mistério do Evangelho, do qual eu, mesmo com algemas, sou embaixador, e para que eu fale corajosamente dele, como devo” (Ef, 6, 10-20).

    Acusações lançadas aleivosamente contra Nosso Senhor

    Não é outra a doutrina que se contém neste fato da vida do Divino Salvador: “Responderam então os judeus, e disseram-lhe: Não dizemos nós com razão que tu és um samaritano, e que tens demônio? Jesus respondeu: Eu não tenho demônio; mas honro o meu Pai, e vós a mim me desonrastes. E eu não busco a minha glória; há quem tome cuidado dela, e quem fará justiça. Em verdade, em verdade vos digo: quem guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente”.

    “Disseram-lhe pois os judeus: Agora reconhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu e os profetas, e tu dizes: Quem guardar a minha palavra, não provará a morte eternamente. Porventura és maior do que nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas também morreram. Que pretendes tu ser? Jesus respondeu: Se eu me glorifico a mim mesmo, não é nada a minha glória; meu Pai é que me glorifica, aquele que vós dizeis que é vosso Deus. Mas vós não o conhecestes; eu sim, conheço-o; e, se disser que o não conheço, serei mentiroso como vós. Mas conheço-o, e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, suspirou por ver o meu dia; viu-o e ficou cheio de gozo. Disseram-lhe por isso os judeus: Tu ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão? Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que, antes que Abraão fosse feito, eu sou. Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus encobriu-se, e saiu do templo” (Jo, 8, 48 a 59).

    E não só de possesso, como ainda de blasfemo, foi Nosso Senhor acusado: “Então os judeus pegaram em pedras para lhe atirarem. Jesus disse-lhes: Tenho-vos mostrado muitas obras boas [que fiz] por virtude de meu Pai; por qual destas obras me apedrejais? Responderam-lhe os judeus: Não é por causa de nenhuma obra boa que te apedrejamos, mas pela blasfêmia, e porque tu, sendo homem, te fazes Deus” (Jo. 10. 31 a 33).

    Como Nosso Senhor, não recuemos diante de aparente insucesso

    Não procuremos só sucessos de momento, aplausos inconstantes das massas e até de nossos adversários, sucessos estes que são o fruto da tática do terreno comum.
    Várias vezes nos mostra Nosso Senhor que devemos desprezar a popularidade entre os maus: “Não há profeta sem honra, senão na sua pátria e na sua casa. E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” (Mat., 13, 57 a 58).

    Há pessoas que reputam como supremo triunfo de uma obra católica, não os louvores e bênçãos da Hierarquia, mas os aplausos dos adversários. Este critério é falacioso; entre mil outros motivos, porque às vezes há nisto mera cilada em que caímos, e na realidade nós sacrificamos princípios por este preço: “Ai de vós, quando os homens vos louvarem, porque assim faziam aos falsos profetas os pais deles” (Luc., 6, 28).

    “Esta geração perversa e adúltera pede um prodígio; mas não lhe será dado outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas. E, deixando-os, retirou-se” (Mat., 15, 4). Nosso Senhor se retirou; e nós, pelo contrário, queremos permanecer no campo estéril, desfigurando e diminuindo as verdades até arrancar aplausos. Quando estes vierem, será o sinal de que teremos passado a ser falsos profetas, em muitos casos.

    Nosso Senhor tem pena, é certo, dos que não estão de tal forma empedernidos no mal que não se salvem com um milagre: “E olhando-os em roda com indignação, contristado da cegueira dos seus corações, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi-lhe restabelecida a mão” (Marc., 3, 5).

    Mas muitos perecerão na sua cegueira: “E disse-lhes: A vós é concedido saber o mistério do reino de Deus, porém aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas para que, olhando, vejam e não reparem; e ouvindo, ouçam e não entendam, de sorte que não se convertam e lhes sejam perdoados os pecados” (Marc., 4, 11 a 12).

    Não espanta, à vista de tanto rigor, que o “meigo Rabi da Galiléia” incutisse por vezes, até em seus íntimos, verdadeiro terror: “Mas eles não compreendiam estas palavras, e temiam interrogá-lo” (Marc., 9, 31).

    Terror não muito menor causariam, por certo, profecias como esta, que demonstram à saciedade que ser apóstolo é viver de lutas, e não de aplausos: “Tomai, porém, cuidado convosco. Porque vos hão de entregar nos tribunais, e sereis açoitados nas sinagogas, e sereis por minha causa levados diante dos governadores e dos reis, para [dar] testemunho [de mim] perante eles” (Marc., 13, 9).

    Nosso Senhor Jesus Cristo não atraía a estima geral

    Por que tanto ódio contra os pregadores do Bem?

    “Eu sei que sois filhos de Abraão; mas [também sei que] procurais matar-me, porque minha palavra não penetra em vós” (Jo, 8, 37).

    Em todas as épocas haverá corações em que não penetrará a palavra da Igreja. Estes corações se encherão então de ódio, e procurarão ridicularizar, diminuir, caluniar, arrastar à apostasia ou até matar os discípulos de Nosso Senhor.

    E por isso ainda, disse Nosso Senhor aos judeus:

    “Mas agora procurais matar-me, a mim, que sou um homem que vos disse a verdade que ouvi de Deus; Abraão nunca fez isto. Vós fazeis as obras de vosso pai. E eles disseram-lhe: Nós não somos filhos da fornicação; temos um pai [que é] Deus. Mas Jesus disse-lhes: Se Deus fosse vosso pai, certamente me amaríeis, porque eu saí de Deus e vim; porque não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. Por que não conheceis vós a minha linguagem? Porque não podeis ouvir a minha palavra” (Jo, 8, 40 a 43).

    Não espanta, pois, que seus próprios milagres despertassem ódio.

    Foi o que se deu depois do estupendo milagre da ressurreição de Lázaro: “Jesus disse-lhes: Desatai-o, e deixai-o ir. Então muitos dos judeus, que tinham ido visitar Maria e Marta, e que tinham presenciado o que Jesus fizera, creram nele. Porém alguns deles foram ter com os fariseus, e disseram-lhes o que Jesus tinha feito” (Jo, 11, 44 a 46). À vista disto, como pretendem os apóstolos conservar-se sempre na estima de todos? Não percebem que nesta estima geral há muitas vezes um índice iniludível de que já não estão com Nosso Senhor?

    “Não vos admireis, irmãos, de que o mundo vos tenha ódio”

    Com efeito, todo católico verdadeiro terá inimigos:

    “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque vós não sois do mundo, antes eu vos escolhi do meio do mundo, por isso o mundo vos aborrece. Lembrai-vos daquela palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se eles me perseguiram a mim, também vos hão de perseguir a vós; se eles guardaram a minha palavra, também hão de guardar a vossa. Mas tudo isto vos farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou. Se eu não tivesse vindo, e não lhes tivesse falado, não teriam culpa, mas agora não têm desculpa do seu pecado. Aquele que me aborrece, aborrece também meu Pai” (Jo., 15, 18 a 23).
    Quanto aos aplausos estéreis e inúteis do demônio e de seus sequazes, vejamos como devem ser tratados:
    “E aconteceu que, indo nós à oração, nos veio ao encontro uma jovem, que tinha o espírito de Piton, a qual com as suas adivinhações dava muito lucro a seus amos. Esta, seguindo a Paulo e a nós, gritava, dizendo: Estes homens são servos do Deus excelso, que vos anunciam o caminho da salvação. E fazia isto muitos dias. Mas Paulo, enfadado, tendo-se voltado [para ela], disse ao espírito: Ordeno-te em nome de Jesus Cristo que saias dessa [mulher]. E ele, na mesma hora, saiu” (At, 16, 16 a 18).

    Devemos, é certo, sentir prazer quando, dos arraiais do adversário, chega-nos um ou outro aplauso de alguma alma tocada pela graça, que começa a se aproximar de nós. Mas como é diferente este aplauso, da alegria falaciosa e turbulenta dos maus, quando certos apóstolos ingênuos lhes apresentam, estropiadas e mutiladas, algumas verdades parecidas com os erros da impiedade. Neste caso, os aplausos não significam um movimento das almas para o bem, mas o júbilo que experimentam por supor que a Igreja não as quer arrancar ao mal. São aplausos de quem se alegra em poder continuar no pecado, e significam um embotamento ainda maior no mal. Estes aplausos, devemos evitá-los; e por isto colide com o Novo Testamento quem não se conforma com a impopularidade: “Não vos admireis, irmãos, de que o mundo vos tenha ódio” (1Jo, 3, 12 a 13).

    Para se obter aplausos, muitos abandonam a pureza da doutrina

    Causar irritação aos maus é muitas vezes fruto de ações nobilíssimas:
    “E os habitantes da terra se alegrarão por causa deles, e farão festas, e mandarão presentes uns aos outros, porque estes dois profetas tinham atormentado os [ímpios] que habitavam sobre a terra” (Apoc., 11, 10).

    Erram gravemente os que pensam que, sempre que a doutrina católica for pregada de maneira modelar, pela palavra e pelo exemplo, arrancará unânimes aplausos. Di-lo São Paulo:

    “E todos os que querem viver piamente em Jesus Cristo padecerão perseguição” (2 Tim. 3, 12). Como se vê neste texto, é a vida piedosa que exacerba o ódio dos maus. A Igreja não é odiada pelas imperfeições que no decurso dos séculos se tenham notado em um ou outro de seus representantes. Essas imperfeições são quase sempre meros pretextos para que o ódio dos maus fira o que a Igreja tem de divino.
    O bom odor de Cristo é um perfume de amor para os que se salvam, mas suscita ódio nos que se perdem:

    “Por que nós somos diante de Deus o bom odor de Cristo, nos que se salvam e nos que perecem; para uns, odor de morte para a sua morte; e para outros, odor de vida para a sua vida” (2 Cor., 2, 15-16).

    Como Nosso Senhor, a Igreja tem no mais alto grau a capacidade de se fazer amar por indivíduos, famílias, povos e raças inteiras. Mas por isto mesmo tem ela, como Nosso Senhor, a propriedade de ver levantar-se contra si o ódio injusto de indivíduos, famílias, povos e raças inteiras. Para o verdadeiro apóstolo, pouco importa ser amado, se esse amor não é uma expressão do amor que as almas têm, ou ao menos começam a ter a Deus; ou, de qualquer maneira, não concorre para o Reino de Deus. Qualquer outra popularidade é inútil para ele e para a Igreja. Por isto disse São Paulo:

    “Porque, em suma, o que eu procuro é a aprovação dos homens ou a de Deus? Porventura é aos homens que pretendo agradar? Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo” (Gal. 1, 6-10).

    Como vemos, a aprovação dos homens deve antes atemorizar o apóstolo de consciência delicada do que alegrá-lo: não terá ele negligenciado a pureza da doutrina, para ser tão universalmente estimado? Está ele bem certo de que flagelou a impiedade, como era do seu dever? Estará ele realmente em uma dessas situações, como Nosso Senhor no dia de Ramos? Neste caso, uma advertência: lembre-se de quanto valem os aplausos humanos, e a eles não se apegue. Amanhã, talvez, surgirão os falsos profetas que hão de atrair o povo pela pregação de uma doutrina menos austera. E o homem ainda ontem aplaudido deverá dizer aos que o louvavam:

    “Tornei-me eu logo vosso inimigo, porque vos disse a verdade? Esses [falsos apóstolos] estão cheios de zelo por vós, não retamente; antes vos querem separar, para que os sigais a eles. É bom que sejais sempre zelosos pelo bem; Filhinhos meus, por quem eu sinto de novo as dores do parto, até que Jesus Cristo se forme em vós; bem quisera eu estar agora convosco, e mudar a minha linguagem; porque estou perplexo a vosso respeito” (Gal. 4, 16-20). Mas esta linguagem não pode ser mudada, o interesse das almas o impede. E se a advertência não for ouvida, a popularidade do apóstolo soçobrará de uma vez.

    Então, se ele não tiver ânimo desapegado e varonilmente sobrenatural, ei-lo que se arrasta atrás dos que o abandonam, diluindo princípios, corroendo e desfigurando verdades, diminuindo e barateando preceitos a fim de salvar os últimos fragmentos dessa popularidade de que, inconscientemente, ele fizera um ídolo.

    O caminho da Cruz na luta contra a impiedade

    Que conduta pode diferir mais profundamente desta, do que o ânimo sobranceiro com que Nosso Senhor, profundamente triste embora, levou até a morte, e morte de Cruz, a sua luta direta e desassombrada contra a impiedade?

    Se as verdades ditas com clareza são por vezes motivo para que se embotem no mal os perversos, como é grande o jubilo do apóstolo que soube vencer seu espírito pacifista e, com golpes enérgicos, salvar as almas.

    “Porque, embora eu vos tenha entristecido com a minha carta, não me arrependo disso; se bem que tenha tido pesar, vendo que tal carta vos entristeceu, ainda que por breve tempo; agora folgo, não de vos ter entristecido, mas de que a vossa tristeza vos levou à penitência. Entristecestes-vos segundo Deus, de sorte que em nada recebestes detrimento de nós. Porque a tristeza, que é segundo Deus, produz uma penitência estável para a salvação; mas a tristeza do século produz a morte. E, se não, vede o que produziu em vós essa tristeza segundo Deus, quanta solicitude, que vigilante cuidado em vos justificardes, que indignação, que temor, que desejo [de remediar o mal], que zelo, que [desejo de] punição pela injúria feita à Igreja; vós mostrastes em tudo que éreis inocentes neste negócio” (2 Cor. 7, 8-11). (S. Paulo se refere ao caso de um incestuoso, mencionado na 1ª epístola).

    Este é o grande, o admirável prêmio dos apóstolos, bastante sobrenaturais e clarividentes para não fazerem da popularidade a única regra e o supremo anelo de seu apostolado.

    Não recuemos ante insucessos de momento, e Nosso Senhor não recusará a nosso apostolado idênticas consolações, as únicas que devemos almejar.

    Sigamos sem restrições a lição do Evangelho

    Aí estão exemplos graves, numerosos e magníficos, que nos dá o Novo Testamento. Imitemo-los, pois, como imitamos também os exemplos adoráveis de doçura, paciência, benignidade e mansidão que nos deu nosso clementíssimo Redentor.

    Para evitar todo e qualquer mal entendido, mais uma vez acentuamos que não se deve fazer desta linguagem severa a única linguagem do apóstolo. Pelo contrário, entendemos que não há apostolado completo sem que o apóstolo saiba mostrar a divina bondade do Salvador. Mas não sejamos unilaterais, e não omitamos –– por preconceitos românticos, comodismo, ou tibieza –– as lições de admirável e invencível fortaleza que Nosso Senhor nos deu. Como Ele, procuremos ser igualmente humildes e altivos, pacíficos e enérgicos, mansos e fortes, pacientes e severos. Não optemos entre umas ou outras dessas virtudes; a perfeição consiste em imitar Nosso Senhor na plenitude de seus adoráveis aspectos morais.

    (Publicado na revista Catolicismo, nº 675, março 2007, p.26 a 41 ― http://www.catolicismo.com.br . O livro Em Defesa da Ação Católica pode ser encontrado no seguinte endereço da internet: http://www.pliniocorreadeoliveira.info/EmDefesadaAçãoCatólica_R_04_2011.doc .)

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